Revoltas

Motins do sertão

Capitania de Minas Gerais (1720 – 1821)Barra do Rio das Velhas | Brejo do Acari | Brejo do Salgado | Brejo dos Anjicos | Itacarambi | Japoré | Jequitaí | Papagaio | São Romão | Urucuia

Início / fim

22 de março de 1736 / 07 de setembro de 1737

Aquarela do seculo XVIII representando um soldado de cavalaria das Tropas Auxiliares.

Em 1736, os “Motins do Sertão” sacudiram os sertões do norte de Minas Gerais ao desafiarem frontalmente o direito régio do quinto do ouro, cuja forma de cobrança havia sido alterada para a capitação e censo de indústria. A medida, que visava garantir maior amplitude social na cobrança, trazia uma novidade: antes restrita às áreas de mineração, passou a se estender à toda Capitania, mesmo nos lugares em que não se extraía ouro. No sertão, onde só se plantava roças e criava gado, os moradores não concordaram com a medida e reagiram com violência. O movimento esteve longe de ser um protesto liderado pelas elites locais, como normalmente acontecia, e envolveu homens, mulheres, pessoas escravizadas, alforriados, indígenas e mestiços numa ampla composição social. Essa foi uma de suas principais características. A grande variedade social e étnica tinha como ponto em comum o ódio à capitação que incidia até mesmo sobre forros e “mulatos”. Algumas vilas e dezenas de arraiais foram tragados para o centro da crise, que se estendeu até meados de 1737. O protesto, que segundo dados oficiais chegou a reunir cerca de três mil pessoas, aconteceu em sucessivos levantes e conflitos, foi debelada graças também a uma massiva e bem coordenada repressão, com contingentes de soldados Dragões e capitães do mato. Apesar de sufocada, a revolta ficou marcada na memória dos moradores do sertão, mas ainda permanece pouco conhecida do público em geral.

A origem dos acontecimentos pode ser situada no início da década de 1730. Nessa época, as autoridades portuguesas estavam insatisfeitas em relação à arrecadação do quinto, que não era considerado um imposto, mas um direito do rei. Os representantes da Coroa portuguesa consideravam que a cobrança do quinto através das Casas de Fundição, que deduzia a parte do rei quando o ouro era fundido, dava oportunidade para evasões. A fim de combater isso, foi proposta a chamada taxa de capitação e censo de indústria. Essa nova maneira de arrecadação previa uma cobrança sobre os escravos que residiam na Capitania, daí a designação capitação, ou seja, por cabeça (per capita); também estava prevista a cobrança sobre o comércio, o censo de indústria, uma taxa que variava conforme o tamanho do estabelecimento. O que causou enorme descontentamento foi o fato de a capitação passar a incidir sobre todos os escravizados, quer se dedicassem ou não à mineração do ouro. Essa ampliação da base fiscal serviu como estopim para os protestos.

Antes que os tumultos se alastrassem, houve um acúmulo de tensões. Para a implantação da capitação foi nomeado um enviado especial para Minas, o Comissário Martinho de Mendonça. O enviado português, segundo notícias que corriam na Capitania, teria se valido de meios fraudulentos para implantar a capitação, gerando grande desconfiança nas elites locais. O desconforto à sua pessoa aumentou quando ele assumiu como governador interino da Capitania, devido à transferência do então governador Gomes Freire para o Rio de Janeiro. Mendonça, tornou-se pessoa das mais odiadas em Minas. Sobre os tumultos, relatou em carta que a “conspiração ou levante do sertão foi a matéria mais importante” de seu governo.

Devido aos meios considerados muito pouco adequados com que fora implantada, a capitação tornou-se extremamente impopular. As reações mais sérias contra ela ocorreram no sertão do rio São Francisco, uma área que se articula com a região mineradora por intermédio do comércio de gado e fornecimento de gêneros de primeira necessidade. Além do mais, o processo de ocupação do sertão por colonizadores foi feito principalmente por bandeirantes paulistas e sertanistas baianos que, acompanhando às margens do São Francisco, se estabeleceram ali como grandes criadores de gado. O sertão era uma fronteira aberta e essencial para o acesso às áreas de mineração em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. A região atravessava no contexto da revolta um momento de prosperidade econômica.

