D. L. Chapelin, José Ignacio de Abreu e Lima, Coleção Francisco Rodrigues, FR-02665, Fundação Joaquim Nabuco, s/d
José Inácio de Abreu e Lima nasceu no Recife, em 6 de abril de 1794. Era filho de José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, popularmente conhecido em Pernambuco como Padre Roma. Segundo Pereira da Costa, Abreu e Lima foi um dos filhos do Padre Roma que tiveram problemas em relação à legitimidade paterna por supostamente terem nascidos quando o pai ainda estava no exercício eclesiástico, querela contornada apenas com o reconhecimento papal da secularização do Padre Roma naquelas últimas décadas do século XVIII.
Iniciou sua formação intelectual em Olinda, onde estudou Humanidades. Em 1807 ingressou na carreira militar em Pernambuco, como cadete. Transferiu-se para o Rio de Janeiro onde, matriculado na Academia Real Militar criada por João VI, ascendeu ao grau de capitão de artilharia em 1815. Sua aptidão às ciências lhe garantiu títulos científicos, e, na condição de lente de matemática, fez parte de uma comissão voltada à instrução de oficiais militares em Angola.
Regressou para Pernambuco e, acusado de desordem, foi preso a mando do então Ouvidor de Olinda, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, e remetido à Bahia. Por determinação do governador da capitania, Conde dos Arcos, Abreu e Lima ficou recolhido na fortaleza de São Pedro na capital baiana.
Na prisão, recebeu as primeiras notícias sobre a revolução que eclodiu no Recife, em 1817. O seu pai foi o emissário enviado pelo governo revolucionário para ganhar a adesão dos territórios ao sul de Pernambuco. Se o Padre Roma logrou sucesso em Alagoas, na Bahia foi descoberto e capturado pelas autoridades baianas ainda em alto-mar, sendo preso, na companhia de um ajudante e de Luiz, outro de seus filhos, na jangada que deveria ter ancorado em Salvador. Na capital baiana, o Padre Roma tinha por missão conquistar a adesão do oficialato militar daquela capitania à república proclamada no Recife. Em julgamento sumário conduzido por uma comissão militar instalada às pressas pelo Conde dos Arcos, o Padre Roma foi condenado à morte. Antes da execução, foi-lhe permitido ver Abreu e Lima, que presenciou o arcabuzamento de seu pai, primeiro mártir daquela revolução.
Com o apoio de simpatizantes da revolução derrotada no Recife, Abreu e Lima e Luiz conseguiram fugir da cadeia baiana. Em 1818 Abreu e Lima chegou nos Estados Unidos, encontrando-se com Cruz Cabugá, representante dos revolucionários na América do Norte. Da Filadélfia, Abreu e Lima escreveu uma carta no início de 1819 para Simón Bolívar, voluntariando-se para o Exército Libertador. Chegou à Venezuela meses depois, imediatamente destacado para a campanha militar contra os espanhóis nas guerras pela independência. Dedicou mais de dez anos da sua vida à revolução e à construção da então Grã-Colômbia, Estado que reunia os atuais territórios da Venezuela, da Colômbia, do Equador e do Panamá.
Sua adesão à causa revolucionária e americana foi reconhecida pelas lideranças do Exército Libertador e da República da Colômbia. Abreu e Lima participou das batalhas de Boyacá, de Carabobo e de Puerto Cabello, que lhe valeram a condecoração de Libertador da Venezuela. Participou de comissões militares em todo o continente americano, atuando no Peru, nos Estados Unidos e em Curaçao em prol do Estado colombiano. Sua atuação se deu também por meio das letras, escrevendo artigos em uma série de cidades do país nos mais diferentes impressos periódicos, como o jornal oficial Correo del Orinoco.
Pelo engajamento revolucionário, Abreu e Lima foi íntimo de militares como José Antonio Páez, Francisco de Paula Santander, Mariano Montilla, Antonio José de Sucre e do próprio Bolívar, dentre outros nomes hoje reconhecidos como heróis da independência da América do Sul. No início de 1824, Bolívar e o Exército Libertador conseguiram pôr fim à presença militar espanhola na América continental. Em 1825, Abreu e Lima foi enviado em missão oficial aos Estados Unidos para comprar armas ao Exército colombiano e na América do Norte recebeu refugiados da Confederação do Equador (1824), vítimas da repressão violenta de Pedro I. No país, acolheu e apoiou exilados como Emiliano Mundrucu e Natividade Saldanha.
No fim da década de 1820, Abreu e Lima escreve o Resumen, livro de história encomendado por Bolívar para ser enviado ao Abade de Pradt, que estava em uma polêmica contra o filósofo Benjamin Constant, que havia acusado Bolívar de tirano. Em 1831, esteve entre os militares fiéis a Bolívar derrotados na guerra civil que convulsionou e dividiu a Colômbia. Nos seus últimos dias no país, Abreu e Lima ganhou o grau de general e, junto a outros oficiais estrangeiros que haviam servido sob o comando de Bolívar, foi expulso da Colômbia.
Ainda em 1831, Abreu e Lima voltou para os Estados Unidos, onde soube da abdicação de Pedro I. No Brasil, o imperador enfrentava uma crescente oposição de setores populares e do Exército, acabando por abdicar do trono em favor do seu filho no dia 7 de Abril de 1831. Em 1832, após uma breve estadia na França, onde conheceu Pedro I, Abreu e Lima voltou ao Brasil fixando residência no Rio de Janeiro. Na então capital brasileira, manteve ligações estreitas com os restauradores (ou caramurus) e passou a apoiar o retorno do imperador ao trono do país. Em Pernambuco, a Guerra dos Cabanos, um movimento de caráter heterogêneo que abraçou a causa restauracionista, estava no seu começo. A troca de correspondência entre Abreu e Lima e seus irmãos no Recife apontou sinais de conspiração e de apoio material aos cabanos. As autoridades provinciais agiram rápido, prendendo João Roma, outro irmão de Abreu e Lima em Pernambuco. O sonho do movimento restaurador chegou ao fim quando Pedro I faleceu em Queluz, Portugal, em 1834.
A estadia de Abreu e Lima no Rio de Janeiro foi temperada por desentendimentos políticos. Em 1833, teve discussões virulentas pela imprensa da cidade com Evaristo da Veiga e Bernardo Pereira de Vasconcelos. Em 1835, publicou o Bosquejo histórico, político e literário do Brasil, obra em que argumentou sobre a incompatibilidade das instituições republicanas no país. Em 1836, teve um atrito com o regente Diogo Feijó. Participou ativamente da campanha pela antecipação da maioridade, colaborando com artigos na imprensa fluminense, defendendo que a Regência fosse entregue à princesa Januária, irmã de Pedro II, por exemplo.
Na década de 1840, a província de Pernambuco passou por um processo de mudança política, iniciado com uma divergência dentro do Partido Liberal que levou à sua cisão e à criação de uma nova agremiação na província, o Partido Nacional de Pernambuco, também conhecido como Partido da Praia. Uma das lideranças responsável pela criação e impressão do seu jornal desde 1842, o Diário Novo, foi o irmão de Abreu e Lima, Luiz Roma. Em 1844, após desavenças políticas e historiográficas no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Abreu e Lima retornou a Pernambuco para se candidatar a uma vaga de deputado geral. Não foi eleito naquele ano de 1844, mas colaborou com a imprensa dos liberais pernambucanos em outros momentos daquela década, como quando publicou seu pasquim A Barca de São Pedro em 1848.
Neste ano, teve início a insurreição Praieira, com os irmãos Roma engajando-se, cada um ao seu modo, no conflito. Abreu e Lima, por exemplo, evitou participar dos combates, colaborando com a causa praieira pelos jornais e pela Imperial, sociedade política que havia fundado. À frente do Diário Novo, defendeu as bandeiras da insurreição, como reformas políticas profundas na Constituição de 1824, e criticou o governo de Vieira Tosta e de Herculano Ferreira Pena. Com o fim da guerra civil em 1848, com a morte de Luiz Roma de câncer no fim deste ano e de João Roma em combate no início de 1849, Abreu e Lima foi preso, processado pelo crime de rebelião e enviado para cumprir a pena de prisão perpétua em Fernando de Noronha, no final de 1849. Seria anistiado em 1851, voltando para o Recife.
Abreu e Lima foi autor de dois livros de história do Brasil: o Compêndio da História do Brasil (1843) e Sinopses ou Dedução Cronológica (1846). Na década de 1850 publicou seu livro mais ousado, O Socialismo, obra mista de história universal e filosofia da história. Desde que retornou ao Brasil, em 1832, foi reconhecido e admirado como redator e historiador.
Na segunda metade da década de 1860, manteve uma fervorosa discussão pela imprensa com o padre Joaquim Pinto de Campos. Abreu e Lima era um defensor ferrenho da liberdade de culto no país, e por isso se engajou na causa de missionários protestantes, atacados em suas crenças por Pinto de Campos. O embate repercutiu na imprensa de todo o Brasil. Por causa disso, Abreu e Lima teve o seu enterro negado em cemitério católico, motivo de escândalo à época. Após a sua morte, em 8 de março de 1869, seu corpo encontrou jazigo apenas no Cemitério dos Ingleses, no Recife.
(Bruno Augusto Dornelas Câmara, professor Adjunto da UPE – Campus Garanhuns)
Paulo Montini de Assis Souza Júnior, doutor em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFPE.)
Bibliografia
CHACON, Vamireh. Abreu e Lima: General de Bolívar. Recife: CEPE, 2007.
SOUZA JÚNIOR, Paulo Montini de Assis. Fazer-se historiador no Brasil Imperial: Abreu e Lima, 1843/46. Tese de Doutorado (História). Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2026.
- General Abreu e Lima
Sem Nome, "José Inácio de Abreu e Lima". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/pessoa/jose-inacio-de-abreu-e-lima/. Publicado em: 27 de agosto de 2026.