Revoltas

Quilombo da Serra dos Órgãos

Capitania Real do Rio de Janeiro (1567 – 1821)Serra dos Orgãos

Início / fim

1650 / outubro de 1699

Data aproximada
Parque Nacional da Serra dos Órgãos - Foto: Patrícia Figueiredo/G1

Os mocambos da Serra dos Órgãos se constituíram como uma resistência dos escravizados fugitivos das fazendas próximas. Essas comunidades, criadas por índios e africanos, se distribuíram nas matas entre a Serra dos Órgãos, perpassando o Rio Guandu até o Rio Paraíba do Sul. Os “amocambados” que lá viviam realizaram roubos e ataques às freguesias rurais da cidade do Rio de Janeiro, tendo os primeiros registros no ano de 1650 e o último em 1699, quando então foram massacrados por tropas organizadas pelo governador Artur de Sá e Meneses (1699-1700). O governador planejou um avanço pela “Montanha dos Órgãos”, destruindo e recapturando os escravizados fugitivos e seus filhos dessas comunidades.

Em torno de 1650, aparecem as primeiras notícias de aquilombados na Serra dos Órgãos atacando as áreas rurais próximas à cidade do Rio de Janeiro, como os distritos de Iguaçu, Jacutinga, Sarapuí, Miriti e Campo Grande onde havia inúmeras propriedades em que se produzia açúcar, mandioca e gêneros de subsistência. A ação dos quilombolas consistia em assaltos a propriedades rurais e a comerciantes. A violência era uma das respostas conhecidas para resistir à recaptura. Os quilombolas estavam armados com espingardas roubadas e outras armas, tomando de surpresa viajantes e senhores em suas próprias casas e fazendas.

Muitos desses assaltos acabaram em mortes, como a de um mestre de açúcar, a do barqueiro João Alves Pereira e a do pardo Valério Negrão, atribuídas aos quilombolas no ano de 1650 em Guaguassú (atual região de Nova Iguaçu). Essas mortes, assim como os prejuízos materiais e as frequentes fugas de escravos despertaram reações dos moradores locais que pediam ações enérgicas das autoridades para pôr fim aos quilombolas.

Esses mocambos se organizavam em diversas áreas na região da Serra dos Órgãos até as margens do Rio Paraíba do Sul e o Rio Guandu. Era comum os escravizados africanos se unirem aos índios da região para formar essas comunidades. Eles se interligavam em diferentes relações de troca, como por exemplo, ajudar os escravizados a fugirem pela floresta. Eram chamados de quilombo ou mocambo qualquer acampamento com mais de 5 “negros”, o termo à época era indiferenciado para escravizados africanos ou índios.

As expedições para acabar com os rebeldes aquilombados eram constantes e cada vez mais exigidas pelos fazendeiros e moradores da cidade do Rio de Janeiro. No dia 21 de outubro de 1659, o governador Tomé Correia Alvarenga (1657-1659) tomou providências, alegando que era necessário ampliar as recompensas para homens dispostos a atacar e destruir os mocambos da Serra dos Órgãos. A proposta do governador foi de que os soldados receberiam um terço do valor dos escravos fugitivos capturados, bem como todos os “filhos dos pretos” nascidos nos mocambos.

O terror da classe senhorial ante os negros organizados era tamanho que pediram a mobilização de mais de uma centena de infantes e, para carregar suprimentos, 150 negros, os quais também seriam envolvidos em eventuais confrontos. Isso nos permite dimensionar a quantidade de amocambados na Serra dos Órgãos para números maiores que duas ou três centenas de pessoas organizadas.

Essa expedição de 1659 foi montada com auxílio dos produtores de açúcar e mandioca da região, que forneceram parte de suas produções para cobrir as despesas. O interesse dos produtores em auxiliar à expedição para pôr fim aos quilombos era devido à ameaça e à influência que estes impunham na disciplinas dos seus escravizados na fazenda e, ainda, porque os aquilombados assaltavam esses núcleos coloniais para buscar gêneros que não conseguiam produzir em seus redutos, tais como: pólvora, sal, gado, farinha e armas

A incursão foi chefiada pelo capitão Manoel Jordão da Silva e acompanhada por um tenente e dois sargentos. O plano apresentado à Câmara era de avançar pela “Montanha dos Órgãos” para penetrar e capturar os negros rebelados, destruindo as comunidades criadas entre os índios e os quilombolas.

Não há relatos precisos sobre como transcorreu expedição. Contudo, sabe-se que os mocambos da Serra dos Órgãos não foram exterminados, uma vez que, na década seguinte, em 1669, novos assaltos ocorreram nas estradas da vizinhança do centro do Rio de Janeiro, principalmente em Inhaúma e, às vezes, descendo até a entrada de São Cristóvão. Para policiar a região, as autoridades nomearam o capitão-do-mato Atanásio Pereira, que construiu uma residência na fazenda dos jesuítas a quem a municipalidade pagava o foro do terreno.

