Revista Impressões Rebeldes

A Revolução de 1924 em São Paulo

No jovem Brasil republicano, a fome e a destruição empurram as classes populares para uma guerra civil, transformando a revolta em uma estratégia de sobrevivência

Revolta de 1924. Trincheira na Praça Ramos de Azevedo, lado direito do Theatro Municipal de São Paulo. Fotografia sem identificação de autoria. Acervo pessoal.

Maria Clara Spada de Castro

Doutora em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), professora da Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP) e autora do livro A revolta de 1924 em São Paulo - para além dos tenentes, publicado em 2024.

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Em 5 de julho de 1924, a cidade de São Paulo foi acordada por um levante militar que se opunha ao governo do presidente Arthur Bernardes, marcado pelo autoritarismo e pela suspensão recorrente das garantias constitucionais. Com ampla adesão da Força Pública e de civis, o que começou como um motim de quartel rapidamente se transformou também em uma experiência de revolta popular. Na tentativa de o governo retomar o controle por meio de tiros e bombas, a cidade inteira foi arrastada para o conflito e atravessada por uma guerra civil que durou 23 dias. 

No contexto paulistano, a industrialização avançava rapidamente, mas a vida dos trabalhadores permanecia marcada pela precariedade, sobretudo entre as populações racializadas que tentavam sobreviver na marginalidade, em postos precários, na prestação de serviços e no comércio ambulante. Para os operários, longas jornadas, salários baixos, moradias insalubres e repressão constante às suas organizações faziam parte do cotidiano. Greves eram sufocadas, sindicatos perseguidos, jornais fechados e estrangeiros acusados de anarquismo eram deportados. A jovem República brasileira se firmava menos pelos direitos que concedia e mais pela violência que exercia.

Após o início dos levantes nos quartéis, em poucos dias a cidade transformou-se em campo de batalha. Ruas foram recortadas por trincheiras, bairros operários passaram a ser bombardeados, projéteis atingiram residências, famílias inteiras foram vitimadas e a rotina urbana entrou em colapso. Milhares de famílias fugiram para o interior do estado. Para aqueles que permaneceram, por escolha ou por falta de alternativa, faltaram água, comida e trabalho. Fábricas e comércios fecharam suas portas, deixando milhares de trabalhadores sem qualquer possibilidade de sustento. O Estado, em nome da legalidade, passou a bombardear a própria população civil.

Foi nesse contexto que muitos trabalhadores se aproximaram da revolta iniciada por militares e membros da Força Pública de São Paulo. A guerra impôs escolhas imediatas e o alistamento às forças rebeldes significou, para muitos, a garantia de alimento e soldo. Em meio à fome e à destruição, a revolta se tornou também uma estratégia de sobrevivência. De acordo com o processo judicial movido pelo Estado contra os revoltosos, o envolvimento popular foi tão expressivo que a quantidade de civis indiciados superou a de militares e policiais amotinados. Trabalhadores urbanos, pequenos comerciantes, imigrantes e ferroviários aparecem em maior número do que os tenentes. Isso desmonta a ideia de um movimento restrito aos quartéis e revela uma revolta sustentada também por outros sujeitos.

Lideranças operárias e militares revoltosos estabeleciam diálogos desde o insucesso dos levantes ocorridos no Rio de Janeiro em 1922. Trabalhadores propuseram a formação de batalhões operários autônomos, o que foi recusado pelos chefes militares. Ainda assim, civis, homens e mulheres, estiveram envolvidos nos planejamentos e combates, além de ocuparem-se na propagação do movimento, seja por meio da circulação de jornais ou da mobilização cotidiana nas ruas, através de conversas e dos vínculos de vizinhança, solidariedade e trabalho. Nesse sentido, suas reivindicações foram incorporadas à pauta do movimento, como o combate à carestia, a defesa do salário-mínimo, da jornada de oito horas de trabalho, do direito de associação e de fundar escolas, bem como da revogação das Leis Adolfo Gordo, que reprimiam o anarquismo e o sindicalismo, censuravam a imprensa e expulsavam estrangeiros do território nacional sob a acusação de periculosidade política.

