Revoltas

Motins das tropas dos Voluntários Reais em Montevidéu (Província Cisplatina)

Capitania Real do Rio de Janeiro (1567 – 1821)Montevidéu

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1821 / 1822

Mapa ilustrando o plano da cidade de Montevidéu (1820) de José Cevallos - Biblioteca Carter Brown

Em agosto de 1816, sob o comando do Tenente-General Carlos Frederico Lecor, cerca de 12.000 soldados ordenados entre a Divisão de Voluntários Reais e as tropas luso-americanas invadiram o território da Banda Oriental no rio da Prata, domínio da Espanha no período colonial e naquela conjuntura desejado por Buenos Aires e pelo projeto federalista de José Gervásio Artigas (1776-1850). Em 20 de janeiro de 1817, por meio de acordos secretos, a cidade de Montevidéu capitulava sem a necessidade de batalha. A ação lusitana se baseou em dois argumentos: a conformação de suas possessões americanas a partir do pressuposto das “fronteiras naturais” – demarcando os seus limites do Rio Amazonas até o Rio da Prata – e a necessidade de pacificação da região. A dominação portuguesa nesta parte da América seria oficializada em 1821 com o nome de província Cisplatina, que corresponde, grosso modo, ao território do atual Uruguai, que passava então a se integrar ao Reino-Unido do Brasil.

A Revolução do Porto no ano de 1820 – que buscava o retorno da família Real para Portugal, sob um novo ordenamento político com o juramento de uma Constituição e, desse modo, a limitação dos poderes monárquicos – alterou a situação política em todo mundo lusitano. Por consequência, também nos seus domínios militares em Montevidéu. Com as tropas estacionadas na cidade, ainda que os conflitos com inimigos externos tenham se encerrado, eram cada vez maiores as tensões internas que envolviam questionamentos sobre o comando das tropas por parte dos superiores e o reconhecimento da nova Constituição portuguesa, culminando na guerra de independência do Brasil.

O acúmulo de tensões resultou em um motim no dia 20 de março de 1821. Durante a madrugada, três regimentos acampados nas cercanias de Montevidéu entraram pelo portão da cidade muralhada e ocuparam a praça. As tropas aquarteladas se juntaram aos insurgentes – cerca de dois mil soldados participaram do motim. A presença de Lecor, chefe das tropas, foi imediatamente solicitada. O militar, em resposta, alegou estar enfermo em consequência da idade mas foi pressionado a se apresentar ao grupo. Entre as exigências dos rebeldes estavam o reconhecimento da Constituição portuguesa e a criação de um Conselho Militar. Esta última proposta decorria do temor surgido a partir da sugestão das Cortes de Lisboa que pretendia desvincular os Voluntários Reais do exército português, em razão dos altos custos tanto de suas operações quanto de sua manutenção no Prata. Tal medida na prática bloquearia a progressão na carreira destes militares e dificultaria o retorno a Portugal.

O movimento das tropas no centro da cidade, com palavras de ordem como constituição e regeneração, além de manifestações escritas em panfletos surtiu efeito. Um Conselho Militar, aos moldes do criado pelos Vintistas, líderes da Revolução do Porto que defendiam a Constituição e o liberalismo, no ano anterior em Portugal e repetido em Pernambuco e na Bahia, foi implementado no dia 21 de março. O Conselho seria presidido por Lecor, plenipotenciário na Cisplatina, acumulando diversos cargos administrativos e militares, como de governador e chefe das armas, o que demonstrou certos limites do movimento, afinal era a sua autoridade que estava sendo questionada. Já o vice-presidente foi o líder das manifestações, o comandante do 1º Regimento de infantaria, coronel António José Claudino de Oliveira Pimentel. No dia 26 de março, D. João VI lançou um decreto no Rio de Janeiro através do qual afirmava que não desligaria a Divisão, pagaria os soldos, cumpriria as promoções atrasadas na carreira e não dificultaria o retorno à Europa.

Os eventos repercutiram na imprensa de Buenos Aires, que acompanhou atentamente o motim. No dia no dia 28 de março, a Gaceta de Buenos Aires, descrevia que o movimento havia contado com cerca de 1955 homens e que as tropas de dentro da cidade foram tomadas por surpresa, participando das ações quase que por obrigação e sem registros de violência. O jornal também relatava que um militar português foi enviado para Lisboa para tratar com as Cortes da situação dos Voluntários na América e que entre os revoltosos havia quem desejasse a extradição de Lecor.

