Massacre em Carrancas

Em uma fazenda do interior mineiro, escravos se rebelam e se vingam dos senhores com brutalidade. O episódio iria mudar as leis do país.
Marcos Ferreira de Andrade
marcos.andrade@pq.cnpq.br

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“The Cocoon of Dread”, gravura de 1831 referente à Revolta de Nat Turner, rebelião escrava ocorrida na Virgínia.

 

O dia começava cedo para os escravos da fazenda Campo Alegre, com um ritmo intenso de trabalho. Como de costume, na parte da manhã, antes mesmo do sol raiar, eles já tinham tirado leite, alimentado os bois, as vacas e os cavalos. Do meio dia em diante trabalhavam na roça, cuidando das lavouras de milho, feijão, arroz, fumo, etc. Muitos desses escravos vieram de diferentes regiões da África, depois de fazerem a dolorosa travessia nos navios negreiros e de serem desembarcados no porto do Rio de Janeiro. Outros tantos, descendentes de africanos, haviam nascidos no Brasil. A adaptação, a sobrevivência em terra estranha, o trabalho pesado, a perda dos laços familiares e culturais exigiam força e determinação para reconstruir uma nova vida, dentro das condições possíveis impostas pelo cativeiro. Muitos conseguiram estabelecer novos laços familiares, preservar alguns aspectos de sua cultura, mesmo sob a vigília constante do feitor e do senhor.

 

As fazendas Campo Alegre e Bela Cruz na província de Minas Gerais onde esses escravos viviam faziam parte de uma grande extensão de terra concedida pela Coroa a João Francisco, português de São Simão da Junqueira. Este chegou na comarca do Rio das Mortes por volta de 1750 e deixou numerosa descendência, dando início à saga de uma grande família do sudeste mineiro, detentora de vastas propriedades e escravaria. Na terceira década do século XIX, as propriedades de seus filhos estavam entre as melhores e as mais bem equipadas, com grande escravaria para os padrões da época (entre 30 e até mais de 100 cativos), centenas de cabeças de gado, cavalos e porcos e vendiam grande parte de sua produção na Corte. A importância socioeconômica da família também se refletiu no campo da política, pois um de seus membros, Gabriel Francisco Junqueira, tornou-se deputado geral da província de Minas por várias legislaturas seguidas ao longo da década de 1830.

 

Para os escravos parecia que as coisas não tinham mudado muito, ou ao contrário. O vaivém de tropas entre Minas e Rio de Janeiro e o desenvolvimento das propriedades só fez aumentar o ritmo de trabalho. Era mais gado para cuidar, mais roças para plantar e os parcos recursos existentes para os escravos se tornavam mais disputados, pois o número de cativos também crescia, exigência quase que natural para tocar os negócios das fazendas. Alguns deles exerciam a atividade de tropeiro e estabeleciam contato frequente com a Corte. Com isso ficavam sabendo, a seu modo, dos últimos acontecimentos do período das Regências, dos conflitos entre brasileiros e lusitanos e dos significados da liberdade, além de se tornarem responsáveis, não só pelo transporte de mercadorias, mas também de notícias.

 

A tarde do dia 13 de maio de 1833 seria fatídica e traçaria um novo rumo para alguns escravos das fazendas da família Junqueira. A fazenda Campo Alegre estava sob a responsabilidade do filho do deputado, Gabriel Francisco de Andrade Junqueira, que, na ausência do pai, conduzia todos negócios da fazenda, além de supervisionar o trabalho dos escravos. Naquele dia, seu pai se encontrava na Corte, cuidando de suas funções no parlamento nacional. Antes do meio-dia, como de costume, foi até a roça fiscalizar o trabalho de seus escravos. Como sempre fazia, solicitou a um cativo da casa que arriasse o seu cavalo, montou-o e seguiu em direção à roça. Ao chegar, nada percebeu de estranho e, como sempre, encontrou os escravos preparando a terra, cuidando das lavouras de milho e feijão, dentre outras. A tranquilidade era apenas aparente. Sem condições de oferecer nenhuma reação, ainda montado em seu cavalo, Gabriel Francisco foi surpreendido por Ventura Mina, que o retirou à força de cima do animal, e, juntamente, com Julião e Domingos, deram-lhe várias porretadas na cabeça, levando-o à morte alguns instantes depois.

 

Naquele instante, alguns dos escravos que estavam trabalhando na roça formaram um grupo e seguiram em direção à sede da fazenda Campo Alegre, todos liderados por Ventura Mina. Além de Julião e Domingos, o grupo agora era bem maior e contava com a participação de Antônio Resende, João, cabundá, André, crioulo, e José, mina, dentre outros. Só não atacaram a sede da fazenda porque um escravo, de nome Francisco, havia saído às pressas em direção à sede da fazenda, montado a cavalo, e avisou aos outros familiares do deputado o que havia acontecido na roça. Os escravos chegaram até ao terreiro da fazenda, mas perceberam que ela estava guarnecida por capitães do mato. Os insurgentes, então, “arrepiaram a carreira tomando a direção da fazenda Bela Cruz”.

 

Ali se passou o momento mais dramático da revolta, onde os escravos assassinaram todos os brancos ali existentes. Depois de deixarem a fazenda Campo Alegre, os escravos, liderados por Ventura Mina, seguiram para a fazenda Bela Cruz que ficava, aproximadamente, uma légua de distância da de Campo Alegre. Ao chegarem na roça da Bela Cruz, os insurgentes relataram aos outros escravos o que ocorrera em Campo Alegre, convocando-os a fazer o mesmo com os brancos dali. A partir daquele momento o grupo se ampliara bastante, ultrapassando o número de 30 cativos, que logo se dirigiu à sede da fazenda.

