ADAMI, Saulo. Cancionata: a revolta dos colonos e o martírio de Leopoldo Adami em Nova Trento. Curitiba: Estrada de Papel, 2020.
janeiro de 1878 / 18 de março de 1881
A Revolta dos Colonos em Nova Trento, ocorrida no ano de 1878, foi um movimento protagonizado por imigrantes italianos camponeses insatisfeitos com as condições de vida após serem assentados durante a Grande Imigração Italiana em Santa Catarina, iniciada em 1875. Más decisões administrativas e a corrupção, presentes nas práticas de administradores da colônia, motivaram os camponeses a se organizarem coletivamente para contestar as autoridades indicadas pelo governo imperial para atuar no distrito. Esses colonos traziam experiências prévias de mobilizações coletivas ocorridas na Europa, especialmente no contexto dos conflitos no norte da Itália, entre as décadas de 1860 e 1870, durante o processo de unificação do Reino da Itália. Tais experiências contribuíram para o desenvolvimento de sua capacidade de articulação, sendo fundamentais para a condução de ações contestatórias. O movimento, marcado por tensões e episódios de violência, evidenciou a insatisfação da classe trabalhadora rural diante de problemas como exploração, dificuldades econômicas e falta de autonomia. Configurou-se, assim, como um exemplo de resistência popular que contribuiu para mudanças administrativas na região catarinense então pertencente à Colônia Imperial Itajahy-Brusque a partir de 1882.
Muitos imigrantes vislumbravam constituir, na América, uma nova comunidade, livre das dificuldades políticas, econômicas e sociais vividas nas províncias italianas sob o governo liberal do Reino recém-unificado. Para a formação de Nova Trento, chegaram imigrantes italianos (trentinos, vênetos e lombardos), formando uma comunidade que, apesar de diferenças internas, buscava coletivamente construir uma nova vida. Ao se estabelecerem no Distrito Colonial de Nova Trento, depararam-se com uma realidade distinta da esperada: muitos foram impedidos de ocupar lotes, tornando-se vulneráveis e sujeitos às vontades, decisões e arbitrariedades dos representantes do Império brasileiro. Em diversas situações, foram abandonados à própria sorte, enfrentando a fome ou sendo orientados a desistir do projeto de colonização.
A administração da colônia, sob a responsabilidade do engenheiro João de Carvalho Borges Júnior, caracterizou-se por falhas na distribuição de terras, pela precariedade das condições de vida e pela dependência financeira dos colonos em relação ao trabalho na abertura de estradas, o qual era remunerado pelo governo. Nomeado em 1877, Borges era responsável pela agrimensura dos lotes, pelo assentamento dos imigrantes e pela gestão de recursos públicos, realizando investimentos conforme suas próprias convicções. Nesse contexto, angústias e descontentamentos eram compartilhados entre os colonos, ao mesmo tempo em que se fortaleciam vínculos comunitários diante de uma realidade que os prejudicava econômica e socialmente.
A situação agravou-se significativamente em janeiro de 1878, quando o governo provincial suspendeu pagamentos e interrompeu contratos de trabalho, deixando inúmeras famílias sem meios de subsistência. Instalou-se, então, um cenário de desespero e indignação entre os colonos, ao constatarem que as promessas feitas pelas autoridades brasileiras não seriam cumpridas. As ações governamentais contrariavam valores tradicionais profundamente enraizados entre os italianos, como a confiança na palavra empenhada. Diante disso, consolidou-se um sentimento de ruptura moral e de deslegitimação da autoridade estatal. Nessas circunstâncias, a comunidade, orientada pela necessidade de sobrevivência, reagiu por meio de ações que buscavam reorganizar a vida social, econômica e política daqueles que se encontravam à margem do sistema.
Tratava-se de um movimento social que efervescia em uma comunidade de pessoas comuns, sem trabalho e sem remuneração, mas que demonstrava estar organizada para clamar por justiça. A revolta foi iniciada para forçar novas reformas que partissem do Estado e que atingissem os seus objetivos. Lideranças locais surgiam a partir de ações coletivas desordenadas, mas com objetivos pré-definidos. A Revolta dos Colonos em Nova Trento, ao emergir, configurava-se como uma manifestação da vontade popular, de caráter radical e coletivo, marcada pela presença massiva de colonos nas ruas, independentemente de suas motivações individuais, posicionamentos ideológicos ou do impacto imediato de suas ações sobre a sociedade. As autoridades acreditavam estar lidando com pessoas ingênuas, mas para os colonos não haveria mais a opção de recuo daquela epopeia. Suas vidas estavam em jogo e, por isso, expuseram seus próprios pescoços: desobedeceram às leis e arriscaram-se em uma revolta na qual esperavam sair vitoriosos, mesmo sabendo que estavam trocando suas demandas por possíveis punições que recairiam sobre muitos deles. Diante desse cenário, a insatisfação coletiva evoluiu para ações de contestação.
