BEATTIE, Peter M. Tributo de sangue: exército, honra, raça e nação no Brasil, 1864-1945. Campinas: Ed. da Unicamp, 2009.
01 de agosto de 1875 / 17 de agosto de 1875
Em 1875, na Vila de Camamu, na província da Bahia, dezenas de homens protagonizaram uma revolta, cuja principal reivindicação era o fim do recrutamento, atacando a Comissão de Alistamentos e rasgando as listas de recrutados.
A Lei nº 2556, de 26 de setembro de 1874, instituiu o alistamento militar e o sorteio obrigatório para homens livres e libertos entre 19 e 30 anos. Essa lei estabeleceu as juntas de alistamento, compostas por um juiz de paz, um pároco e um subdelegado, instalados nas igrejas matrizes de cada localidade. A legislação reduziu significativamente as dispensas, incluindo a eliminação da tradicional dispensa para homens casados. Já no Decreto nº 5881, em 27 de fevereiro de 1875, as condições e o modo de recrutamento para o Exército e a Armada foram definidos, permitindo a implementação da nova legislação. A nova lei rompeu com as expectativas tradicionais, gerando inquietações políticas nas vilas do Império (Beattie, 2009).
Localizada ao redor da extensa baía que leva o seu nome, a região da vila de Camamu era entrecortada por rios, afluentes e extensas áreas de manguezal. Sua população se distribuía de forma dispersa às margens da baía e na mata próxima. A área oferecia esconderijos naturais tanto para escravizados em fuga quanto para pessoas livres e libertas que buscavam escapar da caçada humana, essa que, nesse contexto, tinha como objetivo o recrutamento militar.
A região desempenhou um papel importante como zona de abastecimento da região de Salvador e do Recôncavo, especialmente na produção de farinha. Esse dinamismo contribuiu tanto para a consolidação de um mercado regional de subsistência, quanto para uma produção complementar à grande lavoura (Dias, 2009).
Em 1º de agosto de 1875, tiveram início as atividades da junta de alistamento instalada na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, mas Lupércio Cardozo Chaves e Manoel José Lino da Trindade, acusados como líderes do movimento, incitaram a população a atacar a junta paroquial. No dia 9 de agosto, mais de 100 homens, da vila e das beiradas, invadiram a Igreja, despedaçaram as listas referentes ao recrutamento e agrediram o subdelegado Manoel de Souza Viana. Esse movimento ficou conhecido como “rasga-listas”.
No dia 15 de agosto, a revolta já reunia cerca de 800 participantes. Diante disso, a presidência da província da Bahia decidiu enviar um navio de guerra da Armada Nacional. No dia 17 de agosto, aportou na vila o navio de guerra Magé, trazendo uma tropa de linha composta por 100 homens, sob o comando do Capitão Tamarindo. Com a chegada das forças militares, a ordem foi restabelecida em Camamu, resultando na prisão de aproximadamente 77 homens, acusados de sedição com base no artigo 111 do Código Penal do Império do Brasil. Entre os participantes, os agricultores constituíam a maioria, representando cerca de 67% dos envolvidos.
Os acusados foram presos e levados a julgamento em maio de 1876, ocasião em que todos foram absolvidos e postos em liberdade. A Lei do Sorteio, por sua vez, tornou-se letra morta poucos anos depois, uma vez que não obteve êxito em sua aplicação nas províncias.
(Kátia Andrade Santos, professora na rede de educação básica no município de Salvador na Bahia, Mestra em História Social (UFBA))
Reforma do recrutamento militar e promulgação da Lei nº 2.556, de 1874: a chamada Lei do Sorteio, que transformou significativamente as práticas de recrutamento e provocou intensas reações e revoltas populares contra o serviço militar.
Na década de 1860 ocorreu o maior conflito armado da América do Sul, a Guerra do Paraguai, e a Bahia destacou-se como uma das províncias que mais enviou soldados ao front. A partir de 1866, intensificaram-se os debates em torno do recrutamento militar, que culminaram na chamada Lei do Sorteio. Após diversos projetos e discussões, foi finalmente aprovada, em 1874, a Lei nº 2.556, que estabelecia a obrigatoriedade de todo homem livre ou liberto, entre 19 e 30 anos, estar à disposição do Exército. Essa medida transformou profundamente as práticas de recrutamento vigentes até então, marcando uma mudança significativa na relação entre Estado, sociedade e serviço militar. Em todo o Império, ocorreram distúrbios contra o recrutamento de 1875. Exemplos podem ser observados no Rio Grande do Norte, no município de Goianinha (Freire Martins, 2024), no nordeste da província de São Paulo, na cidade de França (Santos, 2019), e também no Ceará (Cândido, 2008). Cada um desses movimentos possuía suas especificidades, mas todos partilhavam de um mesmo sentimento de resistência ao recrutamento, que inevitavelmente atingia e desestabilizava os núcleos familiares.
17 dias de duração
800 participantes
77 condenados
0 executados
BEATTIE, Peter M. Tributo de sangue: exército, honra, raça e nação no Brasil, 1864-1945. Campinas: Ed. da Unicamp, 2009.
COSTA, Alex Andrade. Tramas e contendas: escravos, forros e livres constituindo economias e forjando liberdades na baía de Camamu, 1800-1850. 2016. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2016.
KRAAY, Hendrik. Repensando o recrutamento militar no Brasil imperial. Diálogos (Maringá), v. 3, n. 1, 1998. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Dialogos/article/view/37540. Acesso em: 12 ago. 2025.
CÂNDIDO, Tyrone Apollo Pontes. Rasga Listas no Ceará: aspectos de uma sedição sertaneja. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2008.
DIAS, Marcelo Henrique. A “farinha de pau” da capitania de Ilhéus: produção estratégica e circulação vigiada, séculos XVII-XVIII. História Econômica & História de Empresas. São Paulo, v. 12, n. 2, 2009.
SANTOS, Vinícius T. V. C. A lei nº 2.556 e a subversão do recrutamento militar no nordeste da província de São Paulo (1875-1889). 2019. 160 f. Dissertação (Mestrado em História e Cultura Política) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista, Franca, 2019.
MARTINS, Gustavo Ítalo. Ecossistemas da escravidão: histórias de trabalhadores potiguares (São José de Mipibu, década de 1970). 2024. Dissertação (Mestrado) – Curso de Mestrado em História Social, Programa de Pós-Graduação em História Social.,, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2024.
MENDES, Fábio Faria. Recrutamento militar e a construção do Estado no Brasil imperial. Belo Horizonte: Argvmentum, 2010.
Sem Nome, "Revolta dos Rasga-listas". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/revolta-dos-rasga-listas/. Publicado em: 28 de agosto de 2025.