Revoltas

Santidade de Jaguaripe

Capitania da Bahia de Todos os Santos (1534 – 1821)Baía de Todos os Santos

Início / fim

1580 / 1585

Data aproximada
“Índios da Amazônia adorando ao Deus-Sol”, óleo sobre tela de François Auguste Biard (1860), que retrata a religiosidade nativa - Brasiliana Iconográfica

Por volta de 1580, na região do Recôncavo Baiano, o nativo tupi chamado Antônio e sua mulher “Maria Mãe de Deus” resistiram à colonização portuguesa através de uma forma de religiosidade baseada no sincretismo entre a crença tupi e o catolicismo. Chamado de Santidade, o movimento preocupou os senhores de engenho já que o grupo persuadia os indígenas das regiões próximas a fugirem do aldeamento e unirem-se a eles. Fernão de Cabral, dono do engenho de Jaguaripe, convenceu os tupis a realizarem os rituais em sua fazenda, pois acreditava que seria mais fácil contê-los ali. No entanto, a Santidade cresceu, gerando também fugas e revoltas dos índios tupis. Em 1585, os outros senhores clamaram por uma ação do governador Teles Barreto, que invadiu a fazenda e destruiu o movimento.

Entre os diversos modos de resistência que os indígenas desenvolveram por conta da colonização portuguesa, talvez as mais surpreendentes sejam as Santidades. Tratava-se de um tipo de religiosidade em que os tupis incorporaram às suas crenças elementos da religião católica como forma de se adaptar à investida catequética.

Conhecida como Santidade de Jaguaripe, o movimento, ocorrido na Bahia, não se limitou aos indígenas, movimentou também brancos e mestiços em torno de uma religiosidade singular. Inicialmente os rituais surgiram no sertão do Orobó, reunindo indígenas liderados por duas figuras principais, o nativo chamado Antônio, nascido em um aldeamento jesuíta na capitania de Ilhéus, que além de ter o dom de encarnar Tamandaré, figura ancestral dos Tupinambás, também afirmava ser o verdadeiro papa da Igreja de Roma. Sua mulher era chamada de “Maria Mãe de Deus”. Esses dois personagens históricos lideravam os rituais, distribuíam nomes santos aos membros, realizavam batismos, danças indígenas e outros cultos. Tal grupo atraia os indígenas dos aldeamentos próximos através da atuação de missionários enviados especialmente para convencê-los a abandonarem o trabalho forçado e se unirem à Santidade.

Ainda localizada no sertão, o movimento causava perdas aos aldeamentos, pois cooptavam nessas reduções novos membros para seu culto. Para frear essa migração e consequente perda de mão de obra, o senhor do engenho de Jaguaripe, Fernão Cabral, convenceu ao governador-geral, Teles Barreto, que permitisse a aproximação com o grupo para convencê-los de adotar sua fazenda como nova sede da Santidade. Deste modo ele poderia contê-los e reduzir os danos aos demais engenhos. Foi enviado para o sertão um experiente mameluco chamado Domingos Fernandes, conhecido como Tomacaúna, a fim de cumprir a missão de atrair a Santidade para o litoral. A missão foi bem-sucedida ou, pelo menos, em parte: cerca de 300 indígenas chefiados por Maria Mãe de Deus migraram para Jaguaripe, enquanto um grupo permaneceu com o Papa no sertão, mantendo Tomacaúna entre eles.

Ao se estabelecerem em Jaguaripe, a promessa de Fernão Cabral não se cumpriu e a Santidade não foi contida. Nos seis meses seguintes, o culto cresceu e passou a arrebanhar outros indígenas, brancos e negros escravizados. Nem mesmo Fernão Cabral ficou de fora das experiências ritualísticas de Maria Mãe de Deus. Com o aumento do grupo, cresciam também as revoltas na região, motivadas por emissários que percorriam as fazendas e aldeias motivando os indígenas a fugir e se rebelar. Isso fez com que os senhores da região pressionassem o governador para que desse um fim a esse grupo, e assim ele fez. Em 1585, a fazenda foi invadida por forças enviadas pelo governador e os ídolos ali adorados foram destruídos, os indígenas devolvidos às fazendas e aldeias de origem, e os líderes degredados, incluindo Maria Mãe de Deus.

O destino do papa e seu grupo do sertão é incerto já que eles sumiram pela região. Para Fernão Cabral a punição ainda tardaria, foi somente por ocasião da primeira visitação do Santo Ofício às partes do Brasil (1591-1595), que o fidalgo foi condenado pelo inquisidor a pagar uma multa e ficar desterrado da Bahia por dois anos.

(Murilo Calmon da Cruz, graduado em História pela Universidade Federal Fluminense. Trabalho realizado para a disciplina “História dos Movimentos Políticos e das Revoluções no Brasil 1” – 1° semestre de 2021)

Grupos sociais

Autoridades

Lideranças

Ações de protesto não-violentas

  • Deserção
  • Formação de comunidade independente
  • Fuga de escravizados
  • Rituais de cantos cerimoniais
  • Roubo de escravos

Ações de protesto violentas

  • Destruição de propriedade
  • Incêndios
  • Queima de plantações

Repressão

Contenção

  • Expedição armada ou repressão militar
  • Prisões

Punição

  • Demolição de imóvel
  • Escravização e reescravização

Instâncias Administrativas

  • Governador Geral

Bibliografia Básica

CALASANS, José. Fernão Cabral de Ataíde e a Santidade de Jaguaripe. Salvador, 2011 {1952}.

PACHECO, Moreno. Deus e o Papa contra os brancos. A Santidade de Jaguaripe e a Bahia do Século XVI. In: CUNHA, Mafalda (orgs.) Resistências: Insubmissão e Revolta no Império Português. Alfragide: Casa das Letras. 2021.

SANTOS, Jamille, Ecos de liberdade. A santidade de Jaguaripe entre os alcances e limites da colonização cristã (1580-1595). Salvador, dissertação de mestrado em História (UFBa), 2015.

VAINFAS, Ronaldo. A Heresia dos Índios, catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

Fontes impressas

VAINFAS, Ronaldo. Confissões da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

    Imprimir página

Compartilhe