Simples cópias?

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Mapa de distribuição dos protótipos usados pelas cunhagens célticas. Fonte: Adaptado de Hooker (2012).

Até início dos anos 2000, muitos pesquisadores compartilhavam da interpretação de que as cunhagens da Idade do Ferro eram meras (ou "más") cópias de protótipos mediterrâneos, dividindo-as em três regiões/protótipos: as moedas de prata de Felipe II e de Felipe III da Macedônia (para a região danubiana, do Elba e até o Mar Negro), as moedas de prata massaliotas e emporitanas (para a Celtibéria e Gália), e aquelas de ouro do alto Elba, Centro-Sul da Alemanha e Ilhas Britânicas (como no mapa ao lado). Para eles, ter nessas cunhagens imagens próximas daquelas do mediterrâneo era expressão direta de um ato de cópia.

Mas o que é uma cópia nesses contextos?

Ela é uma questão de estética? Ou é uma visão colonial (e de valorização das sociedades mediterrânicas) em detrimento das comunidades locais da Idade do Ferro? Eram seus artesãos menos qualificados? 

Imagens são polissêmicas, isto é, carregam vários sentidos e são abertas a interpretação. Em contextos coloniais, elas são marcadas por ambiguidade, atravessadas por diferentes referências culturais, o que permite leituras distintas entre as pessoas.

Por isso, do ponto de vista visual, vê-se um processo de tradução cultural, onde os artesãos das comunidades locais se apropriam desses artefatos e de sua visualidade, produzindo novos artefatos e imagens com suas técnicas, práticas e visões de mundo. Podemos dizer que eles deslocam esses objetos para dentro de sua cultura e com isso o "mimetismo" e a dita "imitação" são práticas criadoras e não reprodutoras. Elas criam identidades e visões locais.

Esse é o processo que temos na produção das cunhagens célticas e por isso mesmo esses artesãos rapidamente desenvolveram seus estilos locais de representação dessas imagens (do século III ao século I AEC). Gradativamente eles foram empregando um estilo, repertório e práticas típicos das comunidades locais. Esse estilo foi se tornando cada vez mais abstrato, com esses artefatos se inserindo na cultura visual local.

Deslocadas do mundo mediterrâneo – geográfica e culturalmente – essas moedas ganharam outros sentidos quando utilizadas pelas populações “celtas” em seus assentamentos, na sua vivência. Em verdade, o que se destaca é o seu uso como “moeda para fins especiais” (como chamou David Wigg-Wolf, pesquisador do Instituto Arqueológico Alemão e do Comitê do Limes Romano-Germânico), ou seja, moedas eram usadas para ostentação e dispêndio dentro da lógica da economia de prestígio dessas populações. Elas não foram usadas como um sistema monetário em si.

Não sabemos quanto das moedas recebidas como pagamento por mercenários celtas (que atuaram em exércitos das sociedades mediterrânicas nos séculos IV e III AEC) foram derretidas para produzir outros objetos (como vasos ou ornamentos por exemplo). O que pode-se afirmar é que em grande parte as moedas célticas foram usadas para em deposições votivas, como oferenda aos deuses locais. 

O "mimetismo" das cunhagens célticas só pode ser compreendido dentro do consumo ativo, da ambivalência do contato e a partir da perspectiva de deslocamento cultural.