GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2014.
09 de fevereiro de 1756 / maio de 1756
No dia 9 de fevereiro de 1756, os guaranis em luto pela perda de Sepé Tiaraju reuniram-se no plano mais alto dos campos de Caiboaté, a alguns quilômetros dos acampamentos militares ibéricos. Quem os liderava era o corregedor do aldeamento de Concepción, Nicolau Neenguiru, ali ele mandou que cavassem uma grande trincheira em forma de meia-lua, onde suas tropas fariam uma defesa fixa para impedir a marcha inimiga. Quando os exércitos coligados chegaram no dia seguinte, reuniram cerca de 3.200 soldados em adição aos seus poderosos canhões. José Andonaegui exigiu a rendição dos guaranis, uma vez recusada, iniciou os ataques, uma das maiores carnificinas da época, o massacre do Caiboaté.
Um dia após a morte de Sepé Tiaraju, no dia 8 de fevereiro, missioneiros armados cavalgaram e rodearam ao longe as tropas ibéricas, tanto para provocar, quanto para observar. O conselho militar europeu decidiu, mudar o acampamento de lugar e planejou um ataque aos indígenas, pois estavam confiantes devido a grande quantidade e qualidade de seus exércitos, principalmente o lado espanhol, que fora patrocinado por latifundiários de Corrientes e Santa Fé. A desses fazendeiros cabeça fora alimentada por fantasias de tesouros secretos nas sete aldeias e as múltiplas cabeças de gados, garantidos pelo acordo da Ilha San Martin em novembro de 1755, que estipulava a divisão do saque entre as duas nações.
A estratégia de Neenguiru diferiu muito da do antigo líder Sepé. Ao invés de uma tática de guerrilha com ataques rápidos e estratégias para cansar o exército adversário, o corregedor de Concepción optou por uma batalha em campo aberto, um confronto direto com suas tropas entrincheiradas. Dentre os rebeldes havia indígenas dos Sete Povos que seriam deslocados, pessoas dos aldeamentos ocidentais, que não seriam afetados diretamente pela mudança, mas tinham laços de parentesco com os que iriam, e até grupos nômades como os minuanos e os charruas.
Na manhã do dia 10, os guaranis viram os exércitos coligados aproximarem-se em formação de batalha até a base alta onde estavam entrincheirados, Neenguiru enviou um de seus alferes para ter com o governador de Buenos Aires. José Andonaegui repreendeu o emissário e mandou dizer ao novo líder da rebelião que desocupasse suas tropas e retornassem a seus povos para que fossem evacuados, dando garantias de que o rei lhes daria qualquer outra terra que quisessem, desde que se apresentassem diante dele mesmo desarmados e jurassem lealdade. O emissário retornou a Nicolau Neenguiru e logo depois informou que o corregedor de Concepción aceitaria a oferta, mas precisava de tempo para levantar acampamento. Andonaegui lhe deu meia hora.
Uma hora depois, nada mudou. Os guaranis não se moviam, a única mudança que os ibéricos perceberam foi um aumento nos números dos indígenas, pois Neenguiru havia blefado, esperando comprar mais tempo para que mais reforços conseguissem chegar. Percebendo que haviam sido ludibriados, o governador de Buenos Aires e Gomes Freire ordenaram o disparo dos canhões e, em seguida, o avanço das tropas. A sangrenta batalha do Caiboaté durou uma hora e quinze minutos e contabilizou cerca de 1500 mortes no lado da guarani e 150 capturados, do lado ibérico morreram 4 e 40 ficaram feridos..
Após o massacre, houve alguma resistência dos nativos, mas nada conseguiu impedir o exército ibérico de entrar no território das missões em maio de 1756 e ocupar com facilidade as aldeias resistentes. Uma vez que os padres dos aldeamentos se renderam, a Espanha declarou o conflito como encerrado, pois ainda viam os padre como os titeriteiros das nações indígenas, no entanto, os motins, deserções e pequenas resistências continuavam a ocorrer, principalmente em São Nicolau e São Miguel.
Gomes Freire alojou-se em Santo Ângelo em junho de 1756 e, durante 9 meses, esperou o fim do processo de migração dos indígenas, mas os espanhóis não tiveram sucesso, os missioneiros sempre fugiam para o mato ou retornavam poucos dias depois de sua expulsão. Muitos também migraram para o lado português, visando participar do projeto de povoamento da região, atraídos pela “gentileza” portuguesa em comparação com a truculência espanhola, eles faziam acordos secretos com Gomes Freire, que facilitava toda a mudança. Ao sair da região levou consigo muitos indígenas, cerca de 600 famílias guaranis teriam se juntado ao governador do Rio de Janeiro.
O Tratado de Madrid seria anulado no dia 12 de fevereiro de 1761 com a assinatura do Tratado de El Pardo, uma vez que a evacuação dos guaranis fracassou; os dois reinos não conseguiram chegar numa definição final sobre as fronteiras; e entre outros desentendimentos, o lado lusitano chegou à conclusão de que não havia grande presença de metais preciosos em seu novo território, tornou-se reticente em ceder Sacramento, o lucrativo ponto de contrabando de prata espanhola. Seis anos de guerra, milhares de mortes e um tratado que nunca foi realizado.
A região em que ocorreu esta guerra, embora distante geograficamente do centro da Capitania do Rio de Janeiro, esteve sob jurisdição do governador da capitania do Rio desde 1699 (Carta Régia de 9 de novembro) até 19 de setembro de 1807 com a elevação Capitania do Rio Grande de São Pedro.
Este foi um dos episódios de conflitos que, junto a outros, constituem as Guerras Guaraníticas. Você pode acessar os demais verbetes abaixo:
Resistência indígena à conquista estrangeira nos Sete Povos das Missões
Revolta contra a comissão de demarcação de terras dos Sete Povos das Missões
Levante indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José
Revolta indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José
Resistência guarani e a luta pela desocupação de suas terras
(Eduardo Chu, graduado no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ -CNE/2018-2021)
Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madrid, para resolver as disputas territoriais nas colônias, demarcando territórios espanhóis e portugueses na América. Porém, mesmo com a ordem régia, os indígenas aldeados, não permitiram que a demarcação territorial ocorresse.
Aldeamentos jesuítas declararam guerra às coroas ibéricas, e os enfrentamentos seguiram de 1753 até 1757, evidenciando mais do que uma simples desobediência ao Tratado de Madrid. A aliança de interesses por anos cultivada entre índios e espanhóis, com a ajuda dos jesuítas, chegou ao fim.
GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2014.
GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. Como os exércitos de Portugal e Espanha destruíram os Sete Povos dos jesuítas e índios guaranis no Rio Grande do Sul (1750- 1761). Porto Alegre: Editora da Universidade, 1999.
GOLIN, Tau. A Província Jesuítica do Paraguai, a Guerra Guaranítica e a destruição do espaço jesuítico-missioneiro. Paraguay Bicentenário, Assunção, ed. 1°, 2011. p. 1-13.
GOLIN, Tau. “Cartografia da Guerra Guaranítica”. Simpósio Brasileiro de Cartofrafia Histórica, Paraty, ed. 1°, p. 1-15, Maio de 2011.
QUARLERI, Lia. Rebelión y Guerra En Las Fronteras del Plata: guaranfes, jesuitas e imperios coloniales. 1ª. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2009. 381 p.
Sem Nome, "Resistência indígena nos campos de Caiboaté". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/resistencia-indigena-nos-campos-de-caiboate/. Publicado em: 02 de fevereiro de 2026.