Revoltas

Revolta indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José

Capitania Real do Rio de Janeiro (1567 – 1821)

Início / fim

17 de abril de 1754 / maio de 1754

Detalhe do plano urbano da Missão de São João Batista. Fonte: Bibliothèque Nationale de France, 1756.

Em abril de 1554, os dois exércitos ibéricos haviam acabado de começar suas marchas para guerra, visando uma união no passo do Jacuí, de onde iniciariam o ataque em conjunto. Do outro lado, os guaranis ainda tentavam expandir suas fronteiras para criar maior separação dos portugueses ocupando o Forte Jesus, Maria e José, atacado pelos mesmos no mês anterior. Dessa vez, as tropas indígenas contavam com 900 soldados, comandados pelo alferes-mor de São Miguel, Alexando Mbaruari, todavia, os portugueses também haviam reforçado o ponto estratégico. Somando isso aos desacordos internos entre as lideranças guaranis e a ausência do elemento surpresa, outro fracasso guarani ocorreu  na madrugada do dia 29 de abril, mas diferentemente do anterior, este se prolongou além do campo de batalha.

Durante o mês de abril de 1754 o alferes-mor de São Miguel, Alexandro Mbaruari marchou recrutando tropas para tentar um segundo ataque ao Forte Jesus, Maria e José, reunindo, no dia 17 de abril, 400 homens sob seu comando dos aldeamentos de São Miguel, São Luiz e São Lourenço. Os soldados de São João haviam combinado de se unirem à tropa no início do mês, mas atrasaram sua marcha. Os miguelistas não estavam dispostos a esperar e seguiram em frente. Durante o percurso, cerca de 500 outros indígenas uniram-se à marcha.

Ao chegarem nas cercanias do forte, puderam observar que os lusitanos também haviam se fortalecido. Gomes Freire, governador do Rio de Janeiro, havia enviado 250 homens da Companhia dos Dragões, liderados por Thomaz Osório, que por sua vez ampliou o forte e o acampamento militar, aumentando sua capacidade defensiva. 

Enquanto parte dos guaranis construíram uma ponte flutuante para atravessar o rio Pardo e chegar ao forte, Mbaruari foi pelo outro lado e, em 28 de abril, enviou seus batedores para estudar o inimigo. Os batedores, todavia, atacaram alguns ranchos e alertaram os moradores, que fugiram para o interior da fortificação. O alferes preferiu surpreender e atacar durante a madrugada, mas o mesmo só conseguiu iniciar o ataque na manhã do dia seguinte, no dia 29.

 A ausência de um elemento surpresa, a presença de tropas sem disciplina e a  pouca experiência militar explicam por que a empreitada foi um fracasso. Parte da milícia nem chegou a cruzar o Rio Pardo, mas Mbaruari colocou-se na vanguarda, para inspirar suas tropas, mas, durante a peleja, escravizados atravessaram a muralha do forte e o empalaram num golpe de lança. O líder foi morto, enquanto a artilharia lusitana atirava nos guerreiros guranis do alto dos muros, disparando cerca de mil tiros. Muitos começaram a bater em retirada depois de duas horas e meia de cerco à fortaleza, no entanto, por haver pelo menos três colunas ofensivas, os capitães guaranis tinham certa autonomia sobre seus homens e puderam seguir seus próprios planos.

Um deles foi Sepé Tiaraju, que roubou setenta cavalos dos pastos do forte e atravessou o Rio Pardo com eles, enquanto a invasão ocorria. O Tenente-Coronel dos Dragões, Thomaz Osório, preocupado com o prejuízo, enviou um emissário que avisou Sepé e seus 54 homens sobre a vontade de negociar uma trégua até a chegada de Gomes Freire, mas exigia a devolução dos cavalos. Uma vez dentro do forte e reunido com Thomaz Osório, o guarani concordou e disse que iria falar com os caciques a quem entregara os animais, deixando seus homens como garantia. Os lusitanos concordaram, desde que o suboficial Francisco Pinto Bandeira e outros 4 soldados o acompanhassem, mas, no meio do caminho, Sepé saltou de seu cavalo, entrou no mato e escapou pelo Rio Pardo sob uma chuva de tiros. Os 53 indígenas foram presos no forte.

