Veja o Projeto (2005)

JONGOS, CALANGOS E FOLIAS: RELATÓRIO DAS ATIVIDADES REALIZADAS E ESTRATÉGIAS DE AÇÃO PARA 2008 e 2009.

Relatório de Atividades:

Depois de quase três anos, entre o planejamento, a aprovação e a execução do projeto pelo Edital Petrobrás Cultural 2005, concluímos o DVD proposto – Jongos, Calangos e Folias. Como planejado, começamos a distribuí-lo nas principais escolas, bibliotecas e centros culturais das regiões envolvidas com o projeto (Angra dos Reis, Piraí, Barra do Piraí, Valença, Duas Barras, Baixada Fluminense, Cabo Frio e Búzios), e já disponibilizamos, para acesso de pesquisadores, o ACERVO Petrobrás Cultural de Memória da Música Negra da UFF, na Internet e na Universidade Federal Fluminense. Com mais de 180 horas de gravações, este ACERVO pode ser consultado na Biblioteca Geral do Gragoatá, em nossa Universidade, a partir de um catálogo completo, que disponibiliza uma descrição detalhada de cada uma das fitas (decupagem) e é organizado em banco de dados em software livre, por região e palavra chave. O catálogo está disponível para consulta on line, no site do projeto (www.historia.uff.br/jongos/acervo). Ali também está disponível um expressivo levantamento bibliográfico sobre o assunto. Efetivamente criamos um centro de pesquisa e referência sobre as comunidades e manifestações culturais abordadas, no Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, contribuindo para a construção de uma história da cultura e da música negras no Brasil.

O percurso até agora trilhado confirmou inteiramente todas as nossas expectativas. Localizamos, inventariamos e registramos expressivas manifestações culturais – os jongos, calangos e folias -, ao lado de inúmeras narrativas sobre essas manifestações e sobre as histórias dos construtores desse impressionante patrimônio cultural imaterial. Visitamos várias comunidades e entrevistamos dezenas de pessoas, que transformam esse patrimônio ora em fator de coesão do grupo e afirmação cultural, ora em caminhos de identidade étnica e luta política (Quilombo Bracuí, Angra dos Reis; Quilombo da Rasa, Búzios; Quilombo São José da Serra, Valença; Barra do Piraí, Piraí, Duas Barras, Baixada Fluminense, Caxias e Queimados). Descendentes da última geração de escravos e africanos no Estado do Rio de Janeiro, os protagonistas desse expressivo patrimônio, ainda são pouco conhecidos. Até muito recentemente, seu patrimônio era pouco visível, em função de outras prioridades e investimentos, em termos culturais e educacionais. O DVD e o Acervo UFF/Petrobrás Cultural da Música Negra dão voz a essa população e divulgam seu patrimônio cultural imaterial, antes disperso e pouco conhecido. A poesia oral documentada surpreende os pesquisadores e testemunha um impressionante canal de discussão comunitária e política das diversas dimensões da vida: cotidiano, família, amor, poder e cidadania.

O apoio da Petrobras Cultural ao trabalho desenvolvido também teve um efeito científico transformador, à medida que nos permitiu compreender melhor as articulações entre memórias transmitidas, heranças culturais africanas, identidades negras e processos de intercâmbio e renovação cultural, ao longo do século XX. Em termos acadêmicos, contribuímos com a formação em pesquisa de 20 alunos de graduação em História, que participaram diretamente da realização do projeto, assim como de centenas de outros que freqüentam nossos cursos ligados à temática do patrimônio cultural. A parceria entre a Petrobrás e os Núcleos do Departamento de Historia da UFF (LABHOI e NUPEHC) tem permitido a ampliação da pesquisa e a divulgação do conhecimento produzido.

O patrimônio imaterial dos descendentes de escravos, levantado pelo projeto e documentado no ACERVO Petrobrás Cultural de Música Negra, passa a fazer parte do currículo de formação de professores de Historia da Universidade Federal Fluminense. O material produzido permite a valorização e o reconhecimento das manifestações da cultura popular e negra. Através das ações dos professores, esperamos que possa abrir caminhos culturais e políticos de inclusão de setores afrodescendentes.

