Revolta indígena na aldeia de Reritiba e fundação da comunidade de Orobó – Espírito Santo
ALDEIA de Tapuias. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: . Acesso em: 08 de Mai. 2019. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7

Na imagem, Rugendas retrata uma aldeia de Tapuias, grupo cuja história remonta ao território onde hoje é o estado de Goiás e cujo modelo era semelhante àquela de Reritiba no Espírito Santo onde os índios se rebelaram e formaram uma comunidade independente.
Em 29 de setembro de 1742, dia de São Miguel Arcanjo, na aldeia de Reritiba - capitania do Espírito Santo, onde hoje é o município de Anchieta, que leva esse nome em homenagem ao famoso padre que ali viveu e pregou - uma briga entre um índio aldeado e um estudante do Colégio da Companhia de Jesus tomou proporções maiores do que os jesuítas poderiam ter imaginado. Após o estudante ter repreendido o índio por mau comportamento durante a celebração da missa, eles acabaram se agredindo. O que parecia ser um mero incidente acabou gerando enorme insatisfação nos indígenas membros da comunidade e acirrando os ânimos do grupo, sendo necessária uma substituição dos padres que dirigiam a povoação e afastamento do estudante para evitar maiores problemas.

A medida não foi suficiente para apaziguar a situação: os novos padres foram recebidos de forma hostil e o caso só foi remediado após a intervenção do arcediago da catedral do Rio de Janeiro, Antonio Siqueira de Quental. Ele obteve sucesso nas negociações com os índios, e os antigos padres voltaram ao aldeamento sob a condição de que os rebeldes não fossem castigados.

As desavenças entre os dois grupos, no entanto, tinham raízes profundas que dificultavam a convivência pacífica: os indígenas não se sentiam satisfeitos com a vida extremamente regrada dentro das missões, que envolvia trabalho compulsório e pouca liberdade. Deve ser também levada em conta a influência externa que estes sofriam, pois os colonos que viviam em volta da missão estavam declaradamente a favor da saída dos índios do local. Houve um episódio, após a chegada dos novos padres, em que os indígenas conseguiram do ouvidor-corregedor da capitania não só a nomeação de um deles, Manuel Lopes - um dos principais nomes à frente dos rebeldes - a capitão-mor de Reritiba, como a ordenação da retirada dos padres do local.

A ordem levou a um conflito sangrento quando índios chegaram armados no aldeamento para tirar os religiosos de lá. A situação gerou uma divisão interna dentro do grupo de indígenas entre os que ficariam ao lado dos colonizadores e aqueles que prefeririam abandonar a missão e viver separados. Os últimos fogem e conseguem fundar, já em torno de 1746, a comunidade independente Orobó.

Quem ali vivia adotava um catolicismo adaptado à vida que escolheram, com mais liberdade para inclusive manter relações com colonos que habitavam os arredores. Como dito anteriormente, os jesuítas não eram bem-vindos pela comunidade da capitania, que não tardou em agir assim que os índios conquistaram liberdade: começaram a recrutá-los para trabalhar em suas fazendas, expondo dessa forma um dos maiores motivos pelos quais apoiaram sua fuga das missões.

Não se sabe exatamente até quando Orobó se manteve de pé, apenas que a comunidade serviu de exemplo para a população indígena vizinha, como a das aldeias de Reis Magos, no Espírito Santo, e São Pedro de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, que enxergava ali uma esperança de liberdade, representando uma ameaça aos olhos das autoridades. O local chegou até a ser comparado pelo então Vice-Rei Conde das Galvêas (1735-1749) com o Quilombo dos Palmares, havendo desconfiança de que os índios teriam chegado a receber escravos fugidos na nova comunidade.

A falta de documentação acerca do destino de Orobó ou a falta de menção à comunidade nos documentos não quer dizer que ela necessariamente tenha desaparecido. Isso pode significar que, com o passar dos anos, a relação dos indígenas com a sociedade local tenha sido amenizada e os conflitos tenham diminuído ou até cessado. Podemos relacionar essa hipótese ao clima mais tranquilo decorrente da expulsão dos jesuítas em 1759 e à política indigenista de Marquês de Pombal, medidas que talvez tenham influenciado positivamente nos conflitos que envolviam a comunidade Orobó.

Saiba mais sobre esse episódio no Tema em Debate "Orobó: a nós com a exclusão de vós" pelo link https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/?temas=orobo-a-nos-com-a-exclusao-de-vos

Revolta indígena na aldeia de Reritiba e fundação da comunidade de Orobó – Espírito Santo

Documentos desta revolta

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Bibliografia

CORRÊA, Luís Rafael Araújo. A revolta dos índios de Reritiba: conflitos e disputas políticas em um aldeamento do Espírito Santo (1742-1758). Revista de História da Ueg, Porangatu, v. 6, n. 1, p.24-49, jan./jul. 2017. Disponível em: https://www.academia.edu/34088039/A_revolta_dos_%C3%ADndios_de_Reritiba_conflitos_e_disputas_pol%C3%ADticas_em_um_aldeamento_do_Esp%C3%ADrito_Santo_1742-1758_. Acesso em: 07 maio 2019.

CORRÊA, Luís Rafael Araújo. Orobó: uma comunidade indígena rebelde no Espírito Santo (artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/comunidade-indigena-rebelde/. Publicado em: 17 abr. 2018. Acesso em: 23 abr. 2018.