Na versão de Lia Quarleri, os portugueses emboscaram Sepé e seus homens depois de convidá-los para negociar. Segundo a autora, sua esperança era usar o capitão para interceder em seu favor com povo de São Luiz, que tinha os cavalos. (2009, p.254-255)

Em relatos contados a Gomes Freire, o plano inicial do capitão guarani era de iniciar um motim no forte para que sua ocupação fosse facilitada “por dentro”, mas este malogrou. Então, após sua fuga, Sepé procurou individualmente os caciques, com quem estavam os cavalos, tentando argumentar pela troca dos cavalos por seus companheiros, mas a maioria dos caciques preferiu manter os cavalos. 

O tenente-coronel esperou cerca de 3 semanas por uma volta de Sepé, mas este, diante do fracasso, já havia retornado para São Miguel. Frustrados, os portugueses mandaram os 53 indígenas para Vila de Rio Grande num barco e, no meio da viagem pela Lagoa dos Patos, os prisioneiros se amotinaram, mas foram violentamente reprimidos, sendo cerca de 38 dos rebeldes assassinados. 

Os sobreviventes, ao chegarem em Rio Grande, foram eventualmente colocados sob o julgamento de Gomes Freire, que para a surpresa de alguns, permitiu que os guaranis retornassem para a casa. A decisão do governador não foi um ato de piedade, mas interesse, esperando que os libertos espalhassem aos seus semelhantes sobre a benevolência portuguesa, pois era do interesse da Coroa coadunar novos aliados para ocupar os desocupados territórios do sul.

A derrota da segunda empreitada militar ao forte lusitano certamente prejudicou os guaranis no planejamento de guerra, mas pelo menos, ergueria-se ali o verdadeiro líder da rebelião. Sepé Tiaraju e os miguelistas seriam grandes protagonistas nas estratégias de defesas e liderança muito necessária aos povos das missões, pois a cada sol que se punha no horizonte, mais perto chegavam as tropas de Gomes Freire e José de Andonaegui (governador de Buenos Aires).

A região em que ocorreu esta guerra, embora distante geograficamente do centro da Capitania do Rio de Janeiro, esteve sob jurisdição do governador da capitania do Rio desde 1738 até 19 de setembro de 1807 quando passou a ser uma capitania subalterna ao comando da Capitania do Rio Grande de São Pedro. 

Este foi um dos episódios de conflitos que, junto a outros, constituem as Guerras Guaraníticas. Você pode acessar os demais verbetes abaixo:

Resistência indígena à conquista estrangeira nos Sete Povos das Missões

Revolta contra a comissão de demarcação de terras dos Sete Povos das Missões 

Levante indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José

 Resistência guarani e a luta pela desocupação de suas terras

 Resistência indígena nos campos de Caiboaté

(Eduardo Chu, graduando no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ -CNE/2018-2021)

Antecedentes

Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madrid, para resolver as disputas territoriais nas colônias, demarcando territórios espanhóis e portugueses na América. Porém, mesmo com a ordem régia, os indígenas aldeados, não permitiram que a demarcação territorial ocorresse. 

Conjuntura e contexto

Aldeamentos jesuítas declararam guerra às coroas ibéricas, e os enfrentamentos seguiram de 1753 até 1757, evidenciando mais do que uma simples desobediência ao Tratado de Madrid. A aliança de interesses por anos cultivada entre índios e espanhóis, com a ajuda dos jesuítas, chegou ao fim.

Grupos sociais

Autoridades

Lideranças

Ações de protesto não-violentas

  • Fuga
  • Reunião com autoridades para negociar
  • Roubo de animais

Ações de protesto violentas

  • Agressão de Autoridade
  • Batalhas e combates
  • Flechas Disparadas
  • Invasão a forte
  • Mobilização de escravos armados
  • Morte de inimigos
  • Saques a casas e armazéns
  • Sequestro de bens
  • Tiros

Repressão

Contenção

  • Envio de autoridade
  • Expedição armada ou repressão militar
  • Negociações e acordos de paz

Instâncias Administrativas

  • Governador da Capitania

Bibliografia Básica

GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2014.

GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. Como os exércitos de Portugal e Espanha destruíram os Sete Povos dos jesuítas e índios guaranis no Rio Grande do Sul (1750- 1761). Porto Alegre: Editora da Universidade, 1999.

QUARLERI, Lia. Rebelión y Guerra En Las Fronteras del Plata: guaranfes, jesuitas e imperios coloniales. 1ª. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2009. 381 p.

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Como Citar

Sem Nome, "Revolta indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/revolta-indigena-com-ataque-ao-forte-jesus-maria-jose/. Publicado em: 02 de fevereiro de 2026.