Em meados de 1633, um boato começou a circular com muita força entre alguns setores eclesiásticos da cidade de Santiago de Guatemala, local adotado em julho de 1524 como capital espanhola logo após o início da conquista do atual território guatemalteco. O bispo don Agustin Ugarte Saravia comunicou o teor dos rumores ao comissário da Inquisição, a quem pedia que reunisse informações sobre um homem “mal vestido” que andava dizendo que
“A cidade de Cartagena havia de afundar e que a cidade de Guatemala se perderia por causa dos negros, sendo que um negro seria o capitão encarregado de conquistá-la; e que, no momento da eleição da abadessa feita pelas freiras do convento de Santa Catarina desta cidade, ele havia dito — ao observar a posição do céu — que não tinha visto aquele convento nem as freiras, e que, por sua ciência, concluía que a abadessa então eleita era gorda e que a que viria a ser seria magra; e que também dizia outras coisas de caráter profético que, segundo o parecer de alguns inocentes, ele fundamentava.”
O comissário respondeu então ao bispo que ele não havia tido notícia desses rumores que haviam chegado da parte do bacharel Francisco Muñoz Luna, mestre-escola da catedral.
Por sua vez, quando mais tarde o notário do Santo Ofício da Inquisição entrou em ação e perguntou a Muñoz Luna se ele conhecia alguma pessoa que andasse fazendo “prognósticos de coisas que estão por vir, dependentes da vontade divina ou do livre-arbítrio humano”, ele respondeu “que em várias ocasiões tinha ouvido um homem chamado Joan de Espinosa, natural de Jaén nos reinos da Espanha”, dizer que era astrólogo e que,
“Por a ciência que dizia possuir, tinha entendido e tido por muito certo que, dentro de seis ou sete anos, os escravos desta província e de todas as Índias haveriam de nomear reis e chefes para se levantarem com estes reinos, procurando, com veneno, tirar a vida dos espanhóis para ficarem feitos senhores destas terras e províncias; e que se levantariam três cabeças: uma no México, outra no Peru e outra nesta cidade. E que, para isso, costumava fazer caracteres que havia mostrado a esta testemunha, dizendo que se alegraria se houvesse homens científicos que tratassem da astrologia para dar a entender sua ciência.”
Acrescentou ainda que Espinosa exercia o ofício de músico que tocava órgão, que sabia cantar e que era “magro de corpo e pequeno, com barba e cabelo louro”, e que, por “andar enfermo de humor bubônico”, andava descolorido.
Depois das declarações do mestre-escola, tomaram o testemunho do franciscano frei Joseph Gavalda, enviado para arguir mais detalhes de Espinosa. O frade lhe fez várias perguntas e, para responder ao frade e confirmar o que dizia, “mostrou-lhe um papel do tipo dos que desenham os que sabem astrologia e desenham para saber dos nascimentos, e que por essa figura podia prognosticar os levantes dos negros e o nascimento de dois cometas”. Espinosa acrescentou também que, pela inclinação dos planetas, podia deduzir o comportamento futuro dos negros. Ao franciscano, essas opiniões pareceram repreensíveis, pois Espinosa tentava persuadir Gavalda com sua opinião.
O comissário da Inquisição não apenas fez com que o astrólogo-cantor fosse à cela do franciscano, como também o remeteu à do jesuíta Francisco de Arista. Este jesuíta teria dito que Espinosa já chegou prevenido sobre o que deveria responder, falando dos movimentos dos astros e de coisas permitidas, mas que também sabia que ele havia dito ao mestre-escola, de forma mais sincera, coisas que se referiam à “revelação ou arte do demônio”, e que as coisas que dizia não podia saber de outra maneira.
Isto, infelizmente, é tudo o que poderemos saber sobre esse evento profético, porque não ficaram registros de um processo de fé contra Espinosa nos arquivos da Inquisição do México ou da Espanha, e esses testemunhos sobre as proposições de Espinosa não continuaram depois do que contou o jesuíta. O registro que nos informou dos rumores consta apenas da notícia transmitida pelo mestre-escola ao bispo e das conversas que Espinosa teve com o franciscano e com o jesuíta, mas não conclui nada particular depois das declarações das duas testemunhas mencionadas.
É muito possível que o organista Espinosa, por sua posição como músico e sua relação com o cabido catedralício, tenha sofrido apenas uma advertência por ter divulgado “figuras” e emitido profecias, mas o que é certo é que não se seguiu nenhum processo inquisitorial contra ele. Também cabe pensar que, se o indivíduo tinha peste bubônica ou outra enfermidade de tipo biliar, talvez não tenha sobrevivido por muito tempo. Lembremos que, a partir das províncias de la jurisdicción inquisitorial de Nova Granada, os comissários da Inquisição só enviavam aos tribunais os casos considerados muito graves.
Alguns eventos semelhantes foram mencionados em minha pesquisa intitulada “El año de los seises (1666) y los rumores conspirativos de los mulatos en la Ciudad de México: coronaciones, pasquines, sermones y profecías, 1608-1665”.
Este evento pode, da mesma forma, somar-se aos episódios proféticos de que falamos há alguns anos no blog “Los Reinos de las Indias en el Nuevo Mundo” e às interpretações políticas e sociais vinculadas à sua aparição. Uma análise sobre o profetismo político pode ser consultada em meu artigo “Profecía y política: reflexiones historiográficas para una introducción al dossier ‘A propósito del año 2012: Vetas políticas del profetismo moderno y contemporáneo’”.
Sobre rebeliões africanas, tratei também em “Reyes africanos en Iberoamérica”.
De qualquer maneira, ainda que esse rumor tenha sido emitido em forma de prognóstico, sua presença é interessante e permite conectá-lo com distúrbios semelhantes que percorriam as províncias novohispanas e ibero-americanas durante o século XVII.
(Esse artigo foi originalmente publicado no blog Los Reinos de las Indias en el Nuevo Mundo no dia 12/03/2026)
Natalia Silva Prada, PhD, "Um boato alarmante". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revista/um-boato-alarmante/. Publicado em: 15 de abril de 2026. ISSN 2764-7404