GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2014.
24 de fevereiro de 1754 / 24 de fevereiro de 1754
Em julho de 1753, o prazo de um ano dado aos Sete Povos das Missões para evacuarem suas aldeias chegava ao fim, mas nenhum dos assentos guaranis sequer havia começado e nem tinham intenções de fazê-lo. O governo espanhol apressava-se para concluir os termos do Tratado de Madrid (1750), todavia, os nativos mostraram-se resistentes à ideia e, quando foram mais incisivos em sua resposta, sofreram uma declaração de guerra em setembro do mesmo ano das duas coroas ibéricas. A primeira ação, no entanto, só ocorreu em 24 de fevereiro de 1754, no momento em que cerca de 400 guaranis realizaram um ataque no Forte Jesus, Maria e José.
Entre 16 e 20 de julho de 1753, a aldeia de Concepción e todas as aldeias dos Sete Povos, com exceção de São Borja, no lado oeste do Uruguai, enviaram cartas ao governador de Buenos Aires. O conteúdo das cartas demonstrava incredulidade diante das atitudes incoerentes da Coroa: destacava os anos de serviços de seus povos à defesa do território espanhol nas lutas contra os povos não aldeados e os portugueses; recusava a idéia de que essa seria a vontade do rei e não uma conspiração portuguesa; defendiam os padres; e por último, lamentavam a situação, mas se preparariam para a guerra, pois não aceitavam a expulsão.
As cartas sedimentaram a oposição guarani aos olhos dos colonizadores, e em setembro do mesmo ano, esses povos passaram a ser tidos como rebeldes pelas coroas ibéricas, acusando os jesuítas como cabeças do movimento. O que não é verdade, pois apesar de muitos padres apoiarem a resistência, as lideranças de oposição aos reinóis, responsáveis pelas tomadas de decisão, foram figuras proeminentes da elite indígena (Sepé Tiaraju e Nicolau Neenguiru).
Sempre há uma calmaria antes da tempestade e por isso, o primeiro conflito da guerra ocorreu apenas no dia 24 de fevereiro de 1754, quando cerca de 310 indígenas, 200 de São João e 110 de São Luís, atacaram o Forte Jesus, Maria e José na capitania de Santa Catarina, na confluência dos Rios Pardo e Jacuí. O objetivo era intimidar o assentamento e forçar os portugueses a abandonarem seus postos, dessa forma, estenderiam suas fronteiras para melhor proteger o território.
Ao amanhecer, a tropa de guaranis surpreendeu e matou alguns dos sentinelas lusitanos e, em seguida, dividiu sua força militar em três, cada uma comandada por um capitão da respectiva aldeia, cercando o forte. Os ataques dos rebeldes eram feitos com pequenos canhões, flechas e raros tiros de arcabuzes, responsáveis por 14 mortes do total de 70 na guarnição, no entanto, eventualmente, houve uma mudança de planos.
As tropas guaranis deixaram o cerco para roubar suprimentos (alimentos, armas, animais) dos armazéns desprotegidos fora dos muros do forte. Isso permitiu que os portugueses recarregassem sua artilharia e realizassem um contra ataque que tirou a vida de 22 rebeldes e deixou 26 feridos, dispersando o ataque. O capitão de São Luiz teria sido morto nesse combate e decapitado, como forma de provocação.
O jesuíta Tadeu Heins acompanhou o combate do lado guarani e registrou a quantidade de mortos e feridos, divergindo do Tenente Francisco Pinto Bandeira, que registrou apenas três mortes à guarnição e 19 aos invasores. A presença do padre estimulou um exagerado rumor que chegaria até os ouvidos de Gomes Freire, contando que um padre atacou um forte com uma força de mais de 1000 indígenas aldeados.
A região em que ocorreu esta guerra, embora distante geograficamente do centro da Capitania do Rio de Janeiro, esteve sob jurisdição do governador da capitania do Rio desde 1738 até 19 de setembro de 1807 quando passou a ser uma capitania subalterna ao comando da Capitania do Rio Grande de São Pedro.
Este foi um dos episódios de conflitos que, junto a outros, constituem as Guerras Guaraníticas. Você pode acessar os demais verbetes abaixo:
Resistência indígena à conquista estrangeira nos Sete Povos das Missões
Revolta contra a comissão de demarcação de terras dos Sete Povos das Missões
Revolta indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José
Resistência guarani e a luta pela desocupação de suas terras
Resistência indígena nos campos de Caiboaté
(Eduardo Chu, graduando no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ -CNE/2018-2021)
Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madrid, para resolver as disputas territoriais nas colônias, demarcando territórios espanhóis e portugueses na América. Porém, mesmo com a ordem régia, os indígenas aldeados, não permitiram que a demarcação territorial ocorresse.
Aldeamentos jesuítas declararam guerra às coroas ibéricas, e os enfrentamentos seguiram de 1753 até 1757, evidenciando mais do que uma simples desobediência ao Tratado de Madrid. A aliança de interesses por anos cultivada entre índios e espanhóis, com a ajuda dos jesuítas, chegou ao fim.
370 participantes
GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2014.
GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. Como os exércitos de Portugal e Espanha destruíram os Sete Povos dos jesuítas e índios guaranis no Rio Grande do Sul (1750- 1761). Porto Alegre: Editora da Universidade, 1999.
GOLIN, Tau. A Província Jesuítica do Paraguai, a Guerra Guaranítica e a destruição do espaço jesuítico-missioneiro. Paraguay Bicentenário, Assunção, ed. 1°, 2011. p. 1-13.
GOLIN, Tau. “Cartografia da Guerra Guaranítica”. Simpósio Brasileiro de Cartofrafia Histórica, Paraty, ed. 1°, p. 1-15, Maio de 2011.
NEUMANM, Eduardo. “MIENTRAS VOLABAN CORREOS POR LOS PUEBLOS”: AUTOGOVERNO E PRÁTICAS LETRADAS NAS MISSÕES GUARANI – SÉCULO XVIII. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 22, p. 93-119, Jul/Dez 2004.
QUARLERI, Lia. Rebelión y Guerra En Las Fronteras del Plata: guaranfes, jesuitas e imperios coloniales. 1ª. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2009. 381 p.
Sem Nome, "Levante indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/levante-indigena-com-ataque-ao-forte-jesus-maria-jose/. Publicado em: 02 de fevereiro de 2026.