Dezenas de arraiais, povoados e fazendas estiveram envolvidas na revolta, tais como Papagaio, Capela das Almas, Barra dos Rio das Velhas, São Caetano do Japoré, Itacarambi, Brejo do Salgado, Brejo dos Angicos, Acari, São Romão, Matias Cardoso, Urucuia, Jequitaí, Carinhanha e Montes Claros.

O primeiro enfrentamento contra a capitação ocorreu no mês de março de 1736 na localidade de Capela das Almas, na Barra do Rio das Velhas, atualmente cidade de Várzea da Palma. Um Juiz foi até a localidade para realizar uma devassa a fim de apurar crimes que ali ocorrera; no entanto, devido às várias notícias que corriam sobre a chegada da capitação somadas à indisposição dos moradores locais em pagá-la, os sertanejos do lugar atribuíram a presença do Juiz à malfadada cobrança e o expulsaram de lá. A atitude teve uma péssima recepção entre as autoridades estabelecidas em Vila Rica, sede administrativa da Capitania, que começaram a ficar preocupadas. O que elas certamente não esperavam é que reação muito pior ocorreria no mês de maio em Montes Claros, quando um Intendente foi até o arraial para, desta vez, exigir o pagamento do direito régio. O representante da Coroa, designado especialmente para aquela cobrança, foi recebido com hostilidade no lugar, onde passou a noite, e, no dia seguinte, logo pela manhã, foi novamente confrontado e ameaçado de morte. Desse momento em diante a escalada de violência só fez aumentar. A partir daí, os sertanejos descontentes mobilizaram-se desde o Brejo do Salgado, hoje Januária, no dia 23 de junho, véspera do dia de São João, e invadiram o arraial de São Romão, hoje cidade de mesmo nome, uma das principais localidades do sertão, onde alcançaram no dia 3 de julho. Fortemente armados foram até o cartório local onde registraram um Requerimento em que exigiam a extinção da capitação.

Em São Romão os rebeldes chegaram a criar um auto-governo com pessoas das elites locais e das baixas camadas da hierarquia social, que ocuparam cargos eleitos no curso dos acontecimentos. Entre os primeiros havia: Gregório Cardim, Juiz do Povo, Pedro Cardoso, Procurador do Povo, padre Antonio de Freitas, Capelão, enquanto no segundo grupo nomes como os do mameluco Simeão Correia, General das Armas, o bastardo Manuel Nunes, Mestre de Campo, e outros.

Esse protesto acabou sendo dispersado por alguns moradores locais que se posicionaram como súditos leais à Coroa portuguesa. Depois disso, os rebeldes deixaram o arraial em 6 de julho e prometeram voltar no prazo de um mês a fim de ver a sua demanda atendida.

Diante da situação, a Coroa portuguesa intensificou o deslocamento de autoridades e tropas militares para o sertão. Aproximando-se do prazo estabelecido pelos rebeldes, eles começaram a marchar, novamente, desde o Brejo do Salgado. No meio do caminho realizaram recrutamentos forçados, assaltaram propriedades, queimaram engenhos, praticaram violências à esmo e violentaram mulheres. Quando, em agosto de 1736, alcançaram o destino pretendido, o arraial de São Romão, deram saque às casas daqueles que eram suspeitos de colaborar com as autoridades, invadiram igrejas, profanaram imagens sacras em gestos e atitudes fortemente ritualizados que faziam lembrar as guerras de religião europeias. 

Um pasquim, parodiando a oração exemplar dos cristãos, o “Pai Nosso”, circulou pelo sertão ganhando novo sentido ao expor as queixas dos rebeldes. Na invasão do arraial, os sertanejos revoltados gritavam “Viva o rei, e morra o governador”, expressando a ideia de que o rei era naturalmente bom, mas que podia estar sendo enganado pelos seus oficiais nomeados para Minas Gerais.  

Depois da tomada de São Romão, os rebeldes marcharam em direção a Jequitaí, onde pretendiam se juntar a outros potentados e com eles marchar em direção a Vila Rica. Durante a marcha, parte dos rebeldes cometeram diversos tipos de excessos, o que teria intimidado alguns potenciais aliados que pretendiam aderir ao movimento. A partir daí, a revolta arrefeceu.

