Revoltas

Restauração da Paraíba

Capitania da Paraíba (1574 – 1822)

Início / fim

01 de setembro de 1645 / janeiro de 1647

Data aproximada
Mapa com pintura de Frans Post que retrata indígenas tupinambás carregando a bandeira holandesa e três grandes batalhas navais que simbolizam o domínio neerlandês no Nordeste açucareiro que antecedem a Restauração da Paraíba . “Praeefectura de Paraiba, et Rio Grande” (1647).Gravura em metal, 45 × 55 cm. Coleção Brasiliana Itaú.

No ano de 1630 a Companhia das Índias Ocidentais (West-Indische Compagnie – WIC) dos Países Baixos (popularmente conhecidos como Holanda), retornou ao Brasil após a invasão de Salvador ocorrida entre 1624-1625. Dessa vez, a WIC teve como alvo as vilas de Olinda e Recife, em Pernambuco. Após se apossar de ambas, ainda em 1630, os próximos alvos foram a ilha de Itamaracá, a foz do rio Paraíba e a cidade de Natal. Todos foram atacados em 1631, mas os holandeses perderam essas campanhas iniciais. 

Em 1634 a WIC retornou para novas campanhas na Paraíba, ocorridas em fevereiro e dezembro daquele ano, resultando numa ação vitoriosa. No  final do ano de 1634, a Capitania da Paraíba foi ocupada pelas tropas da WIC, passando para o controle da companhia, que manteve seu domínio regularmente até o ano de 1645. Nesse período, a colônia da Nova Holanda enfrentava uma crise política, administrativa e econômica, motivada pela corrupção e pela baixa produção dos engenhos. Esses problemas afetaram os lucros da empresa, ocasionando redução de verbas e tropas para a colônia holandesa. Além disso, as revoltas nas Capitanias do Ceará e do Maranhão, somadas à demissão do conde João Maurício de Nassau (governador entre 1637-1644), agravaram ainda mais a situação. Considerado o mais longevo dirigente do Brasil holandês, Nassau, cansado das frustrações, das cobranças da empresa e dos problemas na colônia, pediu demissão, piorando a crise já existente. 

Em meio a esse cenário turbulento, os luso-brasileiros decidiram iniciar por Pernambuco, no mês de maio de 1645, um levante que vinha sendo planejado já há algum tempo pelo rei D. João IV e o governador-geral do Brasil, Teles da Silva.Tal movimento ficou conhecido como Restauração Pernambucana ou Insurreição Pernambucana, mas também chamado de Guerra de Restauração (1645-1654). O levante inicial foi mobilizado pelas figuras do português João Fernandes Vieira, importante senhor de engenho em Pernambuco, e pelo mestre-de-campo paraibano André Vidal de Negreiros, enviado de Salvador com tropas e ordens do governador-geral. Unindo-se a eles estavam importantes lideranças militares do período como o potiguara Antônio Felipe Camarão e o ex-escravizado Henrique Dias

Após o início dos primeiros conflitos em Pernambuco, ainda no mês de maio, a notícia rapidamente foi se espalhando para as capitanias vizinhas, chegando à Paraíba. Pelo mês de junho de 1645, o então governador holandês Paulus de Linge expediu ordens para reforçar as defesas da capital Frederikstadt ou Frederica (atual João Pessoa), contra uma possível ameaça rebelde, incentivada pelas revoltas advindas de Pernambuco. Também foi ordenado a busca e apreensão de suspeitos e de armas, além de se despachar o capitão potiguara Pedro Poti para procurar possíveis rebeldes na várzea paraibana. 

Nas semanas seguintes de junho e julho não houve incidentes informados para além de alguns assaltos (ataques de surpresa) na zona rural. Porém, as notícias de vitórias obtidas em Pernambuco pelo mês de agosto, preocuparam o governador Linge, o qual temia que Frederikstadt pudesse ser sitiada pelos rebeldes. Naquele tempo a cidade era pequena, não contava com fortificações e nem muralhas para protegê-la, somente posições com trincheiras e alguns canhões. Linge escreveu uma carta pedindo reforços ao Alto Conselho da empresa informando dispor apenas de 550 homens para defender toda a Capitania da Paraíba. Mas como os reforços não foram enviados, ele decidiu mudar a sede do governo, até então instalada na Igreja de São Francisco na cidade, para o Forte Margareth (atual Fortaleza de Santa Catarina, em Cabedelo), cuja fortificação tinha passado por reformas anos antes, estando mais apta para uma guerra iminente. 

