Revista Impressões Rebeldes

Um Inventário das Cicatrizes

Nos quatro cantos do Brasil, de 1822 a 1850, a revolta virou rotina e a experiência insurgente foi essencial para moldar a política do Império

Murillo Dias Winter

Professor na graduação em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus Erechim- RS e do Programa de Pós-Graduação em História da UFFS, Campus Chapecó-SC. Coordena o Laboratório Insurgente, na UFFS, com pesquisas e produções sobre a formação do Brasil através de revoltas, motins e sedições.

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“Los únicos registros de los subalternos son sus artefactos en la cultura material y sus acciones, cuando éstas dejan cicatrices en la historia conservada en los registros. Las más visibles de esas cicatrices, aunque no las únicas, son las de las rebeliones, los motines, las revoluciones.” (GILLY, 2006, p. 122) 

 

Porto de Recife, 1817. Um jovem pobre, sul-rio-grandense, destinado à carreira no mar pelo pai, assiste durante uma escala em Recife a derrota da Revolução Pernambucana. “Tinha havido uma revolução em terra; fora vencida, iam executar os condenados, vi o horror: tiras longas de carne, cortadas no corpo de republicanos e fixas em pregos como exemplos, a fim de se corrigirem no povo as tendências reveses” (VARELA, 1915, p.118). O governo sabia o que fazia: expor a ferida era uma mensagem. Uma advertência de que certos futuros não seriam tolerados.

O que esse marinheiro presenciou é o início de um ciclo com dezenas de episódios violentos de rebeldia, espalhados de norte a sul, de leste a oeste do Brasil. Não houve província sem revolta. É possível registrar ao menos 30 insurgências entre a independência e 1850: mais ou menos populares, lideradas por oficiais do exército, camponeses ou grandes latifundiários, por indígenas ou por letrados dos meios urbanos (PIMENTA, 2024, 80-81; SCHMITT, 2025). A sublevação era rotineira e os brasileiros e as brasileiras sabiam disso. Essas revoltas deixaram cicatrizes. E é a partir delas que se pode começar a entender parte importante da história da formação do Brasil.

A tese central deste texto é que a formação da ordem monárquica e o desenho das instituições imperiais não podem ser entendidos olhando apenas para o centro do poder. Eles também foram moldados por levantes que, mesmo sufocados, deixaram marcas profundas, criando pressões, forjando vocabulários políticos e gerando aprendizagens decisivas para definir os contornos do Império. As revoltas são a expressão mais radical desse processo, condensando em si as negociações, resistências e limites da construção imperial. Para explorar essa dinâmica, analiso como diferentes episódios de enfrentamento se conectaram, se influenciaram mutuamente e ajudaram a moldar acontecimentos em outros tempos e lugares do Brasil, conformando o que chamo aqui de experiência insurgente: uma conjuntura rebelde específica, com história própria e enraizada no contexto revolucionário atlântico e global.

Olhar para a unidade territorial e política do Brasil durante o Império e associá-la a um caráter nacional pacífico e ordeiro é olhar apenas para o resultado do processo, julgando-o de trás para frente. Esse movimento apaga múltiplos futuros que estavam abertos naquele passado conflituoso e uniformiza uma trajetória atravessada por disputas, tensões e violências. Essa leitura é, ao mesmo tempo, causa e consequência da imagem do Brasil como país pacífico e do brasileiro como avesso ao conflito, uma alegação que serviu a interesses políticos concretos em meio às próprias turbulências do período e que teve longa vida na historiografia brasileira. Quando os dirigentes e os intelectuais ligados ao poder no Rio de Janeiro falavam em pacificação e escreviam uma história ordeira do Brasil na década de 1830, silenciando sobre as revoltas, como faziam no recém-criado IHGB, o que estava em jogo era o temor de que esse projeto nacional não resistisse. 

Essa narrativa consolidou a ideia de que o Brasil teria percorrido um caminho completamente singular ao de seus vizinhos, que no mesmo período, diante dos mesmos dilemas de construção de seus estados nacionais, eram atravessados por conflitos armados e acirradas disputas políticas. O Brasil estava profundamente inserido na Era das Revoluções. As disputas em torno dos projetos políticos desse período foram resolvidas com frequência no campo de batalha. Ideias, armas, papéis e fuzis dividiram o mesmo espaço e, não raro, foram empunhados pelas mesmas pessoas. O que este artigo propõe é examinar o que vincula o Brasil ao restante do mundo atlântico em ebulição, tratando a violência, a guerra e o dissenso como elementos estruturais dos estados em construção (ADELMAN, 2010). A formação do Estado e da Nação brasileira foi parte de um processo histórico marcado pela incerteza, pela força e pelo confronto, e só encontraria terreno firme após a derrota desses levantes (BARMAN, 1994, p. 217)

Uma época de sangue

“A época de sangue começa agora. Nossas tristes previsões se vão, para grande miséria nossa, realizando” (Diário do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, nº39, 18/02/1838). Era assim que o Diário do Rio de Janeiro, em fevereiro de 1838, descrevia a crise do Período Regencial e a eclosão de guerras civis nas províncias do Brasil. O redator não estava exagerando.