As forças mobilizadas para a repressão fornecem uma demonstração da gravidade daqueles acontecimentos. Para o sertão foram enviados os temíveis soldados Dragões, uma tropa treinada, mobilizada somente em situações em que se ameaçava seriamente as autoridades; além deles foram levados soldados acompanhados de cães fila e capitães do mato, geralmente mobilizados para reprimir quilombolas e rebeliões escravas. Na repressão aos levantes deve-se levar em conta que se tratava de um conflito em que as lutas se sucediam nas matas, sob o sol escaldante do sertão e risco de contágio de doenças que infestavam as margens dos rios. Em alguma medida os rebeldes sertanejos estavam guarnecidos por uma espécie de “proteção biológica” e os obstáculos naturais constituíam um tipo de defesa. Tais condições amedrontavam os soldados e encorajava os sertanejos. Não chegou a haver um confronto direto entre os lados em disputa. Numa ocasião, um mascarado cruzou com uma tropa de soldados e a circulação de boatos sobre a aproximação de amotinados provocou tanto medo nos militares que eles abandonaram o acampamento, deixando caldeirões de comida no fogo e ceroulas estendidas.  

Entre os principais líderes da revolta, foram apontados Domingos do Prado de Oliveira, Maria da Cruz e seu filho Pedro Cardoso, todos pertencentes a uma mesma família. Com ordem de prisão emitida, Domingos do Prado, antecedido por informações, conseguiu se evadir. A mesma sorte não teve sua cunhada Maria da Cruz e Pedro Cardoso que da fazenda das Pedras, onde viviam, foram convidados a prestar esclarecimentos em São Romão e tiveram, no meio do caminho, suas prisões anunciadas. Cardoso sofreu degredo para Moçambique, enquanto sua mãe, depois de presa em Vila Rica foi transferida para a prisão da Ilha das Cobras no Rio de Janeiro e, posteriormente, mandada para a Bahia. Em 1739, durante a Semana Santa, a matriarca da família foi perdoada pelo rei e voltou para o sertão.

Além das elites foram presos mamelucos, pardos, mulatos e mestiços.   Dentre eles havia Antonio Pereira, “mulato”, Antonio de Monte, “mestiço forro” e João da Silva “pardo forro”. O mameluco André Gonçalves Figueira, filho da elite local, recebeu pena de degredo para Angola.

A revolta do sertão ficou cravada na memória dos moradores locais servindo de inspiração a lendas, estórias e literatura. O protesto também compôs o elenco de revoltas que assinalam o chamado espírito irredento dos mineiros, ao lado de conflitos do emboabas, revolta de Vila Rica e Inconfidência Mineira. A Revista do Arquivo Público Mineiro, em seu primeiro ano (1896), publicou vasta documentação alusiva aos “motins do sertão”. Mesmo com toda sua relevância, os motins, envolvendo grupos sociais de origens tão distintas e com grande protagonismo de grupos sociais considerados inferiores, quase não aparecem nos livros didáticos. Esse pode ser um ponto de partida para os mestres estimularem os alunos a trabalharem em sala de aula movimentos de protesto ainda pouco conhecidos na história do Brasil. 

(Gefferson Ramos Rodrigues é doutor em História pela UFF e professor no Departamento Multidisciplinar da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (EPPEN/Unifesp))

Antecedentes

Mudanças no regime de direito do rei de cobrar o quinto do ouro sob a forma da Capitação.

O Juiz ordinário de Papagaio, Alexandre de Sousa Flores, se dirigiu à Capela das Almas, na Barra do Rio das Velhas, a fim de realizar uma devassa para apuração de alguns crimes. Os moradores consideraram que ele estava ali para a cobrança da Capitação.

Conjuntura e contexto

Os Motins do Sertão ocorreram no contexto da intensificação do controle fiscal da Coroa portuguesa sobre a capitania de Minas Gerais, com implementação de mudanças no regime de direito do rei de cobrar o quinto do ouro sob a forma da Capitação. Houve um esforço de controlar as elites criadoras de gado e lavradores que tinham construído autonomia na região baseados no direito de conquista daquelas terras. Além disso, viviam numa região de fronteira de acesso às regiões mineradoras de Minas, Goiás, Mato Grosso e o caminho para a Bahia. 