 

Os escravos invadiram a casa grande, investindo diretamente contra José Francisco Junqueira, sua mulher, Antônia Maria de Jesus, que se recolheram rapidamente e se trancaram num quarto. Mas nem por isso escaparam da violência dos cativos. O escravo Antônio Retireiro buscou um machado e o “entregou a Manoel das Vacas o que ficou trabalhando para arrombar a porta, enquanto aquele (…) trouxe uma pistola carregada saltando o muro, e foi arrombar a outra porta de trás”. Depois de arrombarem a porta do quarto, Antônio Retireiro, com a arma que tinha na mão, disparou na face de seu senhor, ficando mortalmente ferido e “ainda teve que sofrer muitos maiores tormentos, com sua mulher, filha e neta, os quais foram todos massacrados com inaudita crueldade dentro daquele quarto a olho de machado, tendo parte nesta incrível matança todos os escravos vindos de Campo Alegre (…) e grande parte dos da Bela Cruz”. No auto de corpo de delito consta que a mulher de José Francisco Junqueira, além de apresentar ferimentos no rosto, couro cabeludo e grande efusão de sangue, cujas feridas foram feitas com instrumentos cortantes, também se encontrava bastante ensanguentada da cintura para baixo, causando certo constrangimento às testemunhas, impedindo que dessem prosseguimento ao exame.

 

Ana Cândida da Costa, viúva de Francisco José Junqueira e duas crianças seriam as próximas vítimas dos escravos. Esta foi morta a golpes de foice e cacetadas no quintal da dita fazenda pelos escravos Sebastião, Pedro Congo, Manoel Joaquim e Bernardo. O estado em que foi encontrada era lastimável, pois sua cabeça e rosto estavam irreconhecíveis e não se achava “unida ao corpo”. Já o menino José “foi morto pelo crioulo Andre, e o mesmo Pedro Congo e Manoel Joaquim, a menina Antonia (…) foi morta pelo Manoel das Caldas, Sebastião e Bernardo, e a criança de peito (…) foi morta pelo crioulo Quintiliano que a mandou lançar pelo Euzébio no cubo do Moinho”.

 

Os escravos utilizaram-se de instrumentos de trabalho – paus, foices e machados – e mesmo armas de fogo para cometer os assassinatos nas duas fazendas. A crueldade com que foram executadas as mortes, relatadas com detalhes no auto de corpo de delito, certamente contribuiu para extremar o pavor em relação às insurreições escravas, reforçar os mecanismos de controle e repressão e revelar o caráter aterrador da violência coletiva em si. Dona Emiliana Francisca Junqueira, por exemplo, “se achava com um grande golpe na cabeça pela parte de trás e logo acima na nuca que lhe tinha separado a maior parte do crânio, além de muitas outras feridas que tinha no rosto e que todas mostravam ser feitas com instrumentos cortantes”.

 

Os escravos estavam determinados a exterminar todos os brancos daquela propriedade, tanto que parte deles permaneceu na Bela Cruz e preparou uma emboscada para também assassinar o genro de José Francisco, Manoel José da Costa, mandando avisá-lo “do sucesso ali acontecido, e que todos tinham já partido para o Jardim e acudindo ele a casa sem refletir no engano assim que foi entrando pela porteira saíram os que estavam de emboscada, e o mataram com paus”. O mesmo estava na fazenda Campo Alegre, quando foi assassinado o filho do deputado. Alguns escravos ficaram atrás da senzala, outros, atrás de uma casa de carros e um terceiro grupo, encostados no muro, pela parte de dentro. Assim que Manoel José da Costa atravessou a porteira estes “cairam sobre ele e o mataram a bordoadas, e por fim não ficando ainda bem morto deram lhe um tiro”.

 

Liderados pelo escravo Ventura, o outro grupo seguira em direção à fazenda Bom Jardim, para ali fazerem o mesmo e darem prosseguimento à insurreição. Encontraram, pelo caminho, um agregado da mesma fazenda que se dirigia à Bela Cruz em busca de mantimentos. Os escravos o assassinaram, “sendo o Ventura que lhe deu o primeiro golpe mortal com sua foice e depois o acabou de matar Manoel das Vacas, com um porrete”. Ao chegarem nesta fazenda encontraram forte resistência por parte do proprietário e de seus escravos, sendo o líder Ventura ferido gravemente. João Cândido da Costa Junqueira já havia sido informado dos trágicos acontecimentos de Campo Alegre e Bela Cruz e, rapidamente, armou parte de sua escravaria de confiança e a reuniu em uma sala e ficou à espera dos insurgentes. A maioria dos escravos ficou trancafiado na senzala. Depois de um tempo, Ventura Mina e os insurgentes apareceram, sendo recebidos à bala, o que causou a imediata dispersão do grupo. As informações sobre os combates entre o fazendeiro e seu braço de escravos armados e os cativos insurretos foram escassas nos autos e não mereceram muita atenção nos relatos feitos pelas autoridades da época. O que se sabe é que esse confronto teve como resultado a morte do líder Ventura Mina e de mais quatro companheiros, João Inácio, Firmino, Matias e Antônio Cigano e o fim da revolta. A convocação da guarda nacional e o esquema repressivo foram acionados logo após esse último combate. Embora o líder tenha sido morto, havia um receio de que a insurreição se estendesse, uma vez que muitos escravos se embrenharam nas matas da região, sendo capturados alguns dias depois.

