"Retrato" gaulês?
As moedas célticas implicam uma grande complexidade quando pensamos em termos dos seus usos políticos. E não apenas porque não há uma documentação textual de autori das populações célticas. A maior parte desta cunhagem é anepigráfica, isto é, não possui legendas que nomeiem as autoridades que as emitiram. E mesmo quando temos essas inscrições, não significa que tenhamos os nomes desses indivíduos e sim muitas vezes títulos honoríficos (veja a exposição sobre Togirix). E neste sentido, também é difícil estabelecer uma cronologia absoluta, criando uma sequência dessas emissões (muito abertas a discussão pelos especialistas).
Em termos dos nomes dos governantes ou líderes, dependemos dos relatos dos autores antigos (gregos e romanos) que em si contêm vários viéses de interpretação e de visão do outro, largamente marcados por uma retórica de conquista e colonização. Mas ainda assim nos ajudam a identificar as populações e possíveis indivíduos ligados às cunhagens que encontramos.
Em termos da interpretação da iconografia monetária, a visão tradicional é que temos cópias das emissões mediterrânicas que serviram de protótipos dessas moedas. Então, essas imagens seriam especialmente cópias ou criações de imagens locais para as divindades mediterrânicas representadas nessas moedas. Depois, conforme essas cunhagens ganharam traços locais, é que estariam representando indivíduos das comunidades celtas. Mas será que isso é possível?
De fato, não temos como garantir que as efígies nas moedas célticas sejam imagens dos seus emissores. Porém, podemos confirmar seus usos políticos em disputas entre as elites, na divulgação de determinados símbolos de identificação coletivas locais e regionais, além de seu emprego para a construção de território e como oferendas em cultos às divindades.