Em 1 de setembro de 1645 foi formada uma base rebelde próxima ao rio Tibiri (atualmente em Santa Rita, na Paraíba), em que os senhores Lopo Curado Garro, Jerônimo Cadena e Francisco Gomes Muniz tomaram a responsabilidade de liderar a insurreição em terras paraibanas, formando um triunvirato. No auxílio da pequena tropa que se formava veio, de Pernambuco, Antônio Curado Vidal, trazendo em torno de 200 homens.

Naquela ocasião foram nomeados capitães da força insurreta paraibana os senhores Antônio Curado Vidal (sobrinho de Vidal de Negreiros), Simão Soares, Cosme da Rocha, Francisco Leitão e o Capitão Conto, responsável por uma pequena tropa de indígenas a serviço de Felipe Camarão, que no momento ainda estava em Pernambuco. Depois foi enviado o capitão Henrique de Mendonça responsável por uma tropa de negros.

O primeiro conflito relatado adveio da Batalha de Inobim (11 de setembro de 1645), ocorrida próxima ao riacho Inobim (atual rio Obim em Santa Rita, ao norte da capital), em que os portugueses interceptaram a tropa de Pedro Poti composta de mais de 300 homens, que pretendia conquistar o Arraial de Santo André (a sede da força insurreta paraibana). A tropa paraibana comandada pelo capitão Francisco Gomez, defendeu o arraial, travando batalha numa campina, resultando em pelo menos 77 baixas para os holandeses, que saíram derrotados. 

Por volta de 15 de setembro, o secretário de câmara da Paraíba, o português, Fernão Rodrigues de Bulhões, foi enviado ao Forte Margareth para negociar os termos de rendição com o governador holandês Paulus de Linge, mas este se revoltou e mandou enforcar o Secretário. Após a morte deste e a vitória na Batalha de Inobim mais insurretos aderiram à causa nas semanas seguintes. Pelo mês de outubro, Felipe Camarão despachou cartas a Pedro Poti, tentando dissuadi-lo de permanecer aliado aos holandeses. Tais documentos ficaram conhecidos pelos tradutores como Cartas Tupis, um conjunto de seis cartas escritas em tupi, assinadas por Felipe Camarão, Diogo da Costa e Pedro Poti, em que esses indígenas potiguaras tentaram incentivar uns aos outros a trocar de lado na guerra. Contudo, as tentativas de negociação fracassaram. 

Posteriormente, em carta redigida a 14 de novembro, o governador Paulus de Linge relatou ao Alto Conselho da WIC no Recife uma batalha em que os insurretos paraibanos contavam com uma tropa de 800 homens, já os holandeses dispunham de 300 soldados e um número não determinado de indígenas. A batalha resultou em mais uma derrota para as forças holandesas. Após isso, houve alguns ataques a engenhos controlados pelos holandeses, depois as ações cessaram. 

Em janeiro de 1646 o conselheiro Peter Bas, um dos três que governavam a colônia da Nova Holanda, viajou para a Paraíba a fim de  expedir ordens diretas a Paulus de Linge, além de se informar  quanto à situação da insurreição. Desde novembro do ano anterior não houve mais batalhas, porém, foi relatado que os holandeses e os luso-brasileiros careciam de mantimentos para sustentar as tropas. 

Um novo conflito ocorreu em data incerta no mês de janeiro, quando Pedro Poti no comando de 150 indígenas atacou a Aldeia Miageriba, onde pelo menos 400 portugueses se refugiaram. Apesar de estar em menor número, a tropa de Poti saiu vitoriosa. Independente disso, os insurretos planejaram novo conflito, vindo este a ocorrer no mês de março de 1646 nas cercanias da capital, contando com a presença de Vidal de Negreiros e Felipe Camarão, vencendo as últimas forças holandesas que ainda resistiam pela cidade. De lá, a tropa insurreta marchou até a Igreja de Nossa Senhora da Guia (atualmente em Lucena), de onde planejou um ataque ao Forte de Santo Antônio, localizado a poucos quilômetros dali. 

