GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2014.
01 de fevereiro de 1756 / 07 de fevereiro de 1756
No dia 7 de fevereiro de 1756, a resistência dos guaranis levou seu golpe mais grave com a morte de seu grande líder, Sepé Tiaraju, durante uma fuga das tropas espanholas. Seu cavalo tropeçou num buraco e o alferes-mor imobilizado ficou à mercê de José Joaquim de Viana, que o torturou às margens do Riacho de Vacacaí e o assassinou com um tiro de pistola. Sua cabeça foi separada do corpo e enterrada em algum local da selva vizinha, enquanto seu corpo foi martirizado e deixado ao relento, sendo recolhido por seus partidários na mesma noite. A notícia foi devastadora e, sem a liderança de Sepé, as divergências entre os rebeldes voltariam a aparecer, encaminhando-nos para a fase final das guerras guaraníticas.
Até o momento os guaranis haviam conseguido manter uma temporária “vitória” sobre as Coroas ibéricas, mesmo não tendo vencido qualquer batalha militar significativa. Afinal, quase três anos já haviam se passado desde a declaração de guerra e nenhuma das nações européias havia chegado perto de completar seus objetivos.
A marcha de 1754 fracassou, as tropas espanholas foram derrotadas pelo inverno, chuvas, inundações e até pelo capim, que envenenou seus cavalos. No dia 3 de outubro, apesar de terem capturado um proeminente cacique chamado Rafael Paracatu, após um combate às margens do rio Daymán, um conselho militar decidiu pelo recuo das tropas. Isso impediu o encontro no Passo do Jacuí com os homens do governador do Rio de Janeiro (Gomes Freire), que esperavam seus aliados.
Enquanto o exército português aguardava ordens, teve grande quantidade e variedade de interações com os guaranis, que também haviam se instalado na região para frear o avanço lusitano. No dia 12 de novembro o alferes Antônio Pinto Carneiro chegou ao acampamento com a notícia de que o primeiro plano de ataque havia sido cancelado e que Gomes Freire precisaria recuar. Antes de retornar, o governador do Rio de Janeiro assinou, no dia 18 de novembro, uma trégua unilateral com os caciques e cabildos, estendendo sua fronteira até o Rio Ibicuí. As aldeias envolvidas foram São Miguel, São Luiz, Santo Ângelo e São Lourenço. O pacto estabelecia uma vassalagem aos portugueses, que não deveriam entrar no território das missões sem uma ordem real. Evidentemente, Gomes Freire pretendia desde o início quebrar o pacto.
O ano de 1755 foi um ano de preparação, os ibéricos retornaram para Sacramento e Buenos Aires para se reorganizar. Os líderes militares se reuniram mais uma vez para ratificarem o “Acordo da Ilha San Martin”, que estabelecia a divisão igualitária do saque. Os exércitos ibéricos partiram de seus respectivos assentamentos em dezembro. O lado guarani enfrentou uma epidemia de varíola devido ao contato com as tropas européias e viu a ascensão de Sepé Tiaraju como alferes-mor de São Miguel (previamente ocupado pelo falecido Alexandro Mbaruari) e principal figura da rebelião.
Assim que o guarani soube da marcha dos exércitos portugueses, reuniu seus homens, chamou seus aliados e partiu rumo ao reduto de Santa Tecla. A tática adotada seria a de guerrilha e terra arrasada, destruindo o máximo de suas aldeias possível, queimando a comida que não pudessem levar, escondendo os rebanhos de gado e emboscando pequenos grupos de soldados. O objetivo era cansar o inimigo e tirar proveito dos conhecimentos da região, evitando o confronto direto onde tinham desvantagens materiais e numéricas.
No dia 1° de fevereiro de 1754, enquanto as tropas ibéricas acampavam unidas nas margens do Rio Yaguary, um emissário de Sepé foi ter com o governador de Buenos Aires, oferecendo-se para guiá-los pela região. José de Andonaegui interrogou o guarani, que o informou que Sepé não poderia vê-lo hoje e que as queimadas eram obras dos “índios infiéis”. O espanhol não aceitou a resposta e, após exigir ao emissário que seu líder se rendesse, enviou um grupo de 12 blandengues para procurar o missioneiro nas redondezas, que não só estava por ali, mas também percebeu os militares que procuravam-no. Numa carga de cavalaria surpresa, os soldados de Sepé mataram todos. No dia 5 de fevereiro, aventureiros paulistas capturaram o líder Christoval Ovando e seu ajudante Ignacio Inabeyú. Ovando era uma das lideranças indígenas, sendo um dos signatários do Pacto de Jacuí no ano passado.