Entre a independência e meados do século XIX, o território brasileiro foi sacudido por uma sequência de conflitos que envolveu todas as províncias, todas as camadas sociais e praticamente todas as formas possíveis de rebeldia: motins militares, levantes populares, guerras separatistas, insurreições escravas. Nenhuma região ficou imune. Nenhuma década foi tranquila.

Esse quadro não era uma anomalia local. Fazia parte de uma transformação que redesenhava o mundo ocidental desde o final do século XVIII. As Guerras Napoleônicas não apenas mobilizaram milhões de soldados pela Europa: alteraram profundamente a relação entre guerra e política. Os embates deixaram de ser monopólio de exércitos profissionais e passaram a envolver cidadãos comuns, arregimentados em nome de projetos de futuro. A violência tornou-se instrumento político. A política tornou-se, cada vez mais, uma extensão da guerra (BELL, 2012, pp. 355-406). O Brasil, com suas particularidades, era parte desse processo, inserido numa conjuntura atlântica que não poupava nenhuma região em construção.

O período entre 1808 e 1850 se divide em três momentos. O primeiro, marcado pelo desembarque da família real no Rio de Janeiro, pela Revolução Pernambucana de 1817 e pelas intervenções militares no Rio da Prata, representa a entrada definitiva do Brasil nesse panorama violento. O segundo é dominado pelas guerras de independência, travadas no Pará, Maranhão, Bahia e Cisplatina entre 1822 e 1824, e pela Guerra da Cisplatina, entre 1825 e 1828. O terceiro, e mais intenso, são os anos regenciais: entre 1831 e 1845, sem exceção, todas as províncias do Império conheceram alguma forma de confronto armado. A Cabanagem no Grão-Pará. A Balaiada no Maranhão. A Sabinada na Bahia. A Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul. Cada momento destes marcos o seguinte, uma revolta influenciou as demais, muitos indivíduos atravessaram ou foram atravessados por mais de uma delas e em mais de um lugar.  Para quem vivia esses anos, o barulho dos canhões havia se tornado parte do cotidiano e recorrente. É nesse Brasil ensanguentado e em disputa, marcado a ferro por cada uma dessas lutas, que a experiência insurgente se forma. 

 O que é a experiência insurgente

Forte de São João Batista do Brum, Recife, 10 de fevereiro de 1838. Pedro Boticário, liderança farroupilha presa em Pernambuco enquanto a revolta continuava no Rio Grande do Sul, escrevia a um correligionário com surpreendente otimismo: “não penseis meu amigo que eu me entreguei à dor e ao abatimento. Sentimentos mais nobres ocuparam a minha alma na História antiga e moderna, no nosso mesmo Brasil mil exemplos encontrei que me inspiram coragem para suportar os furores da tirania.” A carta era um mapa vivo das insurgências contemporâneas: “a guerra no Pará continua”, “a causa dos livres na Bahia prospera.” E terminava convocando: “pois em todo Brasil o trono da tirania vacila” (CV-2250. ALMEIDA, 1838, p.49-50).

Boticário não era um caso isolado. Os participantes desses levantes não os viviam como episódios desconexos: observavam o que se agitava em outras províncias, extraíam lições, calibravam suas ações. Compartilhavam um vocabulário comum, referências comuns, inimigos comuns. É isso que chamo de experiência insurgente: o resultado concreto das trocas entre esses movimentos que, ao se encontrarem, modificarem e reinterpretarem uns aos outros, produziram algo maior do que a soma de suas partes. Cada levante deixava uma marca que o seguinte sabia ler. 

Esse encontro foi possível porque os espaços em questão, sobretudo, Bahia, Cisplatina, Grão-Pará, Pernambuco e Rio Grande do Sul, já estavam articulados antes das revoltas, pelas rotas do comércio atlântico. Portos movimentados eram também centros de circulação de notícias. Marinheiros, canoeiros, vendedores ambulantes e escravos trocavam informações nos cais antes mesmo que os jornais as publicassem. O que se movia em Recife chegava a Salvador, de Salvador seguia para Montevidéu, de Montevidéu voltava ao Rio Grande do Sul. As insurreições aceleraram e politizaram esse circuito já existente, transformando rotas comerciais em rotas de contestação. O mesmo mundo conectado que movia mercadorias passou a mover ideias de ruptura.

Tempo e espaço se articulavam. A história das revoltas anteriores, a participação em conflitos travados anos ou décadas antes, tornavam-se fontes vivas de aprendizado. Um veterano de 1822, que foi rebelde em 1824 e que combatia em 1835 não chegava ao novo conflito de mãos vazias: trazia consigo lições de outro tempo, depositando-as num campo de batalha diferente, em outro lugar do território. Diferentes camadas do passado rebelde brasileiro se costuravam assim ao presente de cada levante, unindo províncias distantes não apenas pelo espaço que as rotas comerciais conectavam, mas pelo tempo que a memória das lutas havia tornado comum.