A Batalha da Guia, ocorrida em data incerta de março de 1646, envolveu o  ataque  dos insurretos contra as guarnições dos Fortes de Santo Antônio e de Margareth. Frei Manuel Calado, na obra O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade, relatou que os holandeses enviaram 220 soldados, sendo 60 holandeses e o restante de indígenas. O resultado do conflito concedeu a vitória para os portugueses, deixando um saldo de 50 holandeses e 15 indígenas mortos, forçando-os a se retirar para os fortes. A tentativa de capturar o Forte de Santo Antônio não vingou. 

Após tal vitória, os cronistas portugueses e holandeses não relataram mais nenhum conflito pelo ano de 1646 na Paraíba. Vivia-se um impasse, em que nenhum dos lados conseguia derrotar seu adversário. 

Em janeiro de 1647 houve novo ataque para se tentar tomar o Arraial de Santo André, a base dos insurretos paraibanos, mas os holandeses saíram derrotados. Após isso, não se sabe de novos conflitos pela capitania paraibana, já que a WIC ofereceu anistia aos rebeldes na tentativa de levá-los a se render e delatar suas lideranças, porém, esses recusaram o acordo, mantendo-se armados. Ainda em 1647, Paulus de Linge deixou o cargo de governador, voltando para Recife, frustrado por não ter conseguido derrotar os rebeldes. 

A  fase inicial da Restauração da Paraíba durou de 1645 a 1647, estabelecendo as bases e ações para criar-se uma força de resistência paraibana que continuaria a lutar nos anos seguintes, principalmente em Pernambuco, onde se concentraram as principais batalhas nos anos subsequentes. 

(Leandro Vilar Oliveira, doutor em Ciências das Religiões pela UFPB, mestre em História e cultura histórica pela UFPB, membro do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos (NEVE) e membro do Museu Virtual Marítimo EXEA). 

Conheça as outras revoltas que integraram o processo de expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro: 

Restauração da Bahia

Restauração do Maranhão 

Restauração de Pernambuco

Antecedentes

Em dezembro de 1631 ocorreu a primeira tentativa de se conquistar a Capitania da Paraíba pela Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, fracassando tal intento. Posteriormente, em 1634, houve mais duas tentativas, sendo a vitória obtida em dezembro daquele ano. De 1635 a 1645 a WIC dominou a capitania paraibana regularmente, quando a insurreição teve início para romper com essa dominação. 

Conjuntura e contexto

No ano de 1624, a Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais  (West-Indische Compagnie WIC), invadiu e ocupou Salvador por um ano, com o objetivo de obter controle sobre a produção açucareira do Recôncavo Baiano, o “ouro branco” da época. Em 1625, a armada da Jornada dos Vassalos os expulsou. Anos depois, em 1630, a WIC retornou e conquistou Olinda e Recife, iniciando um processo de 24 anos de colonização que resultou em alguns anos de sucesso e lucro para a empresa. 

Números da Revolta

Aproximadamente 1 ano, 4 meses e 13 dias de duração
2000 participantes
150 executados

Outras designações

Insurreição paraibana contra holandeses

Grupos sociais

Autoridades

Lideranças

Ações de protesto não-violentas

  • Desobediência
  • Nomeação de autoridades
  • Ocupação de Ruas/Praças
  • Reunião com autoridades para negociar
  • Troca de cartas

Ações de protesto violentas

  • Batalhas e combates
  • Morte de inimigos

Repressão

Contenção

  • Expedição armada ou repressão militar

Punição

  • Execução

Instâncias Administrativas

  • Governador da Capitania

Bibliografia Básica

CALADO, Manuel. O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade. Lisboa: Paulo Craesbeeck, 1648.

JESUS, Rafael de. O Castrioto Lusitano: ou história da Guerra entre Brazil e Hollanda, entre os annos de 1624 e 1654. Paris: J. P. Aillaud, 1844.

NIEUHOF, Johan. Memorável viagem marítima e terrestre ao Brasil. Tradução de Moacir N. Vasconcelos. introdução, revisão e notas de José Honório Rodrigues. São Paulo: Livraria Martins, 1942.

OLIVEIRA, Leandro Vilar. A Insurreição Paraibana contra os holandeses (1645-1647): uma síntese histórica. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, a. 182, n. 486, p. 15-42, mai./ago. 2021.

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Como Citar

Sem Nome, "Restauração da Paraíba". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/restauracao-da-paraiba/. Publicado em: 13 de agosto de 2026.