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Volume 19
Número 35

Julho – Dezembro, 2013

ISSN 1980-542X
DOI: 10.5533/TEM-1980-542X-20131734

Missões na América ibérica: dimensões políticas e religiosas

Apresentação
Elisa Frühauf Garcia

DOSSIÊ

Em 1772, o governador de Buenos Aires comunicou ao governador do Chile uma notícia considerada como “digna de saber-se”. Na ocasião, um índio cristão, que conseguira fugir após passar alguns anos como prisioneiro dos índios “infiéis” do Chile, informava sobre a existência de um jesuíta que se tornara cacique. Apesar de não mencionar o nome do inaciano, afirmou que ele tinha oito mulheres e observava rigorosamente todos os costumes vigentes entre “aqueles bárbaros”, sendo muito “respeitado e reconhecido.” Seriam verídicas as informações prestadas pelo índio cristão? Difícil saber. As autoridades coloniais teriam dado mais importância à notícia devido à conjuntura antijesuítica então vigente? Talvez. O caso, porém, indica que semelhante situação era considerada verossímil na sociedade colonial, revelando facetas da experiência missionária ainda abordadas de forma incipiente pela historiografia.

Aldeias e missões nas capitanias do Ceará e Rio Grande: catequese, violência e rivalidades
Lígio de Oliveira Maia

DOSSIÊ

A ação missionária nas capitanias do Ceará e Rio Grande, no final do século XVII e início da centúria seguinte, foi marcada por uma disputa de interesses que envolvia, além dos religiosos, diversas autoridades coloniais locais e as tropas de paulistas. Em jogo, a suspeitável proeminência de cada um dos atores sociais envolvidos em um conflito generalizado de violência que marcou a denominada Guerra do Açu, quando então, aldeando índios gentios ou fustigando os povos indígenas no sertão, cada um deles buscava mercês da Coroa portuguesa e influência direta na região de conflitos.

A ordem da missão e os jogos da ação: conflitos, estratégias e armadilhas na Amazônia do século XVII
Almir Diniz de Carvalho Júnior

DOSSIÊ

Durante o século XVII, o processo de conquista espiritual e política das populações ameríndias na Amazônia foi conduzido pela Coroa Portuguesa e pelos missionários católicos divididos em várias ordens religiosas e sob a gerência dos Jesuítas. Este artigo aborda as estratégias políticas dos índios cristãos, no tempo dessas missões, a partir de um singular episódio que envolveu o jesuíta Antônio Vieira e o Principal indígena Lopo de Souza em meados do século XVII. O objetivo é revelar as complexas relações políticas e as estratégias de sobrevivência e de luta por espaços de autonomia desses índios, situados entre a vassalagem e a escravidão.

Falando a língua do inimigo: a solidão do missionário nas terras calchaquís
Christophe Giudicelli

DOSSIÊ

Este trabalho analisou um paradoxo: a sincronia entre a aquisição tardia do idioma kakán pelos missionários e o brutal desaparecimento da missão Calchaquí em meados dos anos 1660. Quando os jesuítas já falavam o idioma, esse conhecimento já não tinha nenhuma utilidade, pela extinção da missão e deportação de seus neófitos. Por sua vez, este paradoxo fez com que o estatuto de tal idioma, hoje inexistente, fosse investigado na economia linguística colonial. De língua veicular, terminou como o idioma exclusivo do inimigo, identificado como um território (os Valles Calchaquíes), e como uma atitude rebelde. Sua extensão foi diminuindo conforme a colonização avançava, promovendo-se os idiomas de comunicação colonial, particularmente o quéchua. Por fim, a dispersão dos habitantes fora dos vales deixou aos missionários um conhecimento que serviria apenas para propósitos técnicos: transmitir ordens à milícia dos calchaquíes vencidos, alistados como “índios amigos” nas milícias da província.

Interações missionárias e matrimônios de índios em zonas de fronteiras (Maranhão, início do século XVII)
Charlotte de Castelnau-L’Estoile

DOSSIÊ

Este estudo analisa a missão em termos de interação, estudando tanto a perspectiva indígena quanto a dos evangelistas. Índios e missionários são ambos atores nesse ministério, que nunca está distante da relação de poder colonial. É através da questão do matrimônio cristão dos índios que a referida interação é abordada. O matrimônio é o centro do projeto missionário de transformação dos índios, sendo, da mesma forma, o centro de resistência ou de negociação indígena. A partir do exemplo de fontes de capuchinhos franceses do início do século XVII, no Maranhão, o texto procura mostrar a grande riqueza dos escritos dos frades para a história e a antropologia dos índios em situação de contato com os missionários.

Dimensões da liberdade indígena: missões do Paraguai, séculos XVII-XVIII
Elisa Frühauf Garcia

DOSSIÊ

Apesar de serem considerados livres no conjunto do Império espanhol, os índios possuíam um estatuto específico, que os colocava em uma situação subordinada na hierarquia da sociedade colonial. Eles eram vinculados juridicamente às suas comunidades, criadas ou reformuladas no processo de construção do Estado na América. Tais comunidades deveriam prestar serviços ao monarca e significavam uma série de obrigações aos seus habitantes. O vínculo às comunidades e as obrigações daí advindas, muitas vezes, representavam um entrave para a realização dos seus projetos e ambições pessoais. Analisando as missões do Paraguai e as interações dos seus habitantes com a sociedade colonial na fronteira sul da América, pretendo problematizar como os índios percebiam o seu estatuto diferenciado – livre, porém com várias restrições – e demonstrar quais estratégias empregavam para atingir os seus próprios objetivos.

