Revoltas

Conspiração contra o comandante Villegagnon

Capitania Real do Rio de Janeiro (1567 – 1821)Baía de Guanabara

Início / fim

04 de fevereiro de 1556 / 14 de fevereiro de 1556

Mapa francês da Baía de Guanabara datado de 1555. Em vermelho, a Ilha de Villegagnon, onde ficava a fortaleza de Coligny, local onde os franceses permaneceram durante a França Antártica

No interior da Baía de Guanabara em 4 de fevereiro de 1556, cerca de 30 franceses se organizaram em uma conspiração para assassinar Nicolas Durand Villegagnon, comandante da colônia francesa no Rio de Janeiro, a França Antártica. A rígida disciplina implementada por ele com restrições morais e trabalhos exaustivos motivou seus compatriotas a planejarem o assassinato. O plano foi frustrado pela descoberta antecipada da conspiração por parte de três soldados escoceses que compunham a sua guarda pessoal.

Em 1555, Gaspar de Coligny, almirante francês e ministro dos Assuntos do Além-Mar, foi comissionado pelo rei Henrique II a preparar três embarcações, que teriam a finalidade de transportar franceses ao Rio de Janeiro. Estes, por sua vez, deveriam fundar uma colônia normanda na Guanabara. Villegagnon, vice-almirante da França e veterano de guerra, foi escolhido como comandante desta expedição. No dia 12 de julho de 1555, mais de seiscentas pessoas partiram com destino à Guanabara em dois galeões de 200 toneladas e uma embarcação de mantimentos. Apesar da viagem contar com alguns nobres e religiosos, como André Thevet, a maioria da tripulação era composta de presidiários. Pela falta de voluntários na expedição, Villegagnon teve que convocar a maior parte de seus homens das prisões de Rouen e Paris, prometendo a eles reabilitação pelo serviço que iriam prestar na fundação da colônia.

Após chegarem na região da Guanabara e serem bem recepcionados pelos tupinambás, grupo indígena com o qual os franceses possuíam relações amistosas, não tardou para que Villegagnon ordenasse a construção de um forte que os protegesse. Afinal, um ataque lusitano ou de nativos rivais poderia ocorrer a qualquer momento. Dessa forma, o almirante ordenou a construção de uma fortaleza e a batizou de Coligny, em homenagem a Gaspar de Coligny, grande viabilizador do projeto. A fortificação foi construída na Baía  de Guanabara, na ilha em que os tupinambás chamavam de Serigipe e, atualmente, carrega o nome de Villegagnon. Apesar da boa localização defensiva, a ilha não possuía fontes de água. Dessa forma, paralelo à construção do forte, Villegagnon ordenou que uma enorme cisterna de água fosse erigida.

Aos colonos franceses, o excesso de trabalho ordenado pelo comandante começou a gerar descontentamentos. Além de fazê-los trabalhar à exaustão, Villegagnon também restringiu a alimentação fornecida  sob o pretexto de que essas privações trariam ordem. Além disso, o comandante exigiu temperança na conduta moral dos colonos, proibindo-lhes de estabelecerem relações com as mulheres tupinambás a menos que elas tivessem sido batizadas e ambos estivessem devidamente casados. O inconveniente foi ainda maior para os truchments, franceses que haviam chegado em expedições anteriores e viviam na Guanabara junto com os tupinambás, além de servirem como tradutores entre seus compatriotas e nativos. Villegagnon ordenou que eles também convertessem suas esposas, batizassem seus filhos, abandonassem a poligamia e oficializassem a união matrimonial sob a benção da Igreja. Caso não obedecessem, seriam todos punidos com a morte.

Tanto os franceses recém chegados da expedição, quanto aqueles que já habitavam o Rio de Janeiro, não mostraram nenhum tipo de interesse em obedecer à rígida disciplina imposta. Dessa forma, a reação surgiu no dia 4 de fevereiro quando aproximadamente 30 homens prepararam uma conspiração para o assassinato do líder da colônia. Inicialmente, foi pensada uma forma de envenená-lo mas, como desejavam assassiná-lo pessoalmente, os franceses rebeldes decidiram que iriam aproveitar um momento de vulnerabilidade de Villegagnon e cortar sua garganta.

Para que este intento fosse realizado, os rebeldes precisariam lidar com a guarda pessoal do comandante. Os conjurados tentaram cooptá-los a participarem do assassinato e acabaram subestimando sua  fidelidade  a Villegagnon. Os soldados, com a intenção de conhecer o plano dos conspiradores, demonstraram interesse na proposta e chegaram até a combinar uma data para o atentado, mas em seguida revelaram o plano para as autoridades da França Antártica.

No dia marcado para o atentado, os primeiros quatro conspiradores que apareceram na ilha foram aprisionados. Villegagnon ordenou que um deles fosse imediatamente enforcado, enquanto os outros permaneceram sentenciados a trabalhos forçados. No dia seguinte, um dos cativos recebeu a oportunidade de se defender das acusações e, por um momento, foi liberto das correntes. Vendo-se livre, o francês aproveitou a oportunidade para escapar. Abriu fuga pela ilha e atirou-se ao mar. Conseguiu fugir, mas terminou morrendo afogado no mar.

O líder desta revolta foi um francês, provavelmente chamado Gosset, um truchment que vivia entre os tupinambás há sete anos e havia sido intimidado por Villegagnon a se casar sob as leis de Deus ou largar sua companheira nativa. Ele conseguiu fugir para o interior junto a outros rebeldes. O comandante, por sua vez, não ousou persegui-los até a aldeia. Os franceses refratários, que se exilaram entre os indígenas, passaram a atacar  a imagem de Villegagnon.

Diante de uma epidemia que vinha dizimando centenas de nativos (estima-se que foram cerca de 800 mortos), esses colonos espalhavam a notícia de  que teria sido o almirante quem trouxe de forma proposital esta doença que os assolava gravemente. A influência dos truchments sobre os indígenas prejudicou bastante a relação franco-tupinambá, que até aquele momento vinha sendo amistosa. Somente alguns meses depois, passada a epidemia e com muito esforço dos franceses, essa associação voltou gradualmente a melhorar.

(Daniel Freitas, graduando no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ-CNE/2018-2021)

Conjuntura e contexto

Estabelecimento de uma colônia francesa na região da Guanabara. Empreendimento liderado por Nicolau Durand Villegagnon.

Números da Revolta

10 dias de duração, aproximadamente entre 26 e 30 participantes.

Outras designações

Revolta dos Truchements

Tipologia

Grupos Sociais

A revolta foi interrompida pelas seguintes razões

Grupos sociais

Autoridades

Lideranças

Ações de protesto não-violentas

  • Deserção

Ações de protesto violentas

  • Não informadas

Repressão

Contenção

  • Prisões

Punição

  • Enforcamento
  • Execução

Instâncias Administrativas

  • Não informado

Bibliografia Básica

DORIA, Pedro. 1565 – Enquanto o Brasil nascia: a aventura de portugueses, franceses, índios e negros na fundação do país. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012, p. 56-59.

HOLANDA, Sérgio Buarque. História Geral da Civilização Brasileira. Vol 1. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007, p. 169.

SILVA, Rafael Freitas. O Rio antes do Rio. Rio de Janeiro: Babilônia Cultural Editora, 2015, p. 360-365.

Fontes impressas

LISBOA, Balthazar da Silva. Annaes do Rio de Janeiro: contendo a descoberta e conquista deste paiz, a fundação da cidade com a historia civil e ecclesiastica, até a chegada d’El Rey D. João VI; além de noticias topographicas, zoologicas, e botanicas. Tomo I. Rio de Janeiro: Na Typ. Imp. e Const. de Seignot-Plancher e Ca. 1834, p. 55-56.

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