Objetivos para o ano de 2008:

Em 2008, mantendo as premissas anteriores, pretendemos dar continuidade ao projeto e ampliar seus efeitos multiplicadores. A partir do acervo áudio-visual já desenvolvido, planejamos produzir um livro coletivo e editar mais quatro pequenos filmes de curta metragem (10 minutos, em média), para cada uma das regiões estudadas, além de mais um curta de cerca de 20 minutos sobre uma nova manifestação cultural inventariada no curso das pesquisas, a capoeira do cacete (vide estratégias de ação a seguir). Pretendemos também ampliar o acesso ao acervo, disponibilizando cópias do mesmo nas regiões pesquisadas.

Em termos mais específicos, pretendemos intervir na construção dos novos conteúdos do ensino de história através de uma agenda de distribuição dos dvds, em parceria com as secretarias municipais de educação das regiões envolvidas, que inclui oficinas sobre o uso didático do material produzido pelo projeto para os professores das escolas selecionadas para doação do mesmo. O filme e a disponibilidade do acervo auxiliarão os professores dessas escolas a desenvolver uma perspectiva de educação patrimonial e valorização das expressões culturais de famílias de setores populares e de muitos de seus alunos.

Atualmente, para além do reconhecimento e valorização das manifestações musicais e culturais pesquisadas, questões sobre a sua salvaguarda e sobre a sustentabilidade das comunidades que receberam (como é o caso das que possuem o jongo), ou pleiteiam títulos de detentoras do patrimônio cultural do Brasil, têm sido alvo da atenção dos especialistas, envolvidos com planos de desenvolvimento cultural, municipal, estadual e federal. Embora ainda sejam limitados os resultados nesta direção, já é visível e destacável o crescimento da auto-estima e auto-valorização desses grupos que transformaram – ou pretendem transformar - seus patrimônios familiares em patrimônios culturais do Brasil. E essa transformação não é pouca coisa, posto que passa a ser uma importante base de reivindicação politica e social, como o direito à terra, em várias comunidades quilombolas pesquisadas.

Em 2008 pretendemos dirigir nossos esforços para a sustentabilidade das comunidades e salvaguarda de suas manifestações, através da maior divulgação do ACERVO - sua ampla consulta - e da produção de novos DVDs. Dentre os caminhos da sustentabilidade e salvaguarda, entendemos que as escolas ocupem papel fundamental. O reconhecimento dos patrimônios culturais populares e afro-descendentes nas escolas permitirá uma rediscussão sobre o que deve, ou não deve, ser valorizado e reconhecido como patrimônio de cada cidade ou região. Saberes desconhecidos ou desvalorizados podem ganhar novos espaços, incentivos e, principalmente, direitos. Os patrimônios culturais podem abrir oportunidades politicas de participação, inclusão e reivindicação. A intervenção que propomos nas escolas, através de oficinas com os professores sobre as possibilidades da consulta do ACERVO e de usos pedagógicos dos DVDs, permitirá a abertura de caminhos mais efetivos e duradouros de salvaguarda e sustentabilidade.

Estratégias de Ação:

  • Livro coletivo sobre os resultados da pesquisa englobando os seguintes temas: 1) A memória do Jongo tem história – cultura, política e identidade africana no Rio de Janeiro; 2) Descobrindo o Calango - hibridismos e mestiçagens culturais nos cantos de trabalho do mundo rural fluminense pós-abolição; 3) Amarrando a Folia - cultura negra e folias de reis no Rio de Janeiro pós-abolição; 4) Memória e Identidade Negra – genealogia e migrações no Rio de Janeiro (1920-1960); 5) Memória e história do tráfico ilegal de escravos e da construção da identidade negra no Quilombo do Bracuí; 6) Conexões atlânticas: o “Jogo do Pau” no mundo atlântico e no antigo complexo cafeeiro fluminense.
  • Quatro pequenos curtas historiográficos (dez minutos) sobre cada uma das regiões pesquisadas (Litoral Sul, Litoral Norte, Vale do Paraíba [Sul], Vale do Paraíba [Norte]).
  • Documentário de 20 minutos sobre a Capoeira do Cacete, sob direção geral de Mathias Assunção (Universidade de Essex – UK, pesquisador associado ao LABHOI-UFF, professor visitante no Programa de Pós-Graduação em História da UFF em 2007). Sinopse - O crescimento fenomenal e a globalização da capoeira têm suscitado crescente interesse pela sua história e vem fomentando estudos sobre jogos de combate no “atlântico negro”. O jogo de pau era praticado por homens pobres, na sua maioria negros, em fazendas e vilas do Vale do Paraíba. O ACERVO UFF-Petrobrás possui algumas horas de filmagens com informantes em várias localidades que ainda o executam e foram entrevistados sobre o contexto socio-cultural do jogo, em geral associados à recreação, festas e brigas. O objetivo do curta de 20 mins é documentar as técnicas e a inserção social da prática. Isto permitirá complementar o estudo em andamento sobre outras manifestações da cultura negra no estado e entender melhor o processo de formação da capoeira a partir de práticas díspares.
  • Produção e distribuição de uma caixa com três DVDs (Memórias do Cativeiro/ Jongos, Calangos e Folias e outro com os quatro curtas e o filme do Jogo do Pau), associada a um encarte pedagógico.

