Revoltas

Quilombos do sertão do rio Tietê

Capitania Real de São Paulo (1720 – 1821)

Início / fim

1746 / 1778

Data aproximada
Queda do Tietê perto de Itu. Jean-BaptistEe Debret, 1829. Aquarela sobre papel 12,9 x 23 cm. Coleção Condes de Bonneval.

Distantes da Vila de São Paulo, existiam dois grandes quilombos localizados às margens do rio Tietê, cuja formação remonta possivelmente à década de 1740. Ficavam, segundo declara o ofício do capitão-general da capitania de São Paulo de 1778, “no sertão que acompanha o rio Tietê, carreira do Cuiabá”, sugerindo que estivessem nas proximidades da confluência com os rios Paranaíba e Paraná que formavam o roteiro fluvial até Mato Grosso. Conforme suspeitavam as autoridades da capitania de São Paulo, esses quilombolas teriam sua origem na capitania de Minas Gerais, sendo os rebeldes egressos possivelmente da destruição do complexo de quilombos do Campo Grande, atacados em 1746. Elas também relataram que esses mesmos quilombolas planejavam atacar uma expedição comercial fluvial (conhecida como monção) que se dirigia a Cuiabá. O plano foi frustrado e o quilombo desmantelado em 1778.

Segundo o historiador Flávio Gomes, estes quilombos passaram a chamar a atenção das autoridades da capitania após sua expansão, ameaçando a segurança das estradas e rotas. O capitão-general e governador da capitania de São Paulo, Martim Lopes Lobo de Saldanha, organizou uma expedição militar para combater esses dois quilombos. A expedição foi liderada pelo capitão de ordenança, André Dias de Almeida, que os destruiu, segundo relato do ofício escrito pelo capitão-general. 

Entre os quilombolas capturados, alguns eram adultos com cerca de trinta anos de idade, tendo nascido e se criado na comunidade rebelde, enquanto os mais velhos ultrapassavam os sessenta anos e as autoridades não sabiam mais quem seriam seus proprietários originais.

Os quilombolas, segundo informações, tinham a intenção de atacar uma monção, que eram expedições comerciais fluviais que partiam de São Paulo e abasteciam a região mineradora de Cuiabá, na capitania vizinha do Mato Grosso, com produtos agrícolas, armas e outros gêneros. 

Após atacarem os quilombos, o capitão-general Martim Lopes vendeu os prisioneiros e utilizou o dinheiro para recompensar os soldados que atuaram no combate aos rebeldes. Segundo ele, “me pareceu justo mandar vender em praça os referidos cativos e o seu produto reparti-lo aos combatentes, que à custa das suas fazendas os foram prender a risco das próprias vidas (…)”.

(Caio Feitosa, graduando no curso de História da Universidade Federal Fluminense)

Antecedentes

Os registros dos primeiros quilombos em São Paulo datam do início do século XVIII. Desde então, organizam-se algumas expedições para reprimi-los, reduzindo os danos que causavam ao atacar as estradas e rios que se irradiavam em várias direções no planalto. Os quilombos na região podem ter se expandido com a chegada de quilombolas da capitania de Minas Gerais, egressos possivelmente da destruição do complexo de quilombos do Campo Grande, atacados em 1746. Nos anos de 1766-68 há uma perseguição pesada a um grande quilombo, no qual existia uma infraestrutura que revelava ser uma ocupação antiga, na região de Mogi-Guaçu,. Após a repressão parece que o grupo se interiorizou ainda mais no território, buscando garantir maior autonomia.

Conjuntura e contexto

Em 1748, a capitania de São Paulo ficou subordinada à do Rio de Janeiro e, a partir de 1765, recuperou sua autonomia, tornando-se um importante entreposto comercial com ligações comerciais com a capital do Vice-Reino do Brasil, o Rio de Janeiro, bem como com o sul e as minas de Cuiabá. Sob o ponto de vista econômico, era uma área de fronteira aberta ao longo do século XVIII.  Além da produção dos engenhos de açúcar, o comércio entre a capitania de São Paulo e a região mineradora de Cuiabá dinamizou-se a partir das monções, expedições fluviais destinadas a abastecer o sertão (atual região Centro-Oeste) com produtos agrícolas como toucinho, cereais, e ainda tecidos, armas e munições. Essas expedições eram organizadas com canoas, seguindo o estilo indígena, para transportar mantimentos entre São Paulo e Cuiabá. A época mais propícia para essas viagens era durante o período de cheias dos rios (março e abril). A partir dessas monções, a capitania de São Paulo se tornou um grande fornecedor de produtos agrícolas para as minas de Cuiabá, em troca do ouro produzido na região.

Números da Revolta

Aproximadamente 32 anos de duração

Grupos sociais

Autoridades

Ações de protesto não-violentas

  • Fuga de escravizados

Ações de protesto violentas

  • Emboscada
  • Saques a casas e armazéns

Repressão

Contenção

  • Expedição armada ou repressão militar

Punição

  • Escravização e reescravização

Instâncias Administrativas

  • Capitão de Ordenanças
  • Governador da Capitania

Bibliografia Básica

GOMES, Flávio dos Santos et al. A hidra e os pântanos: quilombos e mocambos no Brasil (secs. XVII-XIX). Campinas, tese de doutorado, 1997. p. 533-540.

GOMES, Flávio dos Santos. Mocambos e quilombos: uma história do campesinato negro no Brasil. São Paulo: Claro Enigma, 2015, p. 20.

SILVA, R. de A. e. São Paulo nos tempos coloniais. Revista de História, [S. l.], v. 10, n. 21-22, 1955, p. 55-88.

Fontes impressas

Documentos Interessantes para a História e costumes de São Paulo. Arquivo do Estado de São Paulo, 1903. v. 43. p. 201-202.

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Como Citar

Sem Nome, "Quilombos do sertão do rio Tietê". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/quilombo-do-tiete/. Publicado em: 17 de junho de 2026.