Revoltas

Revolta tupinambá contra portugueses

Capitania Real do Rio de Janeiro (1567 – 1821)Baía de Guanabara

Início / fim

20 de fevereiro de 1564 / 05 de março de 1564

O primeiro ataque dos tamoios ocorreu quando os portugueses saíram da Ilha de Sergipe (Forte de Vilaganhão), em busca de água no rio Carioca (Acazioca) ."Rio de Janeiro e a cidade de São Sebastião", mapa de Luís Teixeira (1574) - Biblioteca da Ajuda de Lisboa

Em fevereiro de 1564, no interior da Baía de Guanabara, nativos tamoios atacaram uma esquadra portuguesa liderada por Estácio de Sá, pessoa encarregada de colonizar a região. Preparando uma cilada e posicionados estrategicamente, nove canoas indígenas cercaram três embarcações quando elas foram recolher água no atual rio Carioca. Quatro portugueses foram mortos e outros sete ficaram feridos. Diante dessa resistência, Estácio ordenou que, no dia seguinte, duas caravelas fossem a São Vicente em busca de reforços. Enquanto saíam da Guanabara, dezenas de canoas tamoias os cercaram e tentaram naufragar suas embarcações golpeando-a com machados. Um barco afundou, deixando quatro de seus tripulantes mortos enquanto a segunda embarcação, apesar de danificada, conseguiu escapar.

No dia 6 de fevereiro de 1564, os índios tupinambás observaram uma potente frota portuguesa, comandada por Estácio de Sá, adentrar a Baía de Guanabara. Esse comandante havia chegado na Bahia, em 1° maio de 1563, com dois galeões armados concedidos pela rainha regente Dona Catarina (1557 – 1562). Recebeu ordens de seu “tio”, o Governador-Geral Mem de Sá (1558 – 1572), de povoar a Guanabara com portugueses e expulsar os índios tamoios e franceses que ali viviam.

Estácio partiu no início de 1564, junto do Ouvidor-mor Braz Fragoso e outras embarcações. Também teve o apoio de um combatente vindo de Ilhéus chamado Paolo Adorno Dias. Além disso, aportou no Espírito Santo, onde recebeu o apoio do provedor Belchior de Azevedo e Duarte Martins Mourão, que foram comissionados por Mem de Sá para acompanhar a criação da cidade. A eles juntou-se também um grupo de índios temiminós liderados por Araribóia.

A esquadra se estabeleceu na ilha que os nativos chamavam de Serigipe, que significa “ilha da água dos siris” em tupinambá. O mesmo lugar em que o almirante francês Nicolau Durand Villegagnon havia firmado uma colônia em 1555, a França Antártica, que foi desmantelada cinco anos depois por um ataque português. No entanto, ainda havia alguns colonos franceses remanescentes que eram aliados aos tupinambás e prestavam apoio nessa luta de resistência. Além disso, embarcações francesas frequentemente passavam por essa região para comercializar com os nativos. Não a toa, logo quando Estácio chegou, viu que um navio se encontrava no meio da Guanabara, sem tripulantes – provavelmente negociando com os indígenas – e cheio de recursos. Ele logo ordenou que seus homens a aprendessem.

Os tamoios, sabendo da presença lusitana e de que eles, rapidamente, necessitariam de água potável, posicionaram-se escondidos e prontos para o ataque no atual rio Carioca. Logo, quando três batéis portugueses foram discretamente buscar esse recurso, acabaram sendo surpreendidos por nove canoas tamoias, que se distribuíram três para cada batel lusitano. Uma vez que conseguiram cercá-los, os nativos começaram a disparar uma enxurrada de flechas contra os europeus. O contramestre, o guardião e outros dois marinheiros foram atingidos e logo caíram mortos. Além disso, outros oito homens também foram gravemente feridos, como o caso de Cristóvão de Aguiar, que foi alvejado por mais de uma flecha. Para alívio dos portugueses restantes, Paolo Adorno Dias percebeu a agitação e partiu rapidamente com sua galé em direção ao conflito, disparando contra os nativos que foram forçados a recuar.