Os Anjos da Meia-Noite: trabalhadores, lazer e direitos no Rio de Janeiro da Primeira República
Leonardo Affonso de Miranda Pereira

ARTIGO

Em julho de 1913, os sócios do Club Dançante Familiar Anjos da Meia Noite requeriam ao Supremo Tribunal Federal um habeas corpus que lhes garantisse o direito de realizar bailes dançantes na região portuária do Rio de Janeiro. Era o fim de uma longa batalha jurídica por meio da qual os trabalhadores de baixa renda que compunham o clube, em sua maioria negros e mestiços, tentavam assegurar seus direitos recreativos. O faziam, porém, a partir de um tipo de associação cujos objetivos estavam distantes da lógica própria ao movimento operário do período. Acompanhar o caso, dando a ver seus antecedentes e lógicas, é, por isso, um meio de refletir sobre a imagem passiva projetada sobre os trabalhadores do Rio de Janeiro na Primeira República por parte da historiografia.

O “tríduo da loucura”: Campos Elyseos e o carnaval afro-diaspórico
Petrônio Domingues

ARTIGO

O artigo procura reconstituir aspectos do carnaval de São Paulo nas primeiras décadas do século XX, centrado na trajetória de uma das manifestações artístico-culturais dos afro-paulistas: o Grupo Carnavalesco Campos Elyseos. Num contexto em que o negro ficou subalternizado social e politicamente, o cordão carnavalesco assumiu um sentido afirmativo, convertendo-se num meio de promoção desse segmento racial. Além de garantir diversão e entretenimento aos associados, a agremiação colocava em circulação noções de pertencimento, igualdade e cidadania.

O dilúvio universal e a América: relações entre as cosmovisões indígena e cristã no Códice Telleriano Remensis
Gláucia Cristiani Montoro

ARTIGO

Este artigo analisa os textos do Códice Telleriano Remensis, escritos por missionários dominicanos na Nova Espanha do século XVI, nos quais aparecem associações entre aspectos do cristianismo e mitos e práticas indígenas, como a referência a um dilúvio, demonstrando a preocupação dos frades em encontrar um lugar para os povos nativos da América na cosmovisão europeia cristã.

A releitura do passado farroupilha no IHGB (1921–1935): memória republicana e legitimidades intelectuais
Mara Cristina de Matos Rodrigues

ARTIGO

O artigo trata da releitura da Guerra dos Farrapos (1835-1845) no IHGB, entre os anos 1920 e a comemoração do centenário do conflito, em 1935, que acabou por integrá-lo à memória histórica nacional. Neste processo, foram acionadas estratégias discursivas e institucionais, relacionadas ao uso político do passado, à tradição historiográfica do IHGB e às legitimidades intelectuais construídas.

Goiás na arquitetura geopolítica da América portuguesa
Fernando Lobo Lemes

ARTIGO

A estratégia adotada pelo rei de Portugal a partir dos anos 1740, com a fragmentação da jurisdição eclesiástica do Rio de Janeiro e a instalação das Capitanias de Goiás e Mato Grosso, imprime uma nova orientação na diplomacia de Lisboa com relação à América portuguesa. Nesse contexto, buscamos compreender o novo estatuto das minas de Goiás nas negociações que visam garantir e ampliar o controle da administração colonial sobre os territórios situados na fronteira com o império espanhol.

O terceiro-mundismo no campo cultural argentino: uma sensibilidade hegemônica (1961-1987)
Germán Alburquerque

ARTIGO

Este artigo estuda a trajetória do Terceiro Mundo e do terceiro-mundismo na Argentina e tenta explicar como isso se constitui em uma sensibilidade hegemônica ao interior do campo intelectual de tal país, entre as décadas de 1960 e 1970. Com este objetivo, foram examinadas as disciplinas, as tendências políticas e os movimentos culturais que colocaram o Terceiro Mundo no centro de suas preocupações.

Religião, escrita e sistematização: reflexões em torno dos Annales Maximi
Claudia Beltrão da Rosa

ARTIGO

O tema dos Annales Maximi ocupou – e ainda ocupa – um lugar especial na atenção dos historiadores, e esses livros, a despeito das variantes interpretativas, são geralmente observados à luz da escrita da história e de questões relativas à memória romana. Este artigo aborda o problema dos Annales Maximi sob o viés dos estudos da religião romana, buscando compreender seu lugar no processo de construção e sistematização do conhecimento religioso na urbs entre os séculos III e I a.C.

A segunda escravidão
Ricardo Salles

RESENHA

TOMICH, Dale. Pelo prisma da escravidão. Trabalho, Capital e Economia Mundial. São Paulo: Edusp, 2011. 248 p.

Livro para saborear: método científico regado a sensibilidades
Tati Costa

RESENHA

ALVES, Rubem. Variações sobre o prazer: Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011. 188 p.

Robert Frank e a História das Relações Internacionais. Balanço e manifesto
Alexandre Luis Moreli Rocha

RESENHA

FRANK, Robert (org.). Pour l’histoire des relations internationales. Paris: PUF, 2012. 776 p.