Números da Revolta

1 ano e 7 meses de duração
3 mil participantes
2 condenados

Outras designações

Sedição de 1736

Grupos sociais

Autoridades

Lideranças

Réus e Condenados

Ações de protesto não-violentas

  • "Viva el rei"
  • Abaixo-assinado
  • Blasfêmia
  • Gritos
  • Humilhação
  • Marchas
  • Máscaras e mascaradas
  • Negociações e acordos de paz
  • Nomeação de autoridades
  • Palavras de Ordem
  • Pasquins
  • Reuniões em lugares privados
  • Roubo de armas e munição
  • Roubo de comida
  • Troca de cartas

Ações de protesto violentas

  • Agressão de Autoridade
  • Assuada
  • Ataques a viajantes
  • Ataques Noturnos
  • Batalhas e combates
  • Cerco a imóveis
  • Cerco e destruição de cidade ou vila
  • Conflitos de rua
  • Convocação forçada de moradores
  • Destruição de propriedade
  • Extorsão
  • Incêndios
  • Invasão de cidade ou vila
  • Invasão de igrejas, conventos e templos católicos
  • Invasão de propriedade
  • Linchamento
  • Morte de inimigos
  • Ofensas Públicas
  • Queima de plantações
  • Saques a casas e armazéns
  • Sequestro de bens
  • Violência Sexual

Repressão

Contenção

  • Capitães do mato
  • Envio de soldados Dragões
  • Expedição armada ou repressão militar
  • Perdão
  • Prisões
  • Promessa de concessão de prêmios e títulos
  • Uso de cães de fila

Punição

  • Confisco e venda de bens
  • Degredo / Desterro
  • Enforcamento
  • Envio de presos para vila
  • Execução
  • Prisão

Instâncias Administrativas

  • Governador
  • Ouvidor-Geral do Crime
  • Tribunal da Relação BA

Bibliografia Básica

ANASTASIA, Carla Maria Junho. Vassalos rebeldes: violência coletiva nas Minas na primeira metade do século XVIII. Belo Horizonte: C / Arte, 1998.

FAGUNDES, Giselle e MARTINS, Nahílson. Alvará de Perdão Concedido a Dona Maria da Cruz, Viúva. Montes Claros, 2006.

FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Furores sertanejos na América portuguesa: rebelião e cultura política no sertão do rio São Francisco, Minas Gerais – 1736. Lisboa, Revista Oceanos, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, nº 40, p. 128-144, dez. 1999.

RODRIGUES, Gefferson Ramos. No sertão, a revolta: grupos sociais e formas de contestação na América Portuguesa, Minas Gerais – 1736. Belo Horizonte: Fino Traço, 2024.

SOUZA, Alexandre Rodrigues de. Maria da cruz, a Dona do sertão: mulher e rebelião em Minas Gerais no século XVIII. Montes Claros: UNIMONTES, 2025.

Fontes impressas

Motins do sertão e outras ocorrências em Minas Gerais durante o governo interino de Martinho de Mendonça de Pina e de Proença, conforme a correspondência deste com o governo da metrópole; extratos de livro do Arquivo. RAPM, Ouro Preto, v. 1, n. 4, p. 649-72, out./dez., 1896.

Arquivos e fontes manuscritas

Fonte Primária

Padre noço (sic) dos moradores das minas gerais, minas novas dos currais, minas de vários metais, minas do rio das mortes, minas do Sabará, fortes minas do serro do frio, minas de prover seu brio, minas de goiases, minas dos topázios, minas do inferno, minas, minas de todo o delírio. ANTT, Manuscritos do Brasil, Livro 10, fls. 210-211.

Fonte Primária

Proposta e requerimento que fazem os povos das minas gerais e os seus distritos a el rei nosso senhor que Deus guarde. s/l, s/d. ANTT. Mss. do Brasil. Livro 10, fls. 204-209.

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Como Citar

Sem Nome, "Motins do sertão". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/motins-do-sertao-2/. Publicado em: 25 de março de 2026.