De volta à ilha de Serigipe, depois de cuidar dos feridos e enterrar os mortos, Estácio de Sá chamou os capitães para se reunirem. Preocupado com a determinação dos nativos em expulsá-los da região, Estácio ordenou que duas embarcações partissem para São Vicente a fim de “buscar canoas, e gentio doméstico, e amigo, com que melhor se poderia fazer guerra àquele bárbaro inimigo.” (Salvador, 1982, p.50)

Dessa forma, uma caravela, cujo dono se chamava Domingos Fernandes, e a nau francesa que havia sido capturada partiram, de madrugada, com destino a São Vicente. Para surpresa dos portugueses, dezenas de canoas compostas por tamoios e franceses apareceram em cena para atacá-los. Armados com machados, começaram a golpear furiosamente a caravela até que sua estrutura fosse comprometida e viesse a naufragar. Domingos Fernandes conseguiu nadar em direção a outra nau portuguesa. Quatro de seus homens não tiveram a mesma sorte, e terminaram morrendo afogados ou alvejados pelas flechas tamoias.

Os nativos também golpearam essa outra embarcação, na qual os tripulantes portugueses protegiam-se, de dentro, atirando com seus mosquetes. Um tiro mal disparado de canhão explodiu dentro do navio, deixando mais homens feridos. Mesmo a nau estando em precárias condições, os lusitanos conseguiram se safar da perseguição tamoia e prosseguir viagem.

Esses dois acontecimentos foram recebidos como uma vitória para os tamoios que alegremente celebraram seu triunfo sobre os “perós” ao retornarem para suas aldeias. Alguns franceses aliados, entretanto, estavam em sua maioria entristecidos por terem perdido a embarcação que estava repleta de mercadorias. O restante da esquadra de Estácio, diante das pressões e baixas que sofreu dos tupinambás, também retornou para São Vicente, no dia 29 de março, a fim de armar-se melhor.

(Daniel Freitas, graduando no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ -CNE/2018-2021)

Antecedentes

Estácio de Sá é enviado pela Rainha Catarina a povoar a região do Rio de Janeiro. Antes de chegar, ele realiza escalas em busca de reforços para enfrentar os nativos tamoios.

Conjuntura e contexto

Esforço português em povoar a região da Guanabara, cujos habitantes, tamoios e franceses, eram hostis a presença deles.

Números da Revolta

aproximadamente 100 participantes.

Outras designações

Ataque tamoio contra portugueses

Resistência tupinambá contra os portugueses

Grupos sociais

Autoridades

Lideranças

Ações de protesto não-violentas

  • Não informadas

Ações de protesto violentas

  • Ataques Noturnos
  • Flechas Disparadas
  • Morte de inimigos

Repressão

Contenção

  • Envio de Armada Naval

Punição

  • Não informadas

Instâncias Administrativas

  • Governador Geral

Bibliografia Básica

BELCHIOR, Elysio. Estácio de Sá e a fundação do Rio de Janeiro. História (São Paulo), vol. 27, n. 1, 2008.

DORIA, Pedro. 1565 – Enquanto o Brasil nascia: a aventura de portugueses, franceses, índios e negros na fundação do país. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012, p. 110-112.

QUINTILIANO, Aylton. A Guerra dos Tamoios. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p. 191-195.

SILVA, Rafael Freitas. O Rio antes do Rio. Rio de Janeiro: Babilônia Cultural Editora, 2015, p. 399-401.

Fontes impressas

ANCHIETA, José. Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933.

LISBOA, Balthazar da Silva. Annaes do Rio de Janeiro: contendo a descoberta e conquista deste paiz, a fundação da cidade com a historia civil e ecclesiastica, até a chegada d’El Rey D. João VI; além de noticias topographicas, zoologicas, e botanicas. Tomo I. Rio de Janeiro: Na Typ. Imp. e Const. de Seignot-Plancher e Ca. 1834, p. 86-93.

SALVADOR, Frei Vicente. História do Brasil: 1500-1627. Belo Horizonte, Itatiaia/São Paulo, Edusp, 1982, p. 50-51.

    Imprimir página

Compartilhe