A aproximação de parte da população para com os revoltosos contribuiu para a intensificação dos bombardeios promovidos pelo governo federal, evidenciando a preocupação do Estado em restabelecer a “ordem”. Ao mesmo tempo, a fome e o agravamento da miséria também explicam parte das adesões civis e a ocorrência de saques, incêndios intencionais e quebra-quebras promovidos durante o conflito. Esses atos não podem ser compreendidos como explosões irracionais de uma multidão, mas como respostas diretas à escassez, à especulação e revelaram outras insatisfações. Em 1924, antes mesmo da eclosão da revolta, diversas greves já haviam ocorrido, com destaque para a dos tecelões, que paralisou 30 mil operários por cerca de um mês (Jornal O Combate, jan.–fev. 1924). 

Conforme circular do Centro dos Industriais de Fiação e Tecelagem do período, “as greves atuais e as greves esperadas têm motivo já conhecido, isto é: altos preços de aluguéis de casas; altos preços dos gêneros de primeira necessidade, com especialidade o feijão, que entra na alimentação do povo como prato de resistência” (Circular Cift, nº 280, 28 jan. 1924). Dentre as fábricas que tiveram registro de greve no começo daquele ano foi possível localizar justamente aquelas que sofreram os maiores saques em julho, como a Matarazzo e Gamba. Em uma cidade sitiada, onde comerciantes lucravam com a alta dos preços enquanto a população civil era bombardeada, o protesto popular ganhou um forte sentido moral. A revolta, nesse aspecto, expôs conflitos de classe que já existiam, mas que foram intensificados pela guerra.

É importante pontuar que parte significativa dos trabalhadores das indústrias de tecidos era de mulheres, a exemplo da Liga Operária da Mooca, fundada em 1917, na qual a maioria dos filiados era formada por trabalhadoras do Cotonifício Crespi. É possível também identificar expressiva presença feminina nas fotografias que registraram os saques. No entanto, apenas uma delas foi indiciada no processo judicial movido pelo Estado, a aviadora Anésia Pinheiro Machado. Anésia era representante da Liga Paulista pelo Progresso Feminino, movimento oposicionista a Arthur Bernardes, que se declarava avesso ao voto feminino e à ampliação de direitos das mulheres. 

Revolta de 1924. Saque no depósito da Companhia Puglisi. Fotografia sem identificação de autoria. Arquivo Público Mineiro. AB-05-4-032(02). Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/fotografico_docs/photo.php?lid=27107 

A população imigrante que vivia em São Paulo também teve significativo envolvimento. Apesar da legislação repressiva, trabalhadores estrangeiros organizaram batalhões por nacionalidade: alemão, húngaro e italiano. Muitos eram ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial e possuíam experiência militar e conhecimentos técnicos, contribuindo de forma muito qualificada para a revolta. 

Mesmo entre os militares, chama a atenção o fato de que a maioria dos indiciados entre eles era composta por sargentos. Oriundos das camadas populares e atravessados por desigualdades de classe e raça, muitos deles assumiram funções de comando, organizaram destacamentos e impulsionaram a expansão da revolta para o interior paulista. A partir da capital, o movimento alcançou outros 86 municípios do estado, onde autoridades locais aderiram ao movimento ou foram substituídas. Essa interiorização foi viabilizada pelas redes formadas entre sargentos, ferroviários e civis, que também garantiram a retirada das forças revoltosas da capital, na noite do dia 27 de julho, diante da superioridade numérica das forças legalistas, 15 mil contra os 7 mil revoltosos. 

Eram desconhecidos daqueles que estavam em São Paulo os levantes que ocorriam em outros estados. No dia 12 de julho iniciou o do 10º Regimento de Cavalaria Independente, em Boa Vista, no Mato Grosso; no dia 13 foi a vez do 28º Batalhão de Caçadores de Aracaju, em Sergipe; na região Norte, no dia 23 iniciou o levante do 27º Batalhão de Caçadores de Manaus, que foi acompanhado da Flotilha Amazonas, do 4º Grupo de Artilharia de Óbidos, no Pará, e do 26º Batalhão de Caçadores, em Belém.