Nos meses seguintes novos motins ocorreram. O primeiro deles aconteceu em 23 de julho, quando o 2º Regimento de Infantaria, estacionado no entorno de Montevidéu, fora das muralhas, entrou na cidade e cobrou publicamente de Lecor os acordos não cumpridos sobre os pagamentos atrasados. Também reclamavam da má qualidade da carne disponível e da diminuição da quantidade de pão na ração que recebiam. Em busca de solução e com temor de perder o posto, Lecor negociava com os ricos proprietários e comerciantes da Banda Oriental solicitando-lhes empréstimos, para pagar os soldos. Em dezembro de 1821 e em janeiro de 1822 novas reclamações e contestações ocorrem, seguindo o mesmo padrão anterior de queixas sobre pagamentos e do tratamento recebido. A imprensa mais uma vez foi uma importante ferramenta de combate. Os Voluntários Reais ligados aos motins publicavam proclamações oficiais e textos políticos, enquanto eram contestados nos mesmos termos pelo grupo contrário. As publicações destacavam que os Voluntários Reais eram a divisão “honrada, aguerrida e nunca bem elogiada” e o “Conselho Militar incansável”, e a Revolução do Porto “la gloriosa revolucion del 20 de marzo del año anterior”.

Do lado contrário, as críticas aos motins dos Voluntários Reais apontavam para a falta de disciplina, os atentados contra a hierarquia militar e a transformação destes eventos em uma guerra interna de portugueses contra portugueses. Assim, os militares eram considerados “inimigos domésticos” e o Vintismo obra da “fatal revolução de dia vinte de março de 1821”. Tratavam-se, nos termos de seus adversários, de “Doidos”, “facínoras”, “miseráveis”, “bandidos” e “Carbonários”.

Um panfleto anônimo, redigido em português, provavelmente de autoria de algum oficial dos Voluntários Reais, de 1822 utilizava da linguagem médica como metáfora para descrever os conflitos militares intermitentes na Cisplatina. A opinião do redator, sinalizada no título do impresso indicava o quadro clínico da província: A peste militar em Montevideo. Sob efeito dessa doença, todos estavam contagiados e “as leis e luzes do país são aniquilados e confundidos pela influência da força armada”. Segundo o panfleto, além dos conflitos externos, a versão mais mortal da peste se manifestava quando os contaminados se transformam em “inimigos domésticos para oprimirem os povos com a guerra”. Os sintomas da doença eram vistos em todos os espaços que passavam por profundas transformações. Tratava-se de uma “espécie de desordem das funções de entendimento que parece caracterizar a Peste Militar de que todos os sintomas têm sido verificados nestes últimos tempos em diversas partes da Europa e da América”.

As tensões ainda seriam ampliadas no final de 1822, mas por outras razões. Com a independência do Brasil, as tropas, que já se mostravam cada vez mais distantes em interesses e objetivos, se dividiram. Enquanto um grupo permaneceu fiel a Portugal e ligado aos Voluntários Reais, outro, liderado por Carlos Frederico Lecor, passou a apoiar o Império do Brasil. Em 1823, os dois lados entraram em conflito. A guerra entre eles durou mais de um ano e apenas em maio de 1824 a independência brasileira foi reconhecida na Cisplatina, a última província a fazê-lo.

(Esse texto e as informações sobre o documento “A peste militar em Montevidéu”, disponíveis no site Impressões Rebeldes, são de autoria de Murillo Dias Winter, professor do curso de História na Universidade Federal Fronteira Sul, Campus Erechim-RS, e Talia Gabrieli Fianco, aluna do curso de graduação em História da Universidade Federal Fronteira Sul. Trabalho realizado como parte das tarefas do projeto de pesquisa “Tempo e Linguagem na Era das Revoluções”, em junho de 2020)

Números da Revolta

1 ano de duração, aproximadamente 2.000 soldados participantes.

Grupos sociais

Autoridades

Ações de protesto não-violentas

  • Gritos
  • Ocupação de Ruas/Praças
  • Palavras de Ordem

Bibliografia Básica

FERREIRA, Fábio. O general Lecor, os Voluntários Reais, e os conflitos pela independência do Brasil na Província Cisplatina: 1822-1824. Tese de doutorado. UFF, Niterói, 2012.

FREGA, Ana Novales. Proyectos políticos y faccionalismo militar. Ecos de la crises de la Monarquía portuguesa en Montevideo, 1820-1824. In: Revista Illes Imperis, nº 17, Barcelona, 2015.

WINTER, Murillo Dias. Imprensa periódica e a construção da identidade Oriental (Província Cisplatina – 1821-1828). Porto Alegre: Fi Editora, 2018.

Fontes impressas

A peste militar em Montevidéu. Panfleto anônimo. Montevidéu, 1822. Gaceta de Buenos Aires. Buenos Aires, nº 48, 28 de março de 1821.

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