Como a experiência insurgente ajudou a moldar o Brasil

A experiência insurgente operou em dois sentidos simultâneos e aparentemente contraditórios: alimentou os levantes e, ao mesmo tempo, forçou o Estado imperial a se reorganizar para enfrentá-los. Os dois movimentos deixaram marcas duradouras no país que emergiu desse processo, e é na tensão entre eles que se pode entender o que a experiência insurgente produziu de mais duradouro.

Entre os rebeldes, os exemplos circulavam e inspiravam. O jornal O Povo, publicado pelo governo farroupilha em Piratini, dedicava páginas inteiras aos eventos do Pará, da Bahia, de Pernambuco, convocando os leitores a “detidamente reflexionem sobre o futuro.” Em outro número, o governo rio-grandense interpelava diretamente suas possíveis bases de apoio pelo Brasil afora: “onde estão os pernambucanos de 1824? Que fazeis baianos de 1837?” (O Povo. Piratini, nº09, 29 de setembro de 1838). A memória das rebeliões anteriores era um recurso político vivo, não um registro antiquado.

Do lado imperial, o medo das articulações entre as insurreições gerou respostas que, paradoxalmente, ampliaram essas mesmas articulações. Para evitar que soldados de uma província se somassem aos rebeldes de outra, o governo passou a circular tropas pelo território. O presidente do Pará recomendava ao Ministério da Guerra que a melhor saída era a província “não ter soldados filhos dela. Melhor partido se faz trocar seus filhos por outros da Província do Sul” (Ofício do Marechal Andréa ao Ministério da Guerra, Belém, Pará, 18 de dezembro de 1837). Com isso, homens de regiões, línguas e trajetórias distintas passaram a conviver, a combater juntos, a se reconhecer como parte de um mesmo espaço político. A repressão produzia, à sua maneira, uma identidade nacional.

Conclusão

Felicíssimo José Martins cresceu no Rio Grande do Sul e desde jovem navegava na marinha mercante por determinação do pai. Foi numa escala em Recife que assistiu às execuções que se seguiram à Revolução Pernambucana de 1817: “tiras longas de carne, cortadas no corpo de republicanos e fixas em pregos como exemplos.” Décadas depois, já militar de alta patente do exército Farroupilha de volta à sua terra, ainda carregava essa imagem: “Desde então aburreci a monarquia” (VARELA, 1915, p.118). Algumas cicatrizes não fecham.

Entre a violência que pretendia silenciar e a memória que ela produzia, o Brasil ia sendo construído. A ordem monárquica que se consolidou depois de 1850 não surgiu apesar das revoltas, mas em diálogo tenso e brutal com elas. Cada levante sufocado deixou um repertório, cada repressão abriu uma ferida, cada soldado deslocado de sua província carregou consigo uma experiência que não caberia nos limites regionais.

Foi desse acúmulo de confrontos, aprendizagens e futuros derrotados que emergiu a experiência insurgente. Ela não está nos monumentos nem nos discursos oficiais: está nas correspondências interceptadas, nos jornais rebeldes, nas cartas escritas de dentro de uma prisão, nos corpos expostos como advertência. Adolfo Gilly (2006, p. 122) nos lembrou que as ações dos subalternos deixam marcas na história, e que as mais visíveis dessas marcas são as das rebeliões e dos motins. Está, em suma, nas cicatrizes que a história oficial preferiu não inventariar. E é precisamente aí que ela precisa ser lida.

Bibliografia Básica

ADELMAN, Jeremy. The Rites of Statehood: Violence and Sovereignty in Spanish America, 1789-1821. Hispanic American Historical Review, v. 90, n. 3, pp. 391-422, 2010. DOI: https://doi.org/10.1215/00182168-2010-001

BARMAN, Roderick. Brazil: The Forging of a Nation, 1798-1852. Stanford: Stanford University Press, 1994.

BELL, David A. A primeira guerra total. A Europa de Napoleão e o nascimento dos confrontos internacionais como conhecemos. Rio de Janeiro: Editora Record, 2012.

GILLY, Adolfo. Historia a contrapelo. Una constelación. México: Ediciones Era, 2006.

PIMENTA, João Paulo. Formação da nação brasileira. São Paulo: Contexto, 2024.

SCHMITT, Ânderson Marcelo. Desmobilização e revolta: o motim das tropas brasileiras no retorno da Cisplatina (1831). Tempo, Niterói, v. 31, n. 3, 2025.

Fontes Impressas

ALMEIDA, Pedro José de. Recife, 10 de fevereiro de 1838. Coleção Alfredo Varela; Correspondência ativa de Jerônimo Teixeira de Almeida a José da Silva Brandão. Documentos CV 2199 A 2982. In: Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Anais. Vol. 4. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1980, pp. 49-50.

Diário do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, nº 39, 18 de fevereiro de 1838.

O Povo. Piratini, nº 09, 29 de setembro de 1838.

Ofício do Marechal Andréa ao Ministério da Guerra. Belém, Pará, 18 de dezembro de 1837. In: Arquivo Público do Pará. Correspondência do Governo com a Corte. Ofício número 32, volume 29.

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Como Citar

Murillo Dias Winter, "Um Inventário das Cicatrizes". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revista/um-inventario-das-cicatrizes/. Publicado em: 07 de maio de 2026. ISSN 2764-7404

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