Pretendemos ainda ampliar o trabalho de pesquisa e produção de registros de memória áudio-visuais, com base na metodologia desenvolvida pelo LABHOI, em duas novas direções:

1) A vasta região entre a Restinga da Marambaia e Mambucaba, no litoral sul fluminense, a Serra da Bocaina e o Vale do Rio Piraí faziam parte, no século XIX, dos domínios da Família Souza Breves, especialmente de seus dois irmãos, Joaquim José, considerado o Rei do Café, e José Joaquim. Símbolos arquitetônicos de sua suntuosa presença ainda podem ser vistos, em antigos casarões, muitos dos quais em ruínas, capelas e cemitérios, que embalaram as vidas e as mortes de seus familiares e inúmeros dependentes.

Mas o que mais surpreende ao visitante na região é que a memória dessa família também se faz presente através de relatos de descendentes de seus inúmeros escravos. Durante as entrevistas para o acervo UFF-Petrobrás Cultural na região, em meio às conversas com os moradores das antigas fazendas situadas no litoral sul fluminense, ressurgiram histórias contadas com vivacidade e riqueza de detalhes que recuperavam “o tempo dos Breves”, a experiência da escravidão, e, sobretudo, o tráfico ilegal de africanos. Essas temáticas se configuraram como coincidências narrativas reincidentes, que em grande parte estimularam o caminho de ampliação da pesquisa ora apresentado. Nosso maior objetivo é exatamente registrar e conhecer melhor este impressionante encontro entre a memória e a história nesta região fluminense.

Para tal empreitada, selecionamos cinco comunidades, descendentes dos escravos da região e do antigo domínio dos Breves: o grupo de jongo de Mambucaba e o atual quilombo do Bracuí, em Angra dos Reis, o quilombo da Marambaia, em Mangaratiba, o grupo de jongo de Pinheiral e o grupo de jongo de Arrozal, no velho vale do Piraí. Os quatro últimos grupos declaram-se descendentes dos escravos de José Joaquim de Souza Breves e todos eles partilham um patrimônio cultural comum, expresso principalmente no jongo. O registro da memória e do patrimônio cultural presentes nestas comunidades permitirá acompanhar de perto como os laços familiares e culturais, criados no período escravista e reforçados no pós-abolição, permaneceram, ao longo do século XX, e transformaram-se no alvorecer do século XXI em instrumentos políticos na luta contra o racismo e pela afirmação de uma identidade negra e/ou afro-brasileira. Essas comunidades demonstram hoje saber usar o passado: transformam a sua história e memória em patrimônio cultural coletivo e bandeira de luta por direitos.

2) Norte Fluminense. O Noroeste Fluminense, especialmente Santo Antônio de Pádua, Miracema e Itaperuna, também possui um rico patrimônio cultural em torno dos jongos, jogo do pau e folias de reis, pouco explorados nessa primeira fase do projeto. A presença da UFF na região nos levou a priorizar o inventário do patrimônio imaterial da área como nova fronteira de investigação.

realização:
labhoi nupehc uff
apoio:
labhoi
patrocínio:
petrobras Lei de Incentivo Brasil - Governo Federal