Quilombo do Catucá - Pernambuco
O desenhista alemão Zacharias Wagener retrata negros dançando ao som de tambores e instrumentos de cordas. Disponível em: PESAVENTO, Sandra Jatahy. Um encontro marcado – e imaginário – entre Gilberto Freyre e Albert Eckhout. Fênix: Revista de História e Estudos Culturais, v. 3, n. 2, p. 16, abr. 2006.
Localizado nas matas próximas às regiões urbanas de Recife e Olinda, o quilombo do Catucá se formou provavelmente entre os anos de 1817 e 1818. Foi descoberto pelas tropas imperiais que ali ficaram em razão da repressão à Revolução Pernambucana. O primeiro registro de atividade naquelas matas foi dado em novembro de 1818, quando foram identificados onze negros vivendo na região. Segundo o relato das tropas, eles já haviam atacado a população local algumas vezes e chegado a matar uma pessoa.

O número de negros no quilombo aumenta a partir de 1820 e 21. Isso porque, após as notícias vindas da Europa de uma revolução que pretendia uma reforma política no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, o país entrou em polvorosa e a província de Pernambuco, já conhecida por suas tensões políticas, voltou a se tornar um ambiente dividido. Os proprietários de escravos acharam uma boa estratégia armar seus cativos e outros diversos membros da população não-branca, o que facilitou as fugas para quilombos.

O fato de os negros estarem armados só piorou a situação já preocupante para as elites, e o novo governador da junta pernambucana eleito em novembro de 1821, Gervásio Pires, tornou esse problema pauta de algumas reuniões de governo. Em fevereiro do ano seguinte, é publicada uma portaria cujo objetivo é a extinção do quilombo, autorizando o Capitão-mor da vila de Igarassu a armar qualquer um que se dispusesse a combater o ajuntamento de negros fugidos. A portaria também anunciava multa aos proprietários dos escravos que fossem encontrados.

Em 20 de março, há nova reunião sobre o assunto e a repressão aumenta. Agora é permitida a execução sumária desses negros, após o aparecimento de novas queixas por parte da população. Duas semanas depois, chegam as notícias de um levante de negros contra seus senhores em locais próximos ao quilombo.

O quilombo sobreviveu ao golpe dado em Gervásio Pires em 16 de setembro de 1822, e o novo governo, a Junta dos Matutos, continuou sua repressão, desta vez com o plano de cercar as matas e cortar o acesso dos quilombolas a suprimentos. Os que foram presos no processo acabaram soltos durante a Pedrosada, revolta do militar Pedro Pedroso com conotações raciais que ocorreu em fevereiro de 1823. Ele fez questão de soltar muitos não-brancos da cadeia e em compensação prender os europeus.

Na metade de 1823, o quilombo sofre forte golpe que dura seis dias inteiros de perseguições. Poucos conseguem fugir. Uma maior ocupação das matas volta a ocorrer no contexto das lutas entre o governo brasileiro e a Confederação do Equador em 1824. Findado o movimento, há nova repressão forte ao quilombo, e a operação comandada pelas tropas imperiais, que recebeu a ajuda até de indígenas, prometia ser definitiva na luta contra os negros do Catucá.

O complexo processo de emancipação brasileiro passou por diversas batalhas regionais, que envolveram disputas sociais, militares e políticas que não se restringiram à Corte do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas. Tampouco se encerraram com o "grito do Ipiranga" em setembro de 1822.

Disputas importantes ocorreram em províncias mais afastadas, como a formação do popular Exército Libertador, o cerco às tropas portuguesas na Bahia em 1823 e, no mesmo ano, a batalha às margens do rio Jenipapo no Piauí, que juntou as forças locais às cearenses e maranhenses. No entanto, é apenas em 1825 e depois de muitas colisões entre os dois lados que Portugal finalmente reconhece a derrota por meio do Tratado de Paz, Amizade e Aliança.

Quilombo do Catucá - Pernambuco

Documentos desta revolta

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Bibliografia

CARVALHO, Marcus J. M. de. O Outro Lado da Independência: Quilombolas, Negros e Pardos em Pernambuco (Brazil), 1817-23. Luso-brazilian Review, v. 43, n. 1, p.1-30. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/4490641?amp;read-now=1&seq=24&seq=22#page_scan_tab_contents. Acesso em: 14 jul. 2019.