Em São Paulo, o comando revoltoso calculava que a situação só poderia ser aliviada com levantes no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, que estavam fortemente ocupados por forças do governo. As estradas de ferro sob a ocupação dos revoltosos corriam o risco de a qualquer momento serem tomadas. Além disso, havia o intenso bombardeio que castigava a população e o desgaste dos combatentes, muitos deles feridos. Neste contexto, decidiu-se pela retirada em direção ao atual Mato Grosso do Sul. 

Na região próxima ao Rio Paraná, os revoltosos paulistas estabeleceram contato e se uniram às tropas oriundas do Rio Grande do Sul, lideradas por Luiz Carlos Prestes. Em 12 de abril de 1925, em Foz do Iguaçu, a união dessas forças deu origem à 1ª Divisão Revolucionária, que mais tarde ficaria conhecida como Coluna Prestes.

Com o fim dos combates em São Paulo, a contagem oficial das vítimas foi encerrada em 503 mortos e 4.846 feridos, segundo relatório da prefeitura, embora estimativas de agências internacionais apontem cerca de mil mortos. “Tratou-se, seguramente, do maior massacre urbano realizado durante os governos republicanos” (Romani, 2011, p. 163) que atingiu majoritariamente civis pobres e permaneceu, em grande medida, esquecido pela historiografia paulista.

Em seguida iniciou-se uma repressão intensa, que atingiu homens e mulheres. Milhares de pessoas foram presas, muitas sem julgamento. Deportações ocorreram, a Hospedaria dos Imigrantes foi transformada em presídio e o envio de presos à colônia penal de Clevelândia, no extremo norte do país, marcaram a tentativa do Estado de restaurar a ordem. Um processo judicial foi instaurado e estrangeiros foram os mais duramente punidos, sendo condenados a penas maiores do que as impostas aos oficiais militares considerados líderes do movimento. A revolta deixou como herança imediata o fortalecimento do aparato policial e a ampliação da repressão política em São Paulo, que passou a contar já em fins daquele ano de 1924 com a recém-criada Delegacia de Ordem Política e Social (Deops/SP).

1924 remete a uma cidade bombardeada pelo próprio governo, à participação ativa de trabalhadores armados, à atuação invisibilizada de homens e mulheres e a uma contestação que escapou ao controle das elites. É uma memória incômoda, que expõe o caráter autoritário da Primeira República e a disposição popular em disputar a ampliação da cidadania e o projeto republicano que se construía. Vista desta perspectiva, a Revolta de 1924 deixa de ser apenas um episódio militar e se revela como um momento em que diferentes revoltas se encontraram. Civis, trabalhadores, sargentos, imigrantes e tenentes agiram juntos, ainda que por motivos distintos, contra um Estado que se sustentava pela exclusão e pela violência.

Bibliografia Básica

CASTRO, Maria Clara Spada de. A Revolta de 1924 em São Paulo: para além dos tenentes. São Paulo: Alameda, 2024.

ROMANI, Carlo. “Antecipando a era Vargas: a Revolução Paulista de 1924 e a efetivação das práticas de controle político e social”. Topoi, Rio de Janeiro, v. 12, n. 23, p. 161-178, 2011.

Fontes Primárias

Circular Cift, nº 280, 28 jan. 1924, São Paulo. Arquivo Edgard Leuenroth – Unicamp.

Jornal O Combate, jan.–fev. 1924, São Paulo. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Processo da Revolução de 1924, STF, n.º 1009 de 1927, São Paulo. Arquivo Público do Estado de São Paulo.

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Como Citar

Maria Clara Spada de Castro , "A Revolução de 1924 em São Paulo". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revista/a-revolucao-de-1924-em-sao-paulo/. Publicado em: 30 de abril de 2026. ISSN 2764-7404

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