GARCÍA, Elisa Frühauf. De inimigos a aliados: como parte dos missioneiros repensou o seu passado de conflictos com os portugueses no contexto das tentativas de demarcação do Tratado de Madri. Lisboa: Anais de História de Alem-Mar, v. 8, 2007.
26 de fevereiro de 1753 / 27 de fevereiro de 1753
Os Sete Povos das Missões (São Francisco de Borja, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo Custódio), apesar de terem sido ordenados para iniciarem a migração em julho de 1752, se recusam a fazê-lo em fevereiro de 1753. Depois de terem expulsado o comissário especial dos Jesuítas, Lope Luis Altamirano, a resistência guarani persistia no enfrentamento à Ordem Régia. No dia 26 do mesmo mês, um grupo de indígenas de São Miguel interceptaram a 1° equipe de demarcação dos limites do Tratado de Madrid e os obrigaram a voltar para Sacramento, impedindo-os de completar seu trabalho. Essa ação resultou na declaração de guerra da Espanha sobre seus súditos. Os conflitos e resistências resultantes dessa tensão entre parte dos guaranis aldeados e as coroas ibéricas, fazem parte do que hoje conhecemos como Guerra Guaranítica.
Desde setembro de 1752, o Governador da Capitania do Rio de Janeiro, Gomes Freire, representava Portugal e Gaspar de Munive León Tello y Espinosa (Marquês de Valdelírios) representava a Espanha nas diversas conferências que aconteciam em Castillos (Uruguai) para a organização das missões de demarcação das novas fronteiras entre as colônias europeias na América
Os comissários, apesar da recente chegada na região, já haviam experimentado hostilidades indígenas por parte do grupo seminômade, os minuanos. No dia 20 de outubro de 1752, o Marquês de Valdelírios teve seus cavalos roubados durante uma viagem, sendo obrigado a pedir ajuda de Gomes Freire para voltar. O governador do Rio de Janeiro enviou 75 soldados montados, além de 200 cavalos para acudir o representante espanhol. Dias depois, soldados encontraram os minuanos, matando 18 e capturando 28. O cacique Moreira, líder dos minuanos, foi um dos capturados e os espanhóis iriam executá-los, mas Gomes Freire impediu e recrutou Moreira para suas fileiras.
O desafio dos aldeados ocorreria mais tarde, durante a primeira expedição demarcadora de 400 homens, composta por técnicos e militares das duas coroas ibéricas, cuja liderança era dividida entre Juan de Echevarria e Francisco Antonio Cardoso. A aproximação das autoridades reinóis era sabida e os jesuítas de São Miguel enxergaram uma oportunidade para amenizar as tensões de sua ordem com as monarquias, enviando o alferes real do aldeamento e outros caciques para presentear a comitiva com provisões. O alferes, todavia, chamado Sepé Tiaraju, mudou seus planos assim que descobriu as intenções da expedição, alinhando sua rota com a de outros caciques, que esperavam pela comitiva.
A interceptação à demarcação ocorreu no dia 27 de fevereiro em Santa Tecla, horas depois dos expedicionários pedirem que o posteiro enviasse uma carta ao padre de São Miguel, Lourenço Bada. No entanto, cerca de 30 guaranis armados foram os únicos a aparecerem, estes exigiram conversar com o capitão de dragões, Francisco Bruno de Zabala. A ele, Sepé disse que não poderia deixá-lo passar, pois não tinha ordem direta do governador ou dos padres para tal e ainda recomendou que a expedição recuasse, se não quisessem enfrentar o exército de 9.000 guaranis que marchavam em direção ao posto.
O alferes de São Miguel estava blefando, não havia força militar desse tamanho, Sepé queria apenas intimidar os ibéricos, impedindo a demarcação do tratado e foi exatamente o que conseguiu. Um conselho militar entre os líderes da expedição decidiu que recuariam, talvez por acreditarem na existência da formidável força bélica indígena ou por não terem ordens de atacar, mas segundo Lia Quarleri (2009), os expedicionários, temendo represálias, omitiram de seus relatos o fato de não terem testemunhado o dito exército.
O impedimento da demarcação foi um desafio dos súditos guaranis à autoridade, um passo firme na direção da guerra que seria declarada pelos colonizadores pouco tempo depois. Desse ponto em diante, as preparações para os confrontos armados ocuparam as prioridades de portugueses, espanhóis e guaranis.
A região em que ocorreu esta guerra, embora distante geograficamente do centro da Capitania do Rio de Janeiro, esteve sob jurisdição do governador da capitania do Rio desde 1699 (Carta Régia de 9 de novembro) até 19 de setembro de 1807 com elevação à Capitania do Rio Grande de São Pedro.
Este foi um dos episódios de conflitos que, junto a outros, constituem as Guerras Guaraníticas. Você pode acessar os demais verbetes abaixo:
Resistência indígena à conquista estrangeira nos Sete Povos das Missões
Levante indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José
Revolta indígena com ataque ao Forte Jesus Maria José
Resistência guarani e a luta pela desocupação de suas terras
Resistência indígena nos campos de Caiboaté
(Eduardo Chu, graduando no curso de História da UFF e pesquisador do projeto “Um Rio de Revoltas” – FAPERJ -CNE/2018-2021)
Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madrid, para resolver as disputas territoriais nas colônias, demarcando territórios espanhóis e portugueses na América. Porém, mesmo com a ordem régia, os indígenas aldeados, não permitiram que a demarcação territorial ocorresse.
Aldeamentos jesuítas declararam guerra às coroas ibéricas, e os enfrentamentos seguiram de 1753 até 1757, evidenciando mais do que uma simples desobediência ao Tratado de Madrid. A aliança de interesses por anos cultivada entre índios e espanhóis, com a ajuda dos jesuítas, chegou ao fim.
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GARCÍA, Elisa Frühauf. De inimigos a aliados: como parte dos missioneiros repensou o seu passado de conflictos com os portugueses no contexto das tentativas de demarcação do Tratado de Madri. Lisboa: Anais de História de Alem-Mar, v. 8, 2007.
GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. Como os exércitos de Portugal e Espanha destruíram os Sete Povos dos jesuítas e índios guaranis no Rio Grande do Sul (1750- 1761). Porto Alegre: Editora da Universidade, 1999.
GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica. O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2014.
GOLIN, Tau. A Província Jesuítica do Paraguai, a Guerra Guaranítica e a destruição do espaço jesuítico-missioneiro. Paraguay Bicentenário, Assunção, ed. 1°, 2011. p. 1-13.
QUARLERI, Lia. Rebelión y Guerra En Las Fronteras del Plata: guaranfes, jesuitas e imperios coloniales. 1ª. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2009. 381 p.
Sem Nome, "Revolta contra a comissão de demarcação de terras dos Sete Povos das Missões". Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/revolta-contra-a-comissao-de-demarcacao-de-terras-dos-sete-povos-das-missoes/. Publicado em: 02 de fevereiro de 2026.