Revoltas

Revolta dos escravizados indígenas na propriedade de João “Sutil”

Capitania Real do Rio de Janeiro (1567 – 1821)Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos

Início / fim

1652 / 1652

No interior de São Paulo, estourou uma revolta de cativos indígenas de João Sutil, próximo ao aldeamento de Conceição de Guarulhos. O levante, ocorrido em 1652, contou com a participação de gentios da tribo dos Guarulhos de fora da propriedade e culminou na morte do dono do local João Sutil de Oliveira, na de sua esposa, Maria Ribeira, e em saques no imóvel destinado à atividade têxtil.

O levante foi feito por indígenas da tribo Guarulhos, tendo como responsáveis: Paulo, Vicente e Ascenso, os quais, apesar de serem batizados, o que é indicado por seus nomes, eram recém chegados na propriedade. Ao que tudo indica, o levante foi feito devido às pesadas condições de trabalho às quais eram submetidos por seu senhor, situação aproveitada pelos indígenas de fora da propriedade que também atacaram o local para o resgate de parentes. Além de matarem os senhores do imóvel; flecharam um cavalo; fugiram do local, um grupo de 12 indígenas; e saquearam alguns bens e equipamentos da propriedade. Em contrapartida, outros 46 guarulhos permaneceram no sítio e os filhos dos proprietários, Bastião e Izabel de 4 e 6 anos, respectivamente, foram poupados, talvez por não estarem presentes na ocasião. Cinco anos depois, tem-se a informação que apenas 25 daqueles revoltosos permaneciam vivos.

Duas testemunhas serviram como importantes fontes sobre o ocorrido em Guarulhos. Anos depois do fim da revolta, quando o pai de João Sutil prestou conta do inventário, por meio de declaração, deu a entender que a revolta também contou com Guarulhos de fora da propriedade, que almejavam o resgates de seus parentes cativos. Assim como, quando também solicitou sua parte no inventário do casal, em 1661, Sebastião das Pontes, pai de Maria Ribeira, confirmou a versão apresentada por Francisco Sutil de Oliveira. Além disso, o sogro de João Sutil também forneceu outras informações sobre a propriedade, como nome de um cativo que exercia atividade de tecelão, indicando o que era praticado na propriedade.

Os indígenas haviam sido conquistados no sertão e, também, tomados à força em aldeamentos, neste caso, o da Nossa Senhora da Conceição – Guarulhos que, de 1640 a 1679, teve uma redução de 800 aldeados para apenas 70. João Sutil pertencia a uma família tradicional de sertanistas, tanto seu irmão como seu pai, o notório sertanista Francisco Sutil de Oliveira, exerciam atividades agrícolas na região e de apresamento indígena. É provável que, assim como outros sertanistas, o Francisco Sutil de Oliveira tenha sido condenado, em anos anteriores, por apresamento indígena, então, para pagar sua pena, enviou seu filho João para participar em 1639 da guerra contra os holandeses em Pernambuco. A família Sutil tinha grande influência junto às autoridades coloniais, explorando em demasia o aprisionamento de cativos.

A Câmara Municipal de São Paulo corrobora essa tese, mostrando que alguns paulistas, após serem condenados por crime de entrada e de apresamento indígenas, barganharam a extinção da pena. Nesse sentido, alistaram seus filhos ou parentes no corpo armado montado por Salvador Correia de Sá para a expulsão dos holandeses de Pernambuco, em 1639, o que explica a participação de João nessa batalha.

A região em que ocorreu esse motim, embora distante geograficamente do centro da capitania do Rio de Janeiro, estava sob sua jurisdição, e assim permaneceu até o ano de 1709, segundo consta a Carta Régia de 23 de novembro do mesmo ano, que criou a capitania de São Paulo e Minas do Ouro.

(Leandro Machado, graduando no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ -CNE/2018-2021)

Antecedentes

Escravização indígena nos sertões paulistas.

Conjuntura e contexto

Conflitos pela posse de mão de obra indígena.

Números da Revolta

Aproximadamente 1 dia de duração, cerca de 12 fugitivos participantes.

Grupos sociais

Lideranças

Ações de protesto não-violentas

  • Fuga de escravizados

Ações de protesto violentas

  • Destruição de propriedade
  • Morte de inimigos

Repressão

Contenção

  • Não informadas

Punição

  • Não Houve

Bibliografia Básica

MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: indíos e bandeirantes nas origens de São Paulo . São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

VELLOSO, Gustavo. Ociosos e sedicionários: populações indígenas e os tempos do trabalho nos Campos de Piratininga (século XVII). Dissertação de Mestrado. São Paulo: USP, Departamento de História, 2016, p. 207-210.

VILARDAGA, José Carlos. Terras, ouro e cativeiro: a ocupação do aldeamento dos Guarulhos nos séculos XVI e XVII. R. Museu Arq. Etn., 2016, 26: p. 42-61.

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