A revolta teve início em fevereiro de 1878 e rapidamente ganhou força como movimento social de caráter popular. Colonos passaram a se organizar em torno de interesses comuns, desafiando as autoridades locais. Dentre os episódios mais marcantes desse movimento está o ataque à casa da direção do distrito, em abril, quando colonos armados invadiram o local e dispararam tiros contra a estrutura administrativa, ato que simbolizou uma ruptura com a ordem estabelecida. A partir desse momento, intensificou-se a presença policial em Nova Trento, com prisões e cumprimento de ordens judiciais, embora o cenário permanecesse instável e propício a novos levantes.
Pressionado, Carvalho Borges chegou a autorizar o pagamento de valores em atraso; entretanto, não restabeleceu os trabalhos públicos, o que contribuiu para a manutenção do clima de insatisfação. O movimento agravou-se em junho, quando grupos de colonos passaram a ocupar espaços públicos. No dia 26, durante a Festa de São Virgílio, padroeiro de Trento, colonos armados com paus e pedras percorreram as ruas da sede da vila, clamando por justiça. A mobilização intensificou-se nos dias e semanas seguintes, culminando em confrontos diretos entre os italianos e as forças policiais. Em 3 de julho, ocorreu um conflito violento que resultou em ferimentos graves em dois colonos e três praças, sendo um destes em estado grave. Durante o confronto, um dos revoltosos acabou sendo morto.
Aquelas famílias, já calejadas pela experiência, percebiam, sob a atmosfera instaurada em Nova Trento, que suas estratégias, a partir de então, não poderiam mais incluir tentativas de enfrentamento direto com as forças policiais. Tinham consciência de que muitos dos mais visados estavam enfraquecidos naquele contexto e que dificilmente conseguiriam escapar à repressão, a qual tendia a se intensificar progressivamente. Assinalando a intransigência de Carvalho Borges e do governo provincial, cinquenta soldados do 17º Batalhão de Infantaria, deslocados de outras regiões, foram mobilizados para coibir qualquer nova tentativa de rebelião por parte dos colonos, evidenciando o caráter imediato e severo da repressão empreendida pelo governo imperial.
Com a chegada do chefe de polícia Augusto Lobo de Moura e do capitão Zeferino José Teixeira Campos, foi estabelecida em Nova Trento uma investigação, conduzida pelo sistema judiciário provincial, que colheu 29 depoimentos acerca dos fatos ocorridos entre fevereiro e julho de 1878. Na condição de autoridades locais nomeadas, concluíram o inquérito, o qual apontou Baptista Oneda como mentor da revolta, resultando no seu indiciamento e na punição dos culpados.
Embora os imigrantes reivindicassem apenas direitos básicos, como o cumprimento das promessas feitas pelos agentes de colonização que os atraíram para a colônia, lideranças foram detidas, colonos sofreram punições e alguns chegaram a ser deportados, por serem classificados como ameaças à ordem estabelecida. A insatisfação popular também se dirigia ao uso de recursos públicos para repressão, enquanto acordos financeiros com os imigrantes permaneciam descumpridos. Aqueles italianos entendiam que para a sua gente houve a negação de seus direitos, e que esse fator foi decisivo para que a colonização da região ocorresse sob um banho de sangue. Além disso, aquilo tudo desmoralizou Carvalho Borges e, por isso, os colonos não aceitavam que ele fosse mantido na direção dos assentamentos, mesmo ele ficando no cargo até 1882. Para os camponeses restava protestar por direito à terra e, também, alimentar a esperança de efetivamente viver e trabalhar nessa terra.
Os imigrantes italianos desejavam uma paz que, acreditavam, só alcançariam quando pudessem se integrar ao próprio manejo da terra e aos recursos que, inicialmente, lhes pareciam infinitos diante das possibilidades apresentadas. Era esse o direito que deveria ser garantido, o de realizarem trabalhos agrícolas e que pudessem, ao menos, subsistir por este meio. Paralelamente, novas tensões surgiram no âmbito político, especialmente durante as eleições distritais de agosto de 1878, evidenciando que o movimento também possuía dimensões políticas. Mudanças entre os futuros representantes do distrito poderiam implicar a perda do poder hegemônico de determinado grupo político, que atendia plenamente aos interesses de Carvalho Borges.
A situação agravou-se nas relações entre a inspeção colonial e os camponeses, que passaram a atuar no sentido de criar obstáculos aos seus opressores. Entre os cúmplices de Carvalho Borges estavam o engenheiro Ludwig Heinrich von Holleben e o agrimensor Edward Dorr, ambos de origem alemã e atuantes na administração da colônia. Esses indivíduos protagonizaram episódios de violência, possivelmente motivados por rivalidades direcionadas sobretudo aos imigrantes italianos, em especial aos de origem trentina. Esses alemães foram investigados pelas forças policiais e responsabilizados por essas ações pelo recém-chegado chefe de polícia Augusto Lobo de Moura. Há registros de que colonos foram torturados diante de suas famílias. Holleben e Dorr foram denunciados e, apesar de terem sido formalmente afastados após investigações, continuaram atuando sob proteção de Borges. Em janeiro de 1879, diante das condições adversas, mais de uma centena de imigrantes abandonou a colônia e dirigiu-se a Desterro (atual Florianópolis), buscando novas oportunidades.
Apesar da violência, a Revolta dos Colonos teve consequências significativas. O movimento expôs as fragilidades da administração colonial e impulsionou mudanças na condução das políticas de colonização na região. Em 1882, a colônia foi reorganizada, e Nova Trento passou a integrar o Distrito Policial de Tijucas. Posteriormente, em 1892, tornou-se município, adquirindo autonomia administrativa.
Embora não tenha sido uma revolução no sentido clássico, a Revolta dos Colonos representou uma forma significativa de resistência popular, protagonizada por trabalhadores rurais que buscavam melhores condições de vida, acesso à terra e reconhecimento de seus direitos. O episódio demonstra a capacidade de organização política dos colonos e sua influência nas transformações das estruturas locais.
(Malcon Gustavo Tonini, professor efetivo da Secretaria de Estado de Educação deSanta Catarina, doutorando em História pela UDESC e autor do livro “Memórias da Colônia Nova Itália”)
Criação do Distrito Colonial de Nova Trento, na Província de Santa Catarina e chegada dos colonos italianos.
A Revolta dos Colonos em Nova Trento insere-se no contexto da política imperial de incentivo à imigração europeia, intensificada nas últimas décadas do século XIX. Esta era uma estratégia para substituir gradativamente a mão de obra escravizada. A promessa de acesso à terra e de melhores condições de vida atraiu milhares de famílias italianas, que, ao chegarem ao Brasil, encontraram uma realidade marcada por dificuldades materiais, incompetência administrativa e sucessivos descumprimentos dos compromissos assumidos pelo Estado Imperial com esses colonos. Nesse cenário, a frustração das expectativas e o agravamento das condições de sobrevivencia propiciaram o surgimento de tensões que culminaram na mobilização coletiva dos colonos contra as autoridades locais.
4 anos e 2 meses de duração
Cancionata
ADAMI, Saulo. Cancionata: a revolta dos colonos e o martírio de Leopoldo Adami em Nova Trento. Curitiba: Estrada de Papel, 2020.
GROSELLI, Renzo Maria. Vencer ou morrer: camponeses trentinos (vênetos e lombardos) nas florestas brasileiras de Santa Catarina 1875-1900; tradução Solange Ugo Luques, Ciro Mioranza. Brusque: Ed. UNIFEBE, 2025.
PIAZZA, Walter Fernando. Nova Trento. Florianópolis: Editora Ex-libris, 1950.
TONINI, Malcon Gustavo. Apaixonados por uma causa: A Revolta dos Colonos em Nova Trento/SC (1878). Blumenau em Cadernos, Blumenau, t. 67, n. 2, p. 7-29, mar./abr. 2026.
Sem Nome, "Revolta dos Colonos de Nova Trento". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/revolta-dos-colonos-de-nova-trento/. Publicado em: 30 de julho de 2026.
Parabéns pelo trabalho! A revolta dos colonos em Nova Trento mostra que existiram inúmeras revoltas de colonos/imigrantes no Brasil Imperial, além da revolta narrada em Memórias de um Colono, por Davatz.