 

As fazendas Campo Alegre e Bela Cruz (esta última ainda se encontrada edificada, mas bastante modificada, no município de Cruzília) serviram de palco ao trágico acontecimento que, no plano da história, representou um marco das insurreições escravas na província de Minas Gerais e do Império. Para os descendentes dos Junqueira, um massacre, que, se pudessem, apagariam da memória. Para os escravos, representou uma tentativa desesperada e arriscada na busca da liberdade, com consequências também terríveis para dezenas deles.

 

Saiba mais na segunda parte do texto

 

Marcos Ferreira de Andrade é professor de História da Universidade Federal de São João del-Rei-UFSJ e autor do livro Elites regionais e a formação do Estado Imperial brasileiro: Minas Gerais – Campanha da Princesa (1799-1850). 2ª. Edição revista e atualizada. Belo Horizonte: Fino Traço, 2014, tese premiada em 2008 pelo Arquivo Nacional.

 

ANDRADE, Marcos Ferreira de. Rebeliões escravas na Comarca do Rio das Mortes, Minas Gerais: o caso Carrancas. Afro-Ásia. Salvador, nº 21-22 (1998-1999), 45-82.
REIS, João José Reis. Rebelião escrava no Brasil. A história da revolta dos Malês em 1835. Edição revista e ampliada. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
RIBEIRO, João Luiz. No meio das galinhas as baratas não têm razão. Rio de Janeiro: Renovar, 2005.

 

Fontes utilizadas: Escritório Técnico do IPHAN – Seção São João del-Rei: Processo-crime de Insurreição (1833), caixa PC 29-01; Inventário de José Francisco Junqueira, 1833; Petição de Antônio Resende (1848), cx. 05-14.

  • Fabio disse:

    Excelente texto, vou esperar a segunda parte. Mas o texto faz muita referencia a violência utilizada pelos escravos, e praticamente nada fala sobre a verdadeira violência que era a instituição escravista. E também não fala nada sobre como era a vida desses escravos nesta fazenda.

    • Marcos disse:

      Caro Fabio. Agradeço-lhe pelos comentários. Nas dimensões do texto, tive que fazer algumas escolhas.
      A ênfase na violência dos escravos foi proposital, pois a revolta de Carrancas não deixa de ser a nossa versão da revolta Nat Turner da Virgínia.
      Na segunda parte do texto, você verá que a punição que receberam também foi extremamente violenta. E sobre o cotidiano dos escravos, faço uma breve menção no primeiro e segundo parágrafos dessa primeira parte. Para maior aprofundamento dessas questões sugiro a leitura dos meus textos disponíveis na internet, incluindo o artigo da revista Afro-Asia, e também a segunda edição do meu livro. Reitero que todos os questionamentos são muito bem-vindos, pois estou trabalhando na escrita de um livro específico sobre a revolta.

  • Francisca Dutra disse:

    Marcos, que bela escrita romanceada. Pena não se tratar de ficção. Parabéns! Semana que vem envia o link novamente.

    • Marcos disse:

      Francisca, obrigado! De fato, trata-se de um dos capítulos mais dramáticos da história da escravidão no Brasil. E não é nenhuma ficção. É uma história que precisa ser conhecida do grande público.

      • Juliana F da silva. disse:

        MRcos gostei muito dos seus escritos. Gostaria que vc levantasse uma possível história de um feitor chamado Roberval que foi morto por escravos numa fazenda antiga de Minas. Segundo um relato ele era muito mau e foi pego pelos escravos que também mataram o filho do senhor. E uma história com muitas lacunas mas se vc souber algo por favor escreva sobre e uma história revelada como uma história de vidas passadas uma história de amor que pode esse feitor estar reencarnado hoje, sei que parece novela mas se souber algo semelhante por favor escreva. Agradecida..

  • Watson Lemos disse:

    Sensacional! parabéns ao artigo histórico, muito interessante! não conhecia o site.

  • Maria Leonia Chaves de Resende disse:

    Cumprimentos, Marcos! Seu trabalho é muito instigante!

  • Eneida Ferraz disse:

    Ontem me lembrei da Revolta de Carrancas a propósito da estréia do filme “O Nascimento de Uma Nação”. Parabéns, Marcos, pelo trabalho e pela publicação deste texto.

  • Vanessa Manes disse:

    Parabéns pela pesquisa e texto.
    É o relato mais completo, mesmo sendo conciso, que li até hj.
    Mapear e conseguir reconstruir as insurreições que o Brasil viveu é uma tarefa importante, principalmente aquelas que foram apagadas e esquecidas por razões óbvias.

    • Marcos disse:

      Cara Vanessa! Obrigado pelas palavras tão gentis!
      É muito bom saber que conseguimos passar para o leitor a densidade do acontecimento, mas de forma concisa e clara.
      E esse retorno de vocês é muito importante, pois estou estruturando um livro específico sobre a revolta.
      Divulgar o conhecimento produzido nas universidades é uma obrigação nossa.
      E nesse sentido quero parabenizar ao prof. Luciano Figueiredo, ao Gabriel e toda a equipe envolvida no projeto.
      E principalmente por disponibilizar, de forma tão cuidadosa, mas também atrativa, uma série de textos e documentos que estão disponíveis no site.

      • JONAS disse:

        Marcos,
        Essa fazenda Bom Jardim a qual se refere no texto ficava situada onde hoje é a cidade de Bom Jardim de Minas?