A presença próxima do capitão-do-mato ameaçava os amocambados, mas a luta pela manutenção de suas comunidades e suas liberdades se mantinha. Dessa forma, os negros continuavam agindo com violência, realizando roubos e assaltos na região. As autoridades relataram que eles estavam cada vez mais organizados e armados, como no caso de maio de 1691, quando o governador Luis César de Menezes alertou que no sertão do Rio de Janeiro havia um “mocambo de negros foragidos com grande quantidade de gente nas cabeceiras do Rio Guandú”.

Os mocambos da Serra dos Órgãos pareciam ser um problema crônico da região. Anos depois, em 1699, o governador Artur de Sá e Meneses mandou pôr fim a essas comunidades. Para isso organizou “Corpos disciplinados”, que seriam responsáveis por reprimir os amocambados. A expedição militar ocorreu na primeira metade do ano de 1699. Os relatos que se seguiram informam que os moradores dos mocambos foram mortos sem distinção, inclusive, aqueles que não demonstraram ameaça ou resistência foram massacrados.

A chacina parece ter tomado tamanha proporção que acabou despertando a necessidade de se instituir uma devassa por parte das autoridades do Rio de Janeiro. Sabe-se ainda que parte da tropa foi presa, acusada pelo massacre àqueles que não haviam oferecido resistência. Isso gerou insatisfação entre os militares e moradores da cidade, que recorreram ao governador alegando a defesa natural contra o “furioso ataque dos negros”.

Em 8 de junho de 1699, o governador Artur de Sá e Meneses enviou uma carta ao El-Rei Pedro II comentando o ocorrido e as prisões realizadas. A resposta veio em 24 de setembro do mesmo ano, assinada pelo rei e pelo Conde de Alvôr, presidente do Conselho Ultramarino à época . Nela, o soberano comentava que o governador deveria proceder com a devassa, punindo com castigo aqueles cabos que agiram com excesso contra os negros, como pode ser visto no trecho a seguir:

Nestes casos sempre se deve tirar devassa, e constando que as mortes se fizeram foram acidentais ou nascidas das resistências, se não deve proceder por elas; porém constando que estas mortes se fizeram voluntariamente sem proceder da parte dos negros aquela ofensa e resistência, por onde obrigue aos Cabos a que os matem, que consentirem semelhante desordem, por se não dar ocasião a que usem mal da diligência que deles se fia.(LISBOA, 1835, Tomo V p. 227-228.)

Os quilombos eram respostas às severas condições impostas aos escravizados. As incursões de tropas e de capitães-do-mato poderiam pôr fim a algumas comunidades, mas, enquanto o sistema escravocrata os explorasse, a resposta viria cada vez mais violenta

(Thiago Alvarenga, doutorando na UFF/Universidade de Múrcia e pesquisador do projeto “Um Rio de revoltas” – FAPERJ-CNE/2018-2021)

Conjuntura e contexto

O recrudescimento da escravidão no contexto da expansão da produção da cana de açúcar e gêneros alimentício na segunda metade do século XVII na Capitania do Rio de Janeiro.

Números da Revolta

Aproximadamente aproximadaemente 50 anos. de duração, 300 participantes.

Repressão

Instâncias Administrativas

  • Governador da Capitania

Bibliografia Básica

COARACY, Vivaldo. Memórias Da Cidade Do Rio De Janeiro: Quatro Séculos De Histórias. Rio de Janeiro: Documenta Histórica Editora, 2008, p. 188.

GOMES, Flávio. S. A hidra e os pântanos: Mocambos, quilombos e comunidades de fugitivos no Brasil (séculos XVII – XIX). São Paulo: Ed. UNESP. 2005. p. 327.

Fontes impressas

LISBOA, Balthazar da Silva. Annaes do Rio de Janeiro: contendo a descoberta e conquista deste paiz, a fundação da cidade com a historia civil e ecclesiastica, até a chegada d’El Rey D. João VI; além de noticias topographicas, zoologicas, e botanicas. Tomo III. Rio de Janeiro: Na Typ. Imp. e Const. de Seignot-Plancher e Ca. 1835. p. 253-256 e 307-309

LISBOA, Balthazar da Silva. Annaes do Rio de Janeiro: contendo a descoberta e conquista deste paiz, a fundação da cidade com a historia civil e ecclesiastica, até a chegada d’El Rey D. João VI; além de noticias topographicas, zoologicas, e botanicas. Tomo V. Rio de Janeiro: Na Typ. Imp. e Const. de Seignot-Plancher e Ca. 1835. p. 227-228.

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