Revoltas

Batalha das Canoas

Rio de Janeiro

Início / fim

01 de julho de 1566 / 15 de julho de 1566

Data aproximada
"Aparição de São Sebastião". Pintura de Carlos Oswald (1915) - Acervo Palácio de São Joaquim

Na Baía de Guanabara, em julho de 1566, um exército de 180 canoas tamoias lideradas pelo cacique Guaixará orquestrou uma cilada que envolveu cinco batéis portugueses, sendo que Estácio de Sá, Governador do Rio de Janeiro, estava presente em um deles. Os indígenas tinham como objetivo retaliar a tentativa de domínio lusitano sobre a região da Guanabara. A vantagem numérica dos nativos, que disparavam uma enxurrada de flechas, gerou grande pânico nos portugueses. Um deles, ao tentar acionar um pequeno canhão que trazia na canoa, acabou colocando fogo em toda pólvora disponível, gerando uma explosão. Os bandos tupinambás apenas não conquistaram a vitória porque a própria mulher do Guaixará advertiu que o incêndio causado pelo português consumiria a todos e, portanto, deveriam fugir rapidamente do local. Apesar do triunfo iminente, os indígenas seguiram a instrução dada e optaram por retroceder em seu ataque.

O morubixaba Guaixará, que habitava no litoral Cabo Frio, reuniu-se em 1566 com outros tupinambás e alguns poucos franceses na Baía de Guanabara. Esta região já vinha sendo palco de inúmeros conflitos, em que de um lado estavam os tupinambás e franceses e, do outro, os portugueses e seus aliados temiminós. Os lusitanos buscavam povoar essa região, de modo que seu domínio sobre ela fosse consolidado, enquanto os franceses e nativos, que habitavam essa localidade, prestavam forte oposição. Esses franceses haviam tentado estabelecer uma colônia na Guanabara anos antes, iniciativa frustrada por um ataque lusitano ocorrido em 1560. Mesmo não tendo conseguido seu objetivo inicial, muitos deles permaneceram vivendo entre os tupinambás, mostrando-se contrários a esse esforço português em conquistar suas terras e auxiliando os nativos nessa luta.

Uma das formas de resistência mais praticadas por essa aliança franco-tamoia era atrair os portugueses para uma cilada e assassiná-los. Nesse sentido, a aliança preparou uma armadilha de modo que os lusitanos fossem emboscados pelos batéis indígenas. Algumas mulheres tupinambás também atuaram na batalha. Regularmente, elas participavam desses empreendimentos tendo funções práticas, como retirar água das canoas, e religiosas, como buscar auxílio no mundo sagrado.

Em julho de 1566, os tamoios aplicaram seu estratagema. Inicialmente, alguns poucos batéis foram em direção a Francisco Velho, um companheiro de Estácio de Sá, que estava em uma canoa cruzando a baía com alguns homens procurando madeira a fim de usá-la na construção da Igreja de São Sebastião. Os lusitanos aproveitavam esses períodos de calmaria para concentrarem-se na edificação da cidade do Rio de Janeiro, que nasceu entre o Pão de Açúcar e um outro rochedo, que mais tarde ficou conhecido como Cara de Cão. No entanto, essa edificação avançava de forma bastante lenta já que, desde sua fundação oficial em 1 março de 1565, os ataques franco-tamoios eram constantes.

Com o objetivo de chamar a atenção dos portugueses, os nativos cercaram a embarcação em que Francisco estava. Sendo avisado por uma sentinela do arraial, Estácio mordeu a isca e partiu com quatro batéis para combatê-los. Ao chegar próximo dos tupinambás, os indígenas propositalmente fugiram. Estácio decidiu ir atrás deles. Enquanto isso, os demais indígenas encontravam-se escondidos “numa quina de praia que os aterros posteriores desfizeram ao longo da costa – a ponta do Calabouço, não longe de onde hoje está o aeroporto Santos Dumont” (Dória, 2012, pp.126). Em meio a essa perseguição, as cinco canoas lusitanas se depararam com o restante da numerosa frota tupinambá os esperando. As inúmeras embarcações tamoias surgiram de diversas partes, colocando os portugueses em cerco fatal e deixando-os intensamente apavorados.

Um dos soldados lusitanos tentou defender-se disparando um tiro de um pequeno canhão que trazia na canoa em direção aos nativos. Apavorado, o português acidentalmente pôs fogo em toda a pólvora disponível em sua embarcação, ocasionando uma grande explosão que encheu a área de uma fumaça negra. Esse incidente gerou um susto intenso na mulher do morubixaba, que proferiu palavras em voz alta condenando o conflito. Ela advertiu que o acentuado fogaréu iria, de alguma forma, alcançar os nativos e que eles deveriam partir rapidamente. Ainda que estivessem prestes a vencer os lusitanos, os tamoios obedeceram a exortação e recuaram.

Aliviados, os portugueses enxergaram um milagre neste evento. Para eles, o acontecimento foi uma demonstração do auxílio divino que fez o céu se abrir e o próprio São Sebastião, vestido de sua armadura e emanando uma luz dourada, apareceu à índia em meio a fumaça. Além disso, passou de uma canoa para a outra assassinando vários tupinambás até que eles batessem em retirada.

Esta explicação lendária teve forte presença no imaginário nacional. Ainda que não se saiba quando foi iniciado, a cada 20 de janeiro, dia de São Sebastião, uma homenagem ao episódio passou a ser feita através da reencenação desse evento que ficaria conhecido, mais tarde, como Batalha das Canoas. Esta festividade ainda é lembrada de tempos em tempos já que, em 2014, a Arquidiocese do Rio de Janeiro, no aniversário da cidade, realizou uma procissão marítima na praia do Flamengo dedicada aos mortos portugueses, índios e franceses.

(Daniel Freitas, graduando no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ-CNE/2018-2021)

Antecedentes

O cacique Guaixará, de Cabo Frio, reuniu-se com outros tamoios da Guanabara com o objetivo de extirpar os portugueses daquela região.

Conjuntura e contexto

Fundação da cidade do Rio de Janeiro em 1565, que envolveu um esforço português em expulsar os índios daquela região de modo que ela pudesse ser povoada.

Números da Revolta

900 participantes.

Tipologia

Modelo de conflito

Grupos Sociais

Soberania

A revolta foi interrompida pelas seguintes razões

Grupos sociais

Autoridades

Lideranças

Ações de protesto não-violentas

  • Não informadas

Ações de protesto violentas

  • Batalhas e combates
  • Emboscada
  • Flechas Disparadas

Repressão

Contenção

  • Envio de Armada Naval
  • Expedição armada ou repressão militar

Instâncias Administrativas

  • Governador da Capitania

Bibliografia Básica

DORIA, Pedro. 1565 – Enquanto o Brasil nascia: a aventura de portugueses, franceses, índios e negros na fundação do país. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012, p. 126-127.

SILVA, Rafael Freitas. O Rio antes do Rio. Rio de Janeiro: Babilônia Cultural Editora, 2015, p. 408-409.

Fontes impressas

SALVADOR, Frei Vicente. História do Brasil: 1500-1627. Belo Horizonte, Itatiaia/São Paulo, Edusp, 1982, p. 50-51.

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