Revoltas

Quilombo de Cabo Frio

Capitania Real do Rio de Janeiro (1567 – 1821)Cabo Frio

Início / fim

1790 / 1809

Data aproximada

Estima-se que o Quilombo de Cabo Frio tenha se formado por volta de 1790. Ele foi construído como forma de resistência por meio de fugas de escravizados. Este quilombo foi liderado pela rainha Maria e rei Joaquim, escravizados fugidos. Os aquilombados realizavam ataques e roubos nas fazendas daquela região. Esses ataques atormentaram os moradores da vila de Cabo Frio, aumentando o medo de um possível levante de escravos. A reação veio por meio da organização de expedições  comandadas por Feliciano de Souza com o intuito de capturar e destruir o quilombo. No dia 12 de outubro de 1805, foram enviados às Cortes do Rio de Janeiro os principais quilombolas capturados, incluindo a rainha do quilombo. O rei, no entanto, havia sido morto pelos seus próprios companheiros durante uma briga pela divisão dos espólios de um assalto. Mesmo com as expedições realizadas às comunidades dos pretos fugitivos, elas não foram totalmente destruídas, pois a Câmara de Cabo Frio autorizou novas expedições em 1809.

Não há documentação que evidencie a data de formação do Quilombo de Cabo Frio e sua localização, porém já estavam assentados no final do século XVIII de acordo com os poucos registros que se tem. No começo do século XIX, o quilombo era liderado por uma rainha e um rei, Maria e Joaquim, que organizavam as ações daquela comunidade. O acampamento estava localizado longe o bastante da cidade para manter certa segurança e perto o suficiente para manter as relações comerciais, realizar os frequentes roubos nas estradas e fazendas.

A resistência dos escravizados foi uma resposta constante à escravidão. Houve muitas formas de resistir no Brasil, mas as fugas e a formação de comunidades pretas eram as que mais ameaçavam as autoridades locais. Os quilombolas possuíam roças, mantinham relações com os comerciantes locais e cometiam crimes, como saques em propriedades e assassinatos como o exemplificado a seguir.

No final do mês de setembro de 1805, o preto Domingos foi preso comprando pólvora e chumbo no armazém de Manoel Ferreira Santana, comerciante da Vila de Cabo Frio. Desde a Ordem Régia do século XVII, os pretos ou mulatos que fossem pego com qualquer tipo de arma ou munição seriam julgados com pena de morte. Nos séculos posteriores a lei foi reiterada para evitar rebeliões armadas dos escravizados. Essas munições eram usadas nos frequentes roubos em engenhos, fazendas e pessoas nas estradas da vila. 

Domingos ao ser preso e possivelmente torturado declarou os pormenores do ataque ao militar Miguel da Silva, denunciou os companheiros envolvidos que conseguiram fugir e a localização do seu próprio quilombo.  

Conforme os relatos de Domingos, o comerciante Manuel Ferreira havia solicitado a ação dos quilombolas ao preto Joaquim, rei do quilombo, para que matassem o filho do soldado Miguel da Silva em troca da continuação das relações comerciais e por novas demandas de trabalho. A encomendação do assassinato feita por Manuel foi fomentada pela vingança do concubinato da sua esposa com o  filho de Miguel da Silva. 

O grupo designado pelo rei do quilombo partiu para a fazenda de Miguel da Silva para realizar o serviço. A fim de atrair o filho do soldado para fora da casa, espantaram suas galinhas promovendo um alvoroço. O plano deu certo e, ao avistar um homem em direção ao galinheiro, os pretos Domingos e Geremias dispararam suas armas. 

O que os quilombolas não esperavam era matar o homem errado. No dia posterior foi divulgado na Vila de Cabo Frio a morte do soldado Miguel da Silva, pai do concubino. Os moradores denunciaram o dono do armazém por acolher os pretos do assassinato em suas terras. 

No dia 26 de setembro de 1805, Feliciano José Victorino de Souza, comandante do regimento, escreveu para o Vice-Rei Dom Fernando José de Portugal o atualizando dos acontecimentos da Vila de Cabo Frio. Na carta, o comandante relata o aumento na frequência das fugas dos escravizados, os ataques quilombolas e as medidas repressoras por meio das expedições dos capitães do mato e tropas para o interior das matas. Por fim, Victorino de Souza solicitou a D. Fernando o sustento para os soldados, como é visto nesse trecho da carta:

Têm feito fugir vários escravos e escravas, inquietando este Distrito. Eu fico dando as possíveis providências fazendo entradas nos matos com tropa e capitães do mato, assim como pondo patrulhas pelas estradas, a fim de serem seguros estes facinorosos. Rogo a V. Exa. queira dignar-se mandar à Câmara que dê o sustento para a tropa, pois presentemente providenciei mandando haver dos lavradores e fazendeiros.” (CAVALCANTI, 2914. p. 226)

Outros ataques dos quilombolas aconteceram no ano de 1805, aumentando o medo dos moradores da vila. Um exemplo foi o assalto à fazenda do negociante Joaquim Correia, quando alguns pretos roubaram sua fazenda e tentaram o matar junto a sua mulher, mas apenas o negociante morreu. Outro ocorrido foi o ataque ao engenho da viúva Tereza de Jesus Gonçalves. O grupo era formado entre 10 e 12 quilombolas que arrombaram a casa e perseguiram a viúva que conseguiu escapar viva.

No dia 8 de outubro, o preto Domingos e o mandante do crime Manoel Ferreira, presos pelo assassinato do pai do concubino, foram enviados para o Rio de Janeiro. A pressão dos moradores da região às autoridades para a destruição do quilombo aumentava na medida que o pânico local crescia em Cabo Frio. 

Mais assaltos dos quilombolas aconteceram naquele ano. O engenho do capitão Antônio Gonçalves foi atacado pelos pretos fugitivos, mas, dessa vez, 12 foram capturados, incluindo a rainha do quilombo. Os principais prisioneiros do quilombo foram enviados para o Rio de Janeiro no dia 12 de outubro de 1805, sob responsabilidade de João de Souza Braga, alferes de granadeiro. O principal alvo da busca era o preto Joaquim, rei do quilombo, no entanto, o mesmo foi morto pelos seus companheiros durante um desentendimento na partilha do roubo que haviam realizado em uma fazenda. 

Com a intenção de servir de exemplo aos escravizados que tentassem fugir, Feliciano solicitou ao vice-rei D. Fernando as cabeças dos principais pretos envolvidos no caso. Não se sabe se o pedido foi aceito, no entanto, a repressão se intensificou nos meses seguintes. Em 1809 a Câmara de Cabo Frio permitiu mais expedições para prender todos os quilombolas da região. É possível que tenham ocorrido outras expedições após esse ano, mas não se tem registros.

Não há outros documentos sobre o Quilombo de Cabo Frio até o momento, assim não se conhece em detalhes o processo de formação do quilombo, tampouco as repressão ocorridas no começo do século XIX. 

Os quilombos eram respostas às severas condições impostas aos escravizados. As incursões de tropas e de capitães-do-mato poderiam pôr fim a algumas comunidades, mas, enquanto o sistema escravocrata os explorasse, a resposta viria cada vez mais violenta.  

 

(Richard Enbel, graduando no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ -CNE/2018-2021)

Números da Revolta

Aproximadamente 19 anos de duração.

Grupos sociais

Autoridades

Lideranças

Réus e Condenados

Ações de protesto não-violentas

  • Formação de comunidade independente
  • Fuga de escravizados
  • Roubo de comida
  • Roubo de pessoas

Ações de protesto violentas

  • Morte de inimigos
  • Saques a casas e armazéns
  • Sequestro de bens

Repressão

Contenção

  • Capitães do mato
  • Expedição armada ou repressão militar
  • Prisões

Punição

  • Degredo / Desterro
  • Enforcamento
  • Envio de presos para vila
  • Execução
  • Exposição apenas da cabeça

Instâncias Administrativas

  • Governador da Capitania
  • Vice-rei

Bibliografia Básica

CAVALCANTI, Nireu. Histórias de conflitos no Rio de Janeiro colonial: da carta de Caminha ao contrabando de camisinha (1500-1807). Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2014. p. 225-228

GOMES, Flávio dos Santos. “Uma tradição rebelde: notas sobre os quilombos na capitania do Rio de Janeiro (1625-1818)”. Revista Afro Ásia, Salvador, v. 17, 1996.

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