        • Marcos disse:

          Prezado Jonas,

          não, essa fazenda estava localizada próximo a São Thomé das Letras e São Bento do Abade. Dizem que existem as ruínas da fazenda, mas ainda não tive oportunidade de visitar.

  • Gian brandao disse:

    Simplesmente espetacular. Que bom ter lido isso. Nos que pisamos essas terras não temos momento conhecimento do que aqui acontecei. Obrigado pelo texto

    • Marcos disse:

      Obrigado, Gian! A importância da pesquisa reside justamente nisso, quando podemos compartilhar com um público mais amplo. E também é muito importante esse retorno da parte de vocês, justamente no momento em que venho preparando um livro específico sobre a revolta.

  • Jair Luiz de Freitas disse:

    O texto é ótimo, professor. As descrições dos negros levando a revolta de uma fazenda à outra mostram o quanto eram emaranhados os laços de solidariedade e desunião dentro do cativeiro, quando Ventura mina tem auxílio de outros dois companheiros de eito para matar o filho do senhor, e, no mesmo instante, um dos escravos sai em galope em direção a sede para alertar os brancos, ou ainda quando os revoltosos conseguem a ajuda dos negros da Bela Cruz em matar os que estavam na casa e em armar tocaias para os que se aproximavam, ao mesmo tempo em que os senhores puderam confiar armas a alguns outros escravos da fazenda Bom Jardim. A sua artimanha em lidar com o caso de Carrancas tem demonstrado o quão elaborado eram os laços construídos por esses africanos e crioulos sob a escravidão. Aguardo a outra parte do texto. Abraço

  • Marcos disse:

    Caro Jair,

    realmente é necessário lidar com a complexidade das relações sociais tecidas entre os escravos levando em consideração a experiência do cativeiro. E temos que considerar que uma insurreição não era algo que fazia parte do cotidiano da escravidão. Era um empreendimento de alto risco que implicava em mortes de ambos os lados, como de fato implicou, de lutas sangrentas. Creio que os estudos de casos são essenciais para constatarmos as possibilidades e os limites da solidariedade entre os cativos, que muitas vezes fica reduzida a uma clivagem absoluta entre africanos e crioulos. E penso que em Carrancas essa solidariedade foi possível em virtude da revolta ter ocorrido em áreas rurais. Africanos e crioulos conviviam com muita proximidade, mas também havia disputas e lugares diferenciados no cotidiano da escravidão, conforme aparece na revolta de Carrancas. Obrigado pelos elogios e comentários!

  • Giovana de Cássia Ramos Fanelli disse:

    De tirar o fôlego! A maneira como escreve é absurdamente plástico. Vivenciei cada cena. Excelente trabalho.

    • Marcos disse:

      Cara Giovana,

      esse retorno do leitor é fundamental, pois demonstra que estou na trilha certa da narrativa da revolta. Obrigado!

  • Fernando dos Reis disse:

    Bom dia, Marcos. Sou pesquisador da família Junqueira e gostaria muito de falar com o sr. a respeito do crime de Carrancas. Aguardo contato, forte abraço.

  • Dalton Cipriani disse:

    Excelente terço.
    Já havia abordado este episódio com alguns turistas que visitam a região.
    Sempre interessante pra nós observar o desenvolvimento dos fatos que envolvem os escravos do ciclo do ouro e café.

    • Marcos disse:

      Prezado Dalton. Obrigado!
      Espero que o texto seja útil para a compreensão e a contextualização histórica correta desse importante capítulo da história da escravidão e das revoltas escravas ocorridas na década de 1830, no Império do Brasil.

  • Pedro disse:

    Excelente texto!

  • jair Wallace Dias disse:

    Este genocídio cometido pelos escravos nas Fazendas Campo Alegre
    e Bela Cruz. foi uma das principais revoltas de escravos ocorridas no
    Brasil, mas de pouco conhecimento do povo brasileiro. O trabalho
    que você realizou é extraordinário e de grande importância
    histórica para á atualidade e também para as gerações futuras.
    José Francisco Junqueira, foi o meu sétimo antepassado direto.

    • Marcos Ferreira Andrade disse:

      Prezado Jair,

      obrigado pelos comentários. Estou trabalhando na escrita de um livro específico sobre a revolta. Quando for publicado, divulgarei por aqui.

  • Ventura Mina tem alguma estátua? Virou nome de praça ou de alguma rua? A revolta se deu onde hj é o município de Carrancas? disse:

    Eduardo Maia Esper

    • Marcos disse:

      Prezado Eduardo,

      essa é uma questão muito importante, ainda mais no contexto atual de derrubada de estátuas relacionadas ao passado escravista, especialmente daqueles personagens ligados ao tráfico de escravos. Desde o início da minha pesquisa e da divulgação do primeiro artigo em 1998/1999 (o artigo pode ser encontrado na internet, no site da revista Afro-Asia, da Universidade Federal da Bahia), meu compromisso foi sempre o de socializar o conhecimento produzido na Universidade Pública, que, no momento atual, tem sido alvo de ataque e de um projeto privatista e de perseguição às áreas das ciências humanas. De uns anos para cá, venho desenvolvendo uma pesquisa de história oral na região de Carrancas, Cruzília e São Tomé e as apropriações desse fato histórico têm gerado vários debates. Posso citar um exemplo: há interesse da comunidade de Carrancas em considerar o dia 13 de maio como feriado municipal, com o objetivo de desenvolver, nesse dia, atividades e reflexões que rememorem não só a história da revolta, mas também a história dos negros na região. Mas essa é uma iniciativa que tem partir das próprias comunidades. Claro que a medida que a história vai ficando mais conhecida, há inúmeras apropriações. E fico feliz em ver a comunidade se apropriar dessa história e tomar tais iniciativas. Eu mesmo tenho desenvolvido várias ações nesse sentido, como palestras para alunos de escolas públicas, trabalhadores rurais e demais membros das comunidades. Em relação à revolta, como ela ocorreu no ano de 1833, um pouco antes da invenção da fotografia, não há possibilidade de qualquer registro iconográfico sobre Ventura Mina ou qualquer participante da revolta. As fotos e as representações da família senhorial, por exemplo, só foram possíveis a partir da segunda metade do século XIX. Mas está para ser lançado um documentário, do qual eu participei como entrevistado, por uma produtora aqui de Belo Horizonte, em que um artista plástico bem conhecido e respeitado fez uma representação iconográfica de Ventura Mina. Mas é uma criação livre, pois não há qualquer menção aos atributos físicos de Ventura Mina nos documentos relativos à revolta que permitissem algum tipo de “retrato falado”, como poderia ser imaginado em relação aos anúncios dos escravos fugidos que aparecem nos jornais da primeira metade do século XIX. Eu mesmo produzi um breve vídeo, em parceria com o Arquivo Público Mineiro, para pensar um outro 13 de maio, o da revolta. Ele não tem qualquer relação com o 13 de maio de 1888. É apenas uma coincidência de datas. Mas é muito importante pensar que essa data pode ser lembrada também como o calendário de umas das rebeliões escravas mais importantes do sudeste do Império. Então, meu esforço tem sido todo nesse sentido, para que um número cada vez maior de pessoas conheça esse capítulo dramático, mas ao mesmo tempo tão importante da luta dos negros pela liberdade no Sul de Minas Gerais. Grato pela questão proposta.

  • José Francisco Faraco disse:

    Excelente texto do professor Marcos Ferreira de Antrade

  • Rogério Silva do Couto disse:

    Olá Marcos, parabéns pelo texto! Bom saber que no sul de minas teve uma revolta de escravos dessa magnitude. Sou estudante de História. Tenho bastante interesse pelo tema. Gostaria de saber se vc pode me passar seu email para estabelecermos contato e quem sabe para uma futura orientação de mestrado no tema ou mesmo algum tema similar. Grato. Rogério.

  • Rafael disse:

    Parabéns pelo trabalho e pelo texto, Marcos. Não sendo minha área, o texto foi muito enriquecedor. A ênfase na violência dos escravos me impressionou pela riqueza dos detalhes. Foi possível imaginar, dessa forma, o quanto eles sofriam em sua funções.

    • Marcos disse:

      Rafael, sem dúvida alguma essa é uma história impressionante em vários aspectos. Vão ser publicados dois textos novos sobre a revolta que sairão em uma coletânea sobre história do direito penal e outra sobre rebeliões escravas no século XIX. Obrigado pelo retorno!

  • PAULO VAGNER VELOSO FONSECA disse:

    Muito bom o texto. Vivi os detalhes da chacina. Faltou detalhar o cotidiano de
    maus tratos que , provavelmente , causaram o incidente.
    Acho interessante também destacar três fatos : o poder de organização
    dos escravizados no levante , o papel ( sempre ) covarde dos capitães-do-mato e, o que penso mais
    importante , O SILÊNCIO PROPOSITAL QUE SE PROPAGA NA REGIÃO
    DIANTE DE FATO TÃO VULTOSO. A história e os historiadores
    devem explicações às gerações que não conheceram fato tão relevante.
    Parabéns pela iniciativa !!!

    • Marcos disse:

      Prezado Wagner,

      obrigado pelo retorno! Nas dimensões do texto não foi possível contemplar todos os aspectos, mas eles estão devidamente discutidos em outros textos meus, mais acadêmicos, e com um número maior de páginas. Sugiro consultar o primeiro artigo que publiquei sobre o tema, na Afro-Ásia, que está citado nas referências. E o mais recente, publicado na revista tempo, sobre a pena de morte e a revolta de Carrancas. Ambos os textos você pode encontrar na internet e baixar em seu computador.

  • Maria Luiza disse:

    Muito interessante toda a ocorrência dos escravos contra os senhores de terras, inclusive muito conhecidos por minha família, parte de sua descendência, já foram patrões de meu pai , na fazenda cachoeira, num distrito entre São Gonçalo e Cordislândia, conhecia muito superficialmente esse ataque na fazenda de carrancas, e agora pude aprofundar um pouco mais, aguardando segundo texto, foi uma leitura excelente!

    • Marcos disse:

      Prezada Maria Luiza,

      muito obrigado por esse retorno. Estou trabalhando em novos textos, inclusive na produção de um documentário voltado para o ensino de História.

  • Jackeline Lopes da Silva messias disse:

    Ainda existe descendentes da família Junqueira?

    • Marcos disse:

      Prezada Jackeline,

      existe sim, na região onde ocorreu a revolta e também mais ao Sul do estado, na região de Poços de Caldas e nas cidades limítrofes de São Paulo e também no nordeste de São Paulo. A história da família e de sua dispersão geográfica pode ser encontrada no capítulo IV do meu livro, citado na bibliografia básica do texto. Obrigado pelo retorno!