As táticas de guerrilha acabaram ficando obsoletas, consistindo constantemente de gados avulsos como isca seguidos por rápidos ataques. Na tarde do dia 7 de fevereiro, logo depois de terem completado mais uma emboscada, os 70 missioneiros de Sepé Tiaraju perceberam cerca de 150 Dragões do Rio Grande e 300 soldados espanhóis cavalgando em sua direção, estes eram liderados por José Joaquim Viana. Sepé e seus homens recuaram em direção a um esconderijo próximo e, segundo Lia Quarleri (2009), o alferes-mor teria demorado para sair, ficando algum tempo atirando nos perseguidores.
Durante a fuga, o cavalo de Sepé prendeu uma das patas num buraco, tombando e, possivelmente, caindo sob seu cavaleiro, imobilizando-o. Os ibéricos fecharam a distância e rapidamente o laçaram, assim que reconheceram o líder da resistência, o governador de Montevidéu iniciou sua brutalidade. Sepé foi torturado com estocadas de lanças e queimaduras de pólvora, quando aproximava-se dos portões da morte, José Joaquim Viana arrancou a vida do líder guarani com um tiro de revólver, mas a violência não parou com o óbito, sua cabeça foi arrancada e enterrada numa mata distante.
O cadáver inerte de Sepé Tiaraju foi recuperado mais tarde pelos missioneiros, uma grande missa fúnebre foi realizada para o herói de São Miguel, juras de vingança foram proclamadas nesse dia, mas não ouviu-se liderança equivalente, enquanto dúvidas e divergências voltavam a aparecer. Nicolau Neenguiru acabou assumindo a liderança da rebelião enquanto boa parte da coesão se desmanchava.
A região em que ocorreu esta guerra, embora distante geograficamente do centro da Capitania do Rio de Janeiro, esteve sob jurisdição do governador da capitania do Rio desde 1699 (Carta Régia de 9 de novembro) até 19 de setembro de 1807 com a elevação Capitania do Rio Grande de São Pedro.
Este foi um dos episódios de conflitos que, junto a outros, constituem as Guerras Guaraníticas. Você pode acessar os demais verbetes abaixo:
Resistência indígena à conquista estrangeira nos Sete Povos das Missões
Revolta contra a comissão de demarcação de terras dos Sete Povos das Missões
Levante indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José
Revolta indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José
Resistência indígena nos campos de Caiboaté
(Eduardo Chu, graduado no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ -CNE/2018-2021)
Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madrid, para resolver as disputas territoriais nas colônias, demarcando territórios espanhóis e portugueses na América. Porém, mesmo com a ordem régia, os indígenas aldeados, não permitiram que a demarcação territorial ocorresse.
Aldeamentos jesuítas declararam guerra às coroas ibéricas, e os enfrentamentos seguiram de 1753 até 1757, evidenciando mais do que uma simples desobediência ao Tratado de Madrid. A aliança de interesses por anos cultivada entre índios e espanhóis, com a ajuda dos jesuítas, chegou ao fim.
370 participantes
GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2014.
GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. Como os exércitos de Portugal e Espanha destruíram os Sete Povos dos jesuítas e índios guaranis no Rio Grande do Sul (1750- 1761). Porto Alegre: Editora da Universidade, 1999.
GOLIN, Tau. A Província Jesuítica do Paraguai, a Guerra Guaranítica e a destruição do espaço jesuítico-missioneiro. Paraguay Bicentenário, Assunção, ed. 1°, 2011. p. 1-13.
GOLIN, Tau. “Cartografia da Guerra Guaranítica”. Simpósio Brasileiro de Cartofrafia Histórica, Paraty, ed. 1°, p. 1-15, Maio de 2011.
QUARLERI, Lia. Rebelión y Guerra En Las Fronteras del Plata: guaranfes, jesuitas e imperios coloniales. 1ª. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2009. 381 p.
Sem Nome, "Resistência guarani e a luta pela desocupação de suas terras". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/resistencia-guarani-e-a-luta-pela-desocupacao-de-suas-terras/. Publicado em: 02 de fevereiro de 2026.