Revoltas

Resistência indígena à conquista estrangeira nos Sete Povos das Missões

Capitania Real do Rio de Janeiro (1567 – 1821)

Início / fim

fevereiro de 1753 / fevereiro de 1753

Detalhe da fronteira no Mapa das Cortes, de 1749, adotado como ilustrativo do Tratado de Madri, de 1750. (Linha vermelha). Brasília: Centro de Documentação do Exército.

As tensões nos Sete Povos das Missões (São Francisco de Borja, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo Custódio), no atual estado do Rio Grande do Sul, cresciam desde os rumores da assinatura do Tratado de Madrid em 1750. Isto significaria que o rei espanhol estaria negociando suas terras aos inimigos portugueses em troca do forte em Sacramento, atual Uruguai. 

Os Sete Povos das Missões foram assentamentos indígenas administrados por jesuítas no início da colonização. Sua função era pacificar os nativos através da conversão à fé católica, enquanto exploravam sua mão de obra na criação de gado e proteção das fronteiras espanholas. As reduções citadas eram apenas sete, localizadas a leste do Rio Uruguai, mas faziam parte de um conjunto de 30 aldeamentos. Os conflitos e resistências resultantes dessa tensão entre parte dos guaranis aldeados e as coroas ibéricas, fazem parte do que hoje conhecemos como Guerra Guaranítica.

O Tratado de Madrid determinava a troca de territórios entre Portugal e Espanha, mas nele não estavam incluídas suas populações, afinal os guaranis aldeados eram vassalos do rei espanhol e desempenhavam uma função de defesa vital na região do Prata, a proteção na fronteira com o território português. A Espanha não queria munir Portugal de 30.000 novos súditos, ou seja, seria necessário uma migração desses povos para novas terras ou uma junção de aldeamentos já existentes. E este não era o problema, migrações de aldeamentos guaranis haviam acontecido no passado, a questão foi o tempo reduzido de apenas um ano estipulado para isso e a indisponibilidade de boas terras para as novas aldeias.

Em fevereiro de 1753, os indígenas da tribo de etnia guarani dariam o primeiro sinal de resistência ao poder real e jesuítico, na forma da expulsão do Comissário Geral Lope Luis Altamirano, enviado pela Companhia de Jesus para coordenar a migração dos guaranis. Tudo que ele conseguiu organizar foi a própria fuga de cerca de 600 guaranis vindos de São Miguel que tentaram matá-lo.

A maioria dos aldeados ficou insatisfeito com a decisão. Seria essa a recompensa por defender as terras e atender a seus chamados de guerra? Nem todos demonstraram resistência no início, o pioneiro foi a missão de São Miguel (São Miguel das Missões) cujos corregedores foram destituídos por discordarem dos caciques e correrem risco de serem linchados pelos mesmos. Em seguida, as missões de São Nicolau, São Lourenço e São João começaram a resistir e, de maneira isolada, os guaranis insatisfeitos faziam de tudo para sabotar a migração. 

No meio desse caos e insatisfação, é que Lope Luis Altamirano chegou. O comissário especial vinha imbuído de poderes pela sede da Companhia de Jesus em Roma e carregava um extenso currículo de cargos nas Cortes espanholas. Desde o dia 20 de fevereiro 1752, o padre estivera em Buenos Aires tentando coordenar a migração. Ele acreditava que as resistências guaranis eram fruto de outros jesuítas manipulando os nativos, pois estes não seriam capazes de articularem-se sozinhos. É verdade que muitos padres de fato apoiaram a revolta indígena e alguns deles até lutaram durante a guerra, mas estavam longe de serem líderes ou titereiros das ações tomadas pelos guaranis.

Os Jesuítas encontravam-se em declínio, tendo feito muitos inimigos ao longo de sua história na América, acumulando a fama de causadores de problemas e de agirem como um poder paralelo dentro das colônias, numa época de centralização do poder real. Por isso, a administração central fez de tudo para agradar as monarquias, mas seus agentes de campo não concordavam. 

Em julho de 1752, Altamirano mudou-se para o aldeamento de São Tomé e durante sua estadia demonstrou-se intransigente e confrontador, ameaçando os que não o obedecessem com a retirada dos padres da aldeia e até castigos físicos. A intimidação do Comissário Geral não deu certo principalmente por causa dos rumores espalhados que os Jesuítas haviam vendido as terras das missões para Portugal e Altamirano teria sido o intermediário dessa negociação. Além disso, diziam que o próprio seria um lusitano disfarçado. Durante o mês de fevereiro de 1753, o comissário especial recebeu a notícia de um dos padres miguelistas que seiscentos homens armados vinham de São Miguel para matá-lo e jogar seu corpo no rio. Temendo por sua vida, Altamirano fugiu para Buenos Aires. 

A região em que ocorreu esta guerra, embora distante geograficamente do centro da Capitania do Rio de Janeiro, esteve sob jurisdição do governador da capitania do Rio desde 1699 (Carta Régia de 9 de novembro) até 19 de setembro de 1807 com elevação à Capitania do Rio Grande de São Pedro.

Este foi um dos episódios de conflitos que, junto a outros, constituem as Guerras Guaraníticas. Você pode acessar os demais verbetes abaixo:

Revolta contra a comissão de demarcação de terras dos Sete Povos das Missões 

Levante indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José

Revolta indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José

Resistência guarani e a luta pela desocupação de suas terras

Resistência indígena nos campos de Caiboaté

(Eduardo Chu, graduado no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ -CNE/2018-2021)

Antecedentes

Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madrid, para resolver as disputas territoriais nas colônias, demarcando territórios espanhóis e portugueses na América. Porém, mesmo com a ordem régia, os indígenas aldeados, não permitiram que a demarcação territorial ocorresse. 

Conjuntura e contexto

Aldeamentos jesuítas declararam guerra às coroas ibéricas, e os enfrentamentos seguiram de 1753 até 1757, evidenciando mais do que uma simples desobediência ao Tratado de Madrid. A aliança de interesses por anos cultivada entre índios e espanhóis, com a ajuda dos jesuítas, chegou ao fim.

Grupos sociais

Autoridades

Lideranças

Ações de protesto não-violentas

  • Desobediência

Ações de protesto violentas

  • Emboscada
  • Incêndios
  • Mobilização de forças militares
  • Queima de plantações

Repressão

Contenção

  • Expedição armada ou repressão militar

Instâncias Administrativas

  • Governador Geral

Bibliografia Básica

GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. Como os exércitos de Portugal e Espanha destruíram os Sete Povos dos jesuítas e índios guaranis no Rio Grande do Sul (1750- 1761). Porto Alegre: Editora da Universidade, 1999.

GARCÍA, Elisa Frühauf. De inimigos a aliados: como parte dos missioneiros repensou o seu passado de conflictos com os portugueses no contexto das tentativas de demarcação do Tratado de Madri. Lisboa: Anais de História de Alem-Mar, v. 8, 2007.

GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2014.

QUARLERI, Lia. Rebelión y Guerra En Las Fronteras del Plata: guaranfes, jesuitas e imperios coloniales. 1ª. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2009. 381 p.

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Como Citar

Sem Nome, "Resistência indígena à conquista estrangeira nos Sete Povos das Missões". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/resistencia-indigena-a-conquista-estrangeira-nos-sete-povos-das-missoes/. Publicado em: 02 de fevereiro de 2026.