  • Veronica Furtado disse:

    Oi,bom dia,eu passo em frente a fazenda Bela Cruz e fico imaginando a cena sempre, más a crueldade que os negros eram tratados como se nós brancos fossemos deuses, basta eu amo as crianças negras onde trabalho e tal forma nota a desigualdade social por isso que os Junqueira, Andrade são ricos ,tudo herança de família e a todo povo daqui dessa terra somos iguais a gente ainda são massacrado todos os dias,hoje mesmo meu coração doeu de ver um negro c esse friozinho dormindo ao relento,tamanha desigualdade,o povo só quer ostentação,ainda bem que existe pessoas boas por aí

    • Marcos disse:

      Prezada Verônica,

      essa história é realmente dramática em vários aspectos e não há como não estabelecermos algum tipo de relação com a situação da população negra na região e no Brasil.. Sem dúvida alguma o passado escravista deixou marcas profundas na nossa sociedade, daí a necessidade de conhece-lo em profundidade para que possamos traçar um futuro menos desigual. Grato pelo seu comentário!

  • Eduardo Barreto Cruz disse:

    Boa noite! Uma coisa que desde pequeno me incomoda com relação a escravidão no Brasil..Segundo estudo para cada 100 habitantes, 80 eram negros vindo da África, nessa época. Com toda essa maioria, o que dificultava uma rebelião de grande porte?.por que A maioria das revoltado foram rapidamente debeladas? O que se fazia para a maioria dos negros não participarem das revoltas?

    • Marcos disse:

      Prezado Eduardo,

      primeiramente é importante se reportar à história do tráfico Atlântico e a participação do Brasil no sistema escravocrata nas Américas. O Brasil e a região do Caribe foram os maiores envolvidos no tráfico. Mas é preciso atentar que o tráfico durou vários séculos e no Brasil se encerrou em 1850. Então a conta não pode ser tão simples. Sem dúvida alguma, a primeira metade do século XIX teve uma entrada brutal de escravos via tráfico Atlântico, que pode ser mensurada na base de dados slaves voyages, coordenada pelo historiador americano David Eltis e historiadores de vários países, inclusive do Brasil, para mensurar os dados dessa migração forçada e extremamente violenta, a partir das fontes disponíveis. Esse projeto foi financiado pela UNESCO e tem sido revisto. Rebeliões de grande porte realmente eram difíceis de ocorrer, pois a sociedade estava estruturada no sistema escravista e que perdurou séculos. A única exceção na História é a Revolta de São Domingos (no Haiti). E a sua última pergunta é bastante complexa, pois é preciso entender profundamente o sistema escravista, sua longevidade, o papel da alforria, as hierarquias que havia entre os escravos, muitas vezes potencializadas pelos senhores, as diferenças étnicas… Por isso é muito importante considerar o contexto histórico e a complexidade de cada uma das revoltas. Obrigado pelo seu comentário e questões levantadas.

  • Joao van den Berg Junior. disse:

    Li com muito interesse e certo espanto, porque mesmo morando proximo, e andando bastante pela regiao, nunca ouvi qualquer referencia a respeito dessa rebeliao. Muito intetessante o texto.

    • Marcos disse:

      Prezado João,

      obrigado pelo retorno. O meu maior compromisso como professor e pesquisador de uma universidade pública, que neste momento é alvo de ataque e de fakenews, é de socializar a produção do conhecimento científico e garantir ao cidadão o direito de conhecimento do seu passado, por mais trágico que ele seja.

  • Filipe Lisboa disse:

    Muito bom o texto. Parabéns. Pena que não existe registro sobre a origem desses escravos que se rebelaram. Eles vieram da África ou nasceram aqui? Se vieram de lá provavelmente deveriam ser guerreiros em suas nações… pq pelo que li apresentaram técnicas que combate (guerrilha – se é que posso falar isso). Desculpe qualquer conclusão equivocada sobre o assunto. Sou leigo, não sou historiador e nem tenho pretensão de usurpar essa função como alguns jornalistas por aí tentam fazer.

    • Marcos disse:

      Prezado Filipe,

      suas considerações são muito importantes. No espaço do texto, não foi possível contemplar todos os aspectos, mas a composição étnica da revolta eu trato em artigos mais acadêmicos e que estão disponíveis na internet , especialmente o primeiro publicado na revista Afro-Asia e que é citado como referência no texto. Essa questão eu aprofundei numa coletânea sobre revoltas escravas no século XIX, com previsão de publicação para outubro deste ano, pela Companhia das Letras. Muito obrigado pelo retorno!

  • francisco disse:

    Prezado amigo, onde posso ter acesso aos autos do processo judicial do caso, pergunto. Tentei na Universidade de SJ del Rey mas não consegui. Grato . Francisco Chaves

    • Marcos disse:

      Prezado Francisco,

      o processo digitalizado pode ser acessado na página de nosso laboratório – LABDOC/ UFSJ e do projeto Fórum Documenta, que tem como objetivo mapear, catalogar e disponibilizar o acesso à documentação forense e cartorial dos municípios pertencentes à antiga Comarca do Rio das Mortes. É só digitar a expressão “Insurreição de Escravos em Carrancas” no item busca do site abaixo e você poderá ter acesso à ficha catalográfica e à todas imagens do processo-crime da revolta.
      Segue o link: https://documenta.direito.ufmg.br/

  • lfigueiredo disse:

    ***AVISO DO EDITOR – Devido à falha técnica um grande grupo de comentários só foi publicado agora, com enorme atraso em relação à dada de postagem. Pedimos imensas desculpas ao autor e aos comentaristas.***

  • Claudia Ferreira disse:

    O meu pai se vivo fosse, completaria ocentenário de vida no próximo ano.Eu, qua2ndo criança ouvi de sua boca muitos relatos de maldad
    e que permeavam o relacionamento de fazendeiros Junqueiras e seus colonos queviviam em situação quase análoga à escravidão.
    Brasil: terra de desigualdade e invisibilidade de crime contra a humanidade, tão hediondo quanto o holocausto nazista…300 anos de escravidão. Parabéns aos raros estudiosos que, atravé
    s de seus textos, quebram esse silêncio imposto na História/ Memória desse país.

  • Alair da Silva disse:

    meus antepassados moraram em Carrancas, vieram para o estado
    de São Paulo em bananal. Não houve uma revolta, houve uma ligitima
    defesa.

    • Marcos Ferreira de disse:

      Prezado Alair. Essa é uma das várias leituras possíveis da Revolta.
      O assunto era comentado por seus antepassados? Como estou
      desenvolvendo uma pesquisa sobre a memória oral da escravidão
      e da revolta na região, tenho registrado em entrevistas essas
      narrativas. Obrigado pelo seu comentário.

  • Gabrielle Vaz disse:

    Boa noite, Marcos.
    Excelente texto assim como os outros que falam sobre essa rebelião. Sou estudante de História e usei seus textos como base de minha aula. Estudar as revoltas escravas é de suma importância, tendo em vista, que o sistema escravocrata sustentou o país por muito anos as custas da exploração do povo preto.

    • Marcos Ferreira de Andarade disse:

      Boa noite, Gabrielle.

      Muito importante saber que têm usado os meus textos em suas aulas.
      Tenho tido essa preocupação de escrever de forma mais atrativa,
      mas sem perder o rigor da pesquisa e da análise histórica. Sem
      dúvida alguma esse é um capítulo da história dos negros na luta
      pela liberdade que precisa ser publicizado e investigado. Meu
      esforço tem sido todo nesse sentido.
      Obrigado!

  • Hélio Messias Pereira Pina disse:

    Esses Junqueiras será até era a mesma família do interior de São Paulo

    • Marcos Ferreira de Andrade disse:

      Prezado Hélio,

      a dispersão geográfica da família Junqueira está retratada no
      capítulo IV do meu livro. Muitos deles foram para o sertão do
      Rio Prado, nordeste paulista. Mas também foram para Valença-RJ,
      extremo-sul de Minas (região de Poços de Caldas) e cidades
      próximas, além do Triângulo Mineiro.

  • R.Lazur disse:

    Caro Professor,
    Esse documento é valiosíssimo e de extrema importância.
    Gostaria de parabenizá-lo e
    Aproveito o ensejo para fazer algumas considerações.
    Apesar da barbárie apresentada neste documento, não me foi
    Possível localizar nele os motivos os quais levaram os escravizados
    daquelas fazendas a cometerem tais delitos: é como se a
    história fosse contada apenas parcialmente, por um ângulo de
    visão do dominador e escravocrata. Podemos presumir que
    os tratos para com os negros daquelas fazendas não fosse lá
    Coisa muito agradável, haja visto que milhares de registros histó-
    ricos comprovam a veracidade dos fatos. Fazendo analogia
    aos dias atuais, os oprimidos são pessoas do povo, onde
    podemos
    encontrar vários Venturas Minas, que, na tentativa desesperada
    pelo alcance de uma vida mais digna, são perfeitamente
    capazes de “derrubar seu senhor do cavalo” e golpeá-lo até
    seus últimos extertores de vida. O dia 14 de julho de 1789 e
    o dia 13 de maio de 1833 tem muitas coisas em comum, e o
    senhor deve bem saber disso.
    Esse escravocrata morto é a representação
    da inescrupulosa e repugnante burguesia brasileira, que, uma
    vez ameaçada de perder o controle da situação, aciona o estado,
    que mendiga seus farelos de pão e ouros e reprime as revoltas
    a mãos de ferro, a bala. Aos burgueses, fartura e cofres cheios. Ao
    estado, a garantia de mais migalhas e reeleição. Ao povo, açoite
    desprezo oriundo de um racismo estrutural secular e um Pelourinho
    em praça pública. A história se repete, utilizando-se das mais diferentes
    configurações.

    • Marcos Ferreira de Andrade disse:

      Prezado Rogério Lazur,

      em primeiro lugar agradeço-lhe pela leitura e pelos comentários.
      Sem dúvida alguma se trata de um documento valiosíssimo para
      a história da escravidão e da luta dos escravizados pela liberdade, além de se
      tratar da maior rebelião escrava do sudeste do Império, como reitero no meu texto.
      Na segunda parte dele está expressa a motivação principal da revolta,
      tanto que Ventura Mina e os demais escravizados se identificaram com o grupo
      político caramuru e acreditaram que a escravidão havia sido abolida
      em Ouro Preto, o que do ponto de vista histórico não procede.
      Mas essa nem é a questão mais importante, mas sim a leitura que ele e os
      outros escravos fizeram do contexto político e que foi fundamental para iniciarem o levante.
      Portanto, devemos tomar muito cuidado com as simplificações e leituras apressadas do passado escravista
      ao relacionarmos com o tempo presente. A revolta ocorreu num contexto muito particular da história do Brasil Império,
      num período de intensificação do tráfico transatlântico de escravizados e o Sul de Minas participou ativamente dele,
      como situo na parte inicial do meu texto, ainda que de forma muito breve. Muito provavelmente a vida dos escravos
      se tornou mais difícil nas décadas que antecederam ao levante, como especulo. Num primeiro momento,
      poderíamos até imaginar que a revolta estaria associada aos maus tratos e à violência do sistema escravocrata.
      Mas essa seria a explicação mais elementar e bastante reducionista e não nos ajuda a entender a complexidade
      daquela sociedade que ali se constituiu e das relações estabelecidas, até mesmo muito antes da revolta,
      e porque os escravos lançaram mão de um recurso tão arriscado. Nas dimensões do texto,
      tive que privilegiar alguns aspectos, como por exemplo, mostrar o impacto da revolta entre as elites e o estado imperial,
      a repressão violenta por parte do Regência, resultando na maior condenação coletiva à pena de morte da história da escravidão brasileira,
      que deu origem a uma lei de exceção. Mas termino o meu texto enfatizando justamente a leitura política feita pelos escravos
      e os significados que eles atribuíram à liberdade naquele contexto, quando se autodenominaram caramurus.
      A época das Regências é um dos períodos mais complexos da história política do Brasil Império. Não dá para ser simplificado.
      E o que está nesse texto é uma pequena amostra do que representou a Revolta de Carrancas naquele cenário.
      É, de fato, um desafio enorme escrever um texto de divulgação científica para um acontecimento tão complexo, em um espaço tão curto.
      Mas o Prof. Luciano Figueiredo, reconhecendo a importância do tema, permitiu que o texto fosse escrito em duas partes.
      Também gostaria de chamar atenção para um aspecto muito importante. O trabalho do historiador tem como base a pesquisa rigorosa em arquivos,
      que muitas vezes requer um trabalho árduo e lento de transcrição e interpretação das fontes que leva anos. A análise das fontes requer aportes metodológicos
      e teóricos à luz dos estudos historiográficos e do contexto histórico não só para trazer algum nível de veracidade, mas também de inteligibilidade
      e compreensão do passado. Mas certamente trabalhamos com vestígios, indícios e os documentos que restaram. Sem dúvida alguma,
      o documento mais importante da Revolta é o processo-crime aqui brevemente analisado, instaurado logo após o levante.
      Trata-se uma documentação oficial e que representa o olhar do Estado e dos agentes da Justiça daquela época.
      Mas nós sempre contextualizamos a documentação que analisamos e um processo-crime tem vários discursos que precisam ser problematizados
      e analisados com muito rigor, crítica e cuidado. Mas também é possível analisá-lo nas entrelinhas e até mesmo vislumbrar
      o que possivelmente teriam dito os escravos, especialmente quando foram interrogados, naquilo que ficou registrado pela pena do escrivão.
      E é o que o faço nesse breve texto, embora eu também tenha abordado outros elementos.

      Por isso, discordo da sua leitura do meu texto, quando afirma que eu apresentei uma visão parcial e pelo “ângulo do dominador e escravocrata”.
      Ela existe, de fato, e precisa ser apresentada e problematizada, como faço. Como disse anteriormente, o trabalho do historiador requer uma análise rigorosa
      e complexa e que contemple o maior número de aspectos possíveis. Creio que você desconsiderou vários outros elementos que apontei no texto
      e que registrei acima.

      Mas gostaria de reiterar que considero esse retorno de extrema importância, pois é através dele que podemos debater e deixar os argumentos mais claros.
      E são justamente os comentários críticos que nos dão mais espaço para abordar esse tema tão relevante para história do Brasil. Daí a minha resposta tão extensa.
      Mas gostaria de lhe sugerir a leitura dos textos indicados na bibliografia. Dois artigos mais acadêmicos estão disponíveis na internet.
      Neles eu analiso de forma mais detalhada vários aspectos da revolta, incluindo as suas contradições. Também sugiro a leitura do meu livro, “Elites regionais e a formação do estado Imperial brasileiro”,
      que também pode ser encontrado em pdf, na Web. Nele você vai constatar a complexidade do processo histórico
      na constituição das grandes propriedades escravistas no Sul de Minas, inclusive na região onde aconteceu o levante, a importância do tráfico transatlântico de escravizados,
      a conjuntura política das Regências e encerro o livro com uma releitura da Revolta de Carrancas. E lhe informo que continuo investigando a história da revolta
      e, em breve, serão publicados novos textos.

      Por fim, gostaria de dizer que tenho muito zelo e responsabilidade por essa investigação que venho realizando há quase três décadas.
      Como é do seu conhecimento, vivemos numa era de fakenews, pensamento anticientífico, negacionismos, simplificação e abusos da história,
      além da difamação das universidades públicas. Portanto, poder trazer à tona um acontecimento dessa magnitude, com toda a sua dramaticidade,
      contradições e complexidade constitui não só uma tarefa acadêmica, mas também requer um compromisso ético e político com o rigor da pesquisa histórica.
      E nos últimos 10 anos, tenho envidado todos os esforços para que essa história seja de conhecimento de um público não estritamente acadêmico
      e seja debatida e apropriada por um maior número de pessoas. Isso só enriquece o debate e as interpretações da Revolta.
      E essa é também a proposta desse belo Portal, coordenado pelo Prof. Luciano Figueiredo e seus bolsistas da Universidade Federal Fluminense,
      ou seja, de permitir a qualquer cidadão conhecer, numa linguagem acessível, mas sem renunciar à complexidade dos processos e das conjunturas históricas,
      as inúmeras revoltas coloniais, resultados das várias pesquisas desenvolvidas por inúmeros historiadores nas universidades brasileiras.
      E demonstrar que estamos longe de um país cordial, passivo e pacífico. Que o conhecimento do passado nos possibilite a busca de sentidos para o presente
      e que possamos seguir na luta e na construção de uma sociedade mais democrática, menos desigual e antirracista.

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