Revoltas

Quilombo de Bacaxá

Capitania Real do Rio de Janeiro (1567 – 1821)Saquarema

Início / fim

1710 / 1730

O Quilombo de Bacaxá foi uma manifestação da resistência dos escravizados fugidos de seus senhores daquela região. A comunidade dos pretos fugitivos se localizava nas proximidades do Rio Bacaxá até o sul da Lagoa de Saquarema. Eram frequentes os roubos e ataques efetuados pelos quilombolas aos viajantes e fazendeiros, o que assustava os moradores e autoridades da região. Em meados de 1730 um grupo desse quilombo, armado de arcos e flechas, atacou os caçadores que adentravam nos montes de Bacaxá, resultando em dois caçadores mortos. Três brancos conseguiram escapar e informaram ao Governador da Capitania do Rio de Janeiro, Luiz Vahia Monteiro, sobre o ocorrido. No dia 11 de agosto, Vahia Monteiro ordenou ao capitão-mor da Vila de Santo Antônio de Sá que realizasse uma expedição para destruir aquele quilombo. Não há indícios do sucesso da expedição, mas até o final do século XVIII, o governo tem informações sobre a existência de mocambos na região de Bacaxá.

A região de Bacaxá tinha baixo índice populacional, mas começava a se destacar pela crescente produção de açúcar. A existência do quilombo já era conhecida devido aos corriqueiros roubos e, no final de 1729, os pretos quilombolas eram chamados de “delinquentes refugiados do sertão” pelos moradores e autoridades daquela região, segundo expressam as fontes. Não é de conhecimento a formação dos primeiros mocambos dos pretos, porém estavam a tempo suficiente para consolidar casas e roças e, conforme dito pelo historiador Flávio Gomes, o quilombo alcançava cerca de cem pessoas por volta de 1730. (GOMES, 1997, p.533-534).

A resistência dos escravizados foi uma resposta constante à escravidão. Houve muitas formas de resistir no Brasil, mas as fugas e a formação de comunidades pretas eram as que mais ameaçavam as autoridades locais. Os quilombolas possuíam roças, mantinham relações com os comerciantes locais e cometiam crimes, como saques em propriedades e assassinatos como os citados na correspondência.

Os relatos do juiz ordinário de Saquarema, Sebastião Gomes Sardinha, apresentam que dois grupos de caçadores, ao adentrarem os montes de Bacaxá, foram atacados por cerca de cinquenta pretos. Armados com arcos e flechas os quilombolas conseguiram matar dois caçadores, porém três conseguiram fugir. No dia 11 de agosto, Caetano de Souza Pereira, capitão-mor da Vila de Santo Antônio de Sá, recebeu ordens do Governador da Capitania do Rio de Janeiro, Luiz Vahia Monteiro (1725-1731) para pôr fim aos quilombos e prender todas as pretas, pretos e seus descendentes. Segundo Vahia Monteiro, o que mais alimentava o medo local e precisava ser combatido não era a existência do quilombo, mas a “ousadia” de atacar os caçadores. (GOMES, 1997, p.535)

Foi determinada a participação das companhias militares da região para participarem da repressão do quilombo. A expedição formada contou com o auxílio de um escravizado, sob ameaça de ser acusado como cúmplice dos quilombolas. Aparentemente esse escravizado possuía ligação com os pretos fugitivos e estaria mais apto para encontrá-los, pois saberia a localização do quilombo. Durante a expedição de invasão, o coronel José de Áquila descobriu que o referido quilombo era composto por duas comunidades separadas entre o novo quilombo e o velho quilombo.

Apesar das dificuldades da expedição, dezoito pretos foram capturados. Porém, não há indícios de que os quilombos foram destruídos por completo, uma vez que aparecem notícias a respeito dos quilombos de Bacaxá até o final desse século. Nesse período começou a surgir denúncia de ações quilombolas em Cabo Frio. A proximidade das duas regiões permite especular que houve uma migração causada pela repressão de Bacaxá.

Os quilombos eram respostas às severas condições impostas aos escravizados. As incursões de tropas e de capitães-do-mato poderiam pôr fim a algumas comunidades, mas, enquanto o sistema escravocrata os explorasse, a resposta viria cada vez mais violenta.

(Richard Enbel, graduando no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ -CNE/2018-2021)
(Giovanna Wermelinger, graduanda no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ -CNE/2018-2021)

Antecedentes

Fuga de escravizados das fazendas da região.

Conjuntura e contexto

Tráfico transatlântico de escravos e crescente produção açucareira na região de Saquarema.

Números da Revolta

Aproximadamente 20 anos de duração, mais de 100 participantes.

Grupos sociais

Autoridades

Ações de protesto não-violentas

  • Desobediência
  • Formação de comunidade independente
  • Fuga de escravizados
  • Roubo de pessoas

Ações de protesto violentas

  • Morte de inimigos

Repressão

Contenção

  • Capitães do mato
  • Envio de autoridade

Punição

  • Não informadas

Bibliografia Básica

GOMES, Flávio. A hidra e os pântanos: quilombos e mocambos no Brasil. 1997. p. 538-539

GOMES, Flávio dos Santos et al. A hidra e os pântanos: quilombos e mocambos no Brasil (secs. XVII-XIX). Campinas, tese de doutorado, 1997. p. 533-540.

SOUZA, José Antonio Soares de. Quilombo de Bacaxá. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 4, n. 253